Em Carta Aberta, ABI Nacional condena iniciativa do presidente Jair Bolsonaro em comemorar Golpe Civil-Militar de 1964; Evento violou soberania popular

ABI Nacional condena iniciativa do presidente Jair Bolsonaro em comemorar Golpe Civil-Militar de 1964.

ABI Nacional condena iniciativa do presidente Jair Bolsonaro em comemorar Golpe Civil-Militar de 1964.

Em ‘Carta Aberta’ emitida nesta sexta-feira (29/03/2019), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional) condenou severamente a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) em comemorar o Golpe Civil-Militar de 1964 e a violação da soberania popular, fato que resultou na implantação de governos antidemocráticos de perfil totalitário e que resultou, de sobremaneira, na ampliação da desigualdade estrutural na sociedade brasileira, constituindo o país em uma Nação onde poucos tem muito, enquanto a maioria sobrevive com muito pouco, aliando ao fato de manter substantivos indicadores de baixa formação educacional. Não é por outro motivo que no setor da Educação, o Governo Bolsonaro destrói um projeto de longa duração de formação do pensamento nacional, ao passo em que celebra a existência de regimes totalitários no Brasil e no mundo, constituindo-se no ‘Governo da Bestialidade Esquizofrênica’.

Confira a ‘Carta Aberta ao Presidente Jair Bolsonaro’

Excelentíssimo Senhor Presidente da República Jair Bolsonaro

Senhor Presidente,

A Associação Brasileira de Imprensa condena com veemência a desastrada iniciativa de Vossa Excelência para que os quartéis reverenciem o golpe militar de 1964. O chefe da Nação não pode celebrar, como se fosse uma grande efeméride, um dos episódios mais dramáticos da história recente do País. Sequestros, assassinatos sob tortura nos porões do aparelho de repressão do Estado, execuções sumárias, e o desaparecimento de presos políticos não podem ser contabilizados como episódios que fazem parte da rotina de países civilizados.

Os deploráveis acontecimentos que marcaram e legitimaram os 21 anos de chumbo não podem ser lembrados como se fossem uma quermesse no calendário das Forças Armadas. Ao ressuscitar um dos momentos mais dolorosos do nosso passado recente, Sua Excelência deu hálito de vida a acontecimentos que muitos acreditavam sepultados para sempre.

Senhor Presidente, fui testemunha de um atentado brutal à sede da Associação Brasileira de Imprensa, em 19 de agosto de 1976. Na época, como repórter especial do Jornal O Globo e editor do Boletim ABI, órgão oficial da Entidade, fui o primeiro jornalista a entrar no prédio em companhia de um Conselheiro da Casa. A sede da Entidade estava cercada por tropas da polícia militar, bombeiros, peritos do Instituto de Criminalística, agentes do DOPS e do DOI-CODI.

Ao chegarmos ao 7° andar, o pavimento estava tomado pela fumaça e um forte cheiro de dinamite. Só quando a nuvem de poeira se dissolveu pode-se ter uma exata dimensão do que poderia ter sido uma grande tragédia. A bomba destruiu dois banheiros, danificou todas as paredes do pavimento e ainda atingiu a sala da presidência da Entidade, na época comandada por Prudente de Moraes, neto.

A determinação de que os quartéis reverenciem o golpe, como se nada tivesse acontecido naqueles dias, pode ser interpretada ao mesmo tempo como um ato de cinismo e uma demonstração de insensatez.

Também não se pode esquecer que até recentemente a versão oficial do assassinato do Jornalista Vladimir Herzog era a de que havia cometido suicídio nos porões do DOI-CODI de São Paulo. Não havia sequer preocupação em construir justificativas plausíveis. A morte do metalúrgico José Manoel Filho, no ano seguinte, por exemplo, foi informada como tendo sido por enforcamento com as próprias meias. A censura impedia que a imprensa oferecesse à sociedade a verdade dos fatos. Um País sob censura não pode se indignar e escolher os seus melhores caminhos.

Senhor Presidente, não podemos esquecer também a explosão da OAB que provocou a morte da secretária Lyda Monteiro, os atentados às bancas de jornais e a bomba do Riocentro, em maio de 1981. Todos esses episódios não podem ser revisitados com um olhar enevoado e complacente.

Nos Estados Unidos, país que Vossa Excelência tanto admira, existem placas de bronze nos portões dos cemitérios em que estão enterrados os soldados que lutaram contra o nazi-fascismo, na Segunda Guerra Mundial, onde se lê: “os povos que não aprendem as lições do seu passado estão condenados a repeti-las ad eternum

No caso do Brasil, Senhor Presidente, acreditamos que nem mesmo os seus eleitores gostariam de reviver esta trágica experiência.

Domingos Meirelles. Presidente Associação Brasileira de Imprensa

Rio de Janeiro, 29 de março de 2019.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).