Salvador: Seminário ‘Caminhos que levam a Exu’ visa vencer preconceitos em relação a um dos maiores tabus das religiões de matriz afrobrasileira

Pai Fábio de Oxum é idealizador do seminário.

Pai Fábio de Oxum é idealizador do seminário.

“Deus me livre!” ou “Tá amarrado!” não seriam expressões de se estranhar, em resposta ao convite para o Seminário “Caminhos que levam a Exu”, marcado para o dia 30 de março, no Teatro Jorge Amado. Orixá que rege a comunicação e os caminhos, guardião das casas e das ruas – segundo a tradição Iorubá – é ele quem faz a ligação entre Orun e Aiyê, o céu e a terra, e que permite aos humanos o contato com as divindades. Há mais de cinco séculos, ainda na África, Exu foi associado com a figura do diabo cristão, e desde então é cercado de mistérios, preconceitos e desinformações.

O seminário é uma realização do Centro de Umbanda Caboclo Taperoá (CUCT) e vai dedicar manhã e tarde neste dia para falar dessa importante entidade espiritual, ao modo alegre que lhe faz jus: com muita música, esquetes de teatro e dança, cânticos de coral e curimba, livraria especializada e decoração temática. Tudo isso, mediado entre  palestras e mesas com Pais e Mães de Santo, pesquisadores e especialistas nas tradições e na cultura de origem africana. Dentre os destaques da programação, a cantora Márcia Short faz uma saudação musical ao Orixá dos caminhos em um pocket show com canções de carreira e menções ao universo do candomblé e da umbanda.

“Toda a programação visa melhorar o entendimento para combater o medo e preconceito que são origem da intolerância religiosa e do desrespeito à nossa fé”, afirma Fábio Samadelo – ou Pai Fábio D’Oxum, sacerdote responsável pelo CUCT. Ele é um dos palestrantes a abordar temas como as lendas e mitos de Exu no Brasil e na África; as diferenças entre Exu Orixá e “Exu de Lei”; as representações de Exu na arte; e as energias, trabalhos e oferendas dedicadas a Exu.

Nomes como os de Pai Rafael, do Centro Umbandista Maria da Piedade; Pai Leandro, da Casa de Sultão das Matas; e Mawó Adelson de Brito, da Casa da Azansú, também compõem as mesas que acontecem entre as apresentações artísticas. “A arte tem um papel fundamental no seminário porque, além de ser um importante veículo para a compreensão desse universo mítico, é também símbolo de prazer, alegria e deleite, que têm tudo a ver com Exu”, destaca Pai Fábio. A AUMBA – Associação dos Umbandistas da Bahia se encarrega da mesa de abertura, quando faz um panorama do crescimento da Umbanda no estado brasileiro mais marcado pela influência do candomblé, no contexto das religiões de matrizes africanas.

Exu

Como mensageiro e responsável pela ligação entre as diversas dimensões, é Exu que permite o contato entre os humanos e todo o campo metafísico, incluindo os Orixás. “Sem Exu não tem nada, nem Umbanda, nem candomblé, por isso, ele é o primeiro a receber as oferendas, para garantir que tudo ocorra bem”, explica Pai Fábio. E se por um lado o preconceito é grande, de outro ele não foge ao enredo em torno do Orixá: Senhor da comunicação, Exu governa também a polêmica e é ele mesmo, portanto, a chave para novos entendimentos, para novas visões de mundo.

Dentro da sua mitologia, está a ideia de que ele “come de tudo”, tendo assim já experimentado todas as coisas e se tornado, por isso, profundo conhecedor da alma humana, inclusive de suas mazelas, incongruências, medos e fraquezas. A identificação histórica com o diabo se estabeleceu ainda na África, entre os séculos XV e XVI, por colonizadores europeus que, baseados no forte maniqueísmo cristão, foram incapazes de compreender uma divindade de característica irreverente, provocativa e sensual. Um grande equívoco, dado que sequer existe a ideia de personificação do mal na teologia iorubá, nem de uma força qualquer que esteja em franca oposição a Deus, como em outras religiões.

“Exu está acima das interpretações humanas carentes de conforto estático e que por isso elegem alguns sentimentos como positivos e outros como negativos”, define Mawó Adelson. Tomemos como dado basilar a tradução da palavra Exu como esfera, por exemplo, que orienta uma reflexão sobre a dinâmica da própria vida, sempre em interação e em movimento. “É assim que para Exu a raiva, o ódio, o amor, a compaixão, o desprezo, são sentimentos tão negativos quanto positivos que podem contribuir para que a interação antagônica dê como resultado a Energia Vital ou Axé que permeia o Todo”, explica o Mawó.

A inspiração Kardecista que corroborou na fundamentação da Umbanda, rendeu ainda mais elementos a este complexo sistema mito-teológico em torno de Exu, dado que legou todo um vocabulário e uma inclinação à investigação das lógicas espirituais além da divindade em si. Para os Umbandistas, Exu é não apenas um Orixá – força divina que está além da entidade espiritual – mas também uma “linha” inteira de trabalho, que comporta espíritos em diferentes níveis de evolução e que atuam em um plano mais “denso” (mais próximo do mundo físico), tendo, portanto, maior liberdade de trânsito que as demais entidades, o que o permite conhecer e resolver melhor as necessidades humanas mais imediatas.

Embora a denominação Exu possa servir tanto ao gênero masculino como ao feminino, na Umbanda convencionou-se chamar os Exus de manifestação feminina de Pombagiras ou Lebaras, figuras às quais se recorre sobretudo para tratar de questões materiais e afetivas. Na Umbanda, dá-se também a nomenclatura de “exu batizado” ou “exu de lei” às entidades que atuam dentro da doutrina e “exu pagão” para se referir a espíritos errantes (também conhecidos como “quiumbas”), a fim de e diferenciá-los.

Mas se para algumas tradições umbandistas, um exu estaria em patamar inferior, para outras eles são entidades espirituais com a mesma evolução das demais, como caboclos e pretos-velhos. “Eles apenas ocupam uma linha de trabalho diferente e extremamente necessária, vibram e cuidam de energias que não são acessíveis a outros espíritos, que a nossa cultura considera como de padrão mais baixo – mas essa classificação não existe no plano metafísico, é uma forma limitada dos homens de ver o sagrado”, orienta Pai Fábio.

A linha dos Exus também está presente em outras religiões de matriz afro-brasileira, como a Jurema, o Omolokô e o Candomblé de Caboclo, ou ainda em terreiros misturados de Umbanda e Candomblé, mas nunca em terreiros de Candomblés de nação, como Jeje, Keto e Angola. Nestes, apenas Exu orixá é cultuado. “O confronto com valores cristãos acabou por deturpar o sentido que Exu tem em nossas vidas, e criou muito medo em torno dele, mas estamos falando de uma força linda, divina e benevolente, sempre presente e de prontidão”, elucida Pai Leandro. “Exu é um compadre, um amigo pra todas as horas”, saúda ele.

Confira a programação

Credenciamento, às 8 horas

Laroyê! Atabaques pra saudar Exu, às 9 horas

Abertura: Mesa AUMBA (Associação de Umbanda da Bahia), às 9:30 horas

Palestra: “Eşu Iranşe Eledumare/ Exu Mensageiro do Criador” – Mawó Adelson de Brito/ Mediação: Cristiele França, às 10 horas

Mesa 1: “Laroiê Exu – Da Divindade ao Compadre” – Pai Leandro da Casa de Sultão das Matas, às 11 horas

Almoço, às 12 horas

Dança/ Vídeo/ Coral, às 13:30 horas

Mesa 2: “Exu e seus Caminhos” – Pai Rafael do Centro Umbandista Maria da Piedade, às 14 horas

Mesa 3: “Exu e Eu” – Pai Fábio de Oxum (Centro de Umbanda Caboclo Taperoá), às 15 horas

Encerramento, às 16:30 horas

Agenda

O que: Seminário ‘Caminhos que levam a Exu’

Quando: 30 de março, das 9 às 17 horas

Onde: Teatro Jorge Amado

Endereço: Av. Manoel Dias, nº 2177, Pituba

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