Dia de luto, dia de luta | Por Dilma Rousseff

Dilma Rousseff (PT-MG), ex-presidente da República.

Dilma Rousseff: 55 anos depois da ditadura militar, vivemos novamente tempos sombrios de ódio e intolerância.

Os 55 anos do Golpe Militar no Brasil são, para todos nós que lutamos contra o arbítrio, pelas liberdades democráticas e pelos direitos humanos e sociais, uma triste lembrança.

1964 é uma ferida aberta na história política do país. São tempos que evocam prisão, tortura, morte e exílio. Tempos em que a ação dos governos ditatoriais levou ao fechamento do Congresso Nacional, ao cancelamento de eleições diretas para presidente, governador e prefeito e à cassação de ministros do STF.

Instituíram a censura à imprensa e desencadearam a mais violenta repressão às greves de trabalhadores e às manifestações estudantis. A gente brasileira, como lamentou o nosso poeta, passou a falar de lado e olhar para o chão.

Não há, portanto, motivo algum para comemorar o 31 de março. Hoje é dia de luto, e de luta. Para que não se esqueça e para que não se repita, os cidadãos brasileiros sairão às ruas em várias cidades do País, na Caminhada do Silêncio pelas Vitimas da Violência do Estado.

Especialmente porque, passados 55 anos, mais uma vez nos afastamos da democracia. E, hoje, infelizmente, o país não está pacificado. Longe disso. Depois do Golpe de 2016, que me tirou da Presidência da República, vivemos novamente tempos sombrios de ódio e intolerância.

Para surpresa dos democratas, comprometidos com a soberania nacional e os direitos sociais, e para perplexidade da imprensa que o apoiou, os elogios descarados do atual presidente da República ao Golpe de 64 mostram que estamos distantes da pacificação sonhada.

Em 2012, na instalação da Comissão Nacional da Verdade, eu disse que a ignorância sobre a história não pacifica. Pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda a apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância.

É duro ver que após a nossa incansável luta pela democracia, a qual muitos pagaram com a vida, outros com a dor e sacrifício, estamos assistindo, agora, a uma comemoração do golpe de 1964, forjada pelo atual Presidente. Todos sabemos que brasileiros e brasileiras foram assassinadas pela ditadura e muitos estão “desaparecidos” até hoje. Amigos e familiares guardam a dor da ausência de muitos de seus filhos e pais.

Não há nada a comemorar nesse dia. Só rezar pelos mortos e manter a certeza de que iremos resistir ao autoritarismo para construir uma Nação sem ódios, sem mágoas e sem perseguições. Uma Nação cheia de cidadania, direitos sociais e humanos e que afirma a soberania nacional.

Para isso, manifestemos nossa indignação, como muitos brasileiros e brasileiras estarão fazendo hoje ao participar da Caminhada do Silêncio, em várias cidades do Brasil.

Vamos resistir e continuar lutando por um Brasil mais igual, justo e soberano.

Ditadura nunca mais!

*Dilma Rousseff, ex-presidenta da Republica do Brasil e vítima dos Golpes de 1964 e 2016.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).