A saga de Irmão José da Cruz, santo popular acreano | Por Juarez Duarte Bomfim

A permanência e continuidade da devoção ao Irmão José da Cruz não acontece por acaso na Floresta Amazônica. Se este santo popular brasileiro é venerado, isso ocorre porque, mesmo não mais estando entre nós no seu corpo físico, ele continua a agraciar os seus fiéis com aquilo que melhor fazia em vida de matéria: a cura de enfermos pela graça divina.

Irmão José da Cruz.

Irmão José da Cruz.

Existe uma parcela do território pátrio, o Estado amazônico do Acre, que surpreende e encanta pelas extraordinárias biografias e histórias de seus profetas, mestres iluminados, santos e santas que pisaram o seu sagrado solo.

O Livro Sagrado afirma que santo é “aquele que é limpo de mãos e puro de coração; que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente”. Os homens santos de Deus “falam inspirados pelo Espírito Santo”, nos ensina o Apóstolo da Igreja de Cristo, o Senhor São Pedro.

Ao falar do Planeta Acre, lembramos imediatamente dos iluminados mestres ayahuasqueiros — como Raimundo Irineu Serra e Daniel Pereira de Mattos — que fundaram doutrinas cristãs, reveladas a esses profetas da floresta, verdadeiros mensageiros do Pai Criador.

Porém, hoje, quero escrever sobre um outro santo da religiosidade popular do Acre, que é objeto de veneração do humilde povo caboclo das matas e verdes vales dos caudalosos rios amazónicos.

Irmão José da Cruz

Há um santo acreano, do Vale do Rio Juruá, venerado por muitos caboclos amazônicos, cujo nome é Irmão José da Cruz. O Vale do Juruá é um dos locais mais recônditos do território brasileiro. De difícil acesso, suas matas virgens possibilitam inclusive a existência de povos indígenas isolados, nos rincões mais distantes.

Pois foi nos longínquos povoados de beira de rio, nestas densas florestas que, nos anos 1960-70, o penitente brasileiro de nome José Francisco da Cruz, cumpriu a sua missão evangelizadora de difundir o culto e devoção à Santa Cruz bendita — a Santa Cruz que o Salvador Jesus carregou pela remissão dos nossos pecados.

O Irmão José da Cruz cultivava uma longa barba e vestia hábito franciscano. Começou a sua perambulação sozinho, mas logo angariou seguidores, e percorreu mais de 500 cidades, aldeias, comunidades e povoados ao longo dos grandes rios amazônicos, no Brasil e Peru, levando a sua palavra de fé.

O movimento liderado por este profeta da floresta pode ser considerado messiânico, e está inserido entre as manifestações de catolicismo popular. O catolicismo tradicional popular é um tipo de catolicismo não institucionalizado, não romanizado. São manifestações espontâneas das populações rurais brasileiras que, por necessidade, criam e organizam as suas devoções à margem da Igreja Católica.

A vastidão da floresta amazônica e a escassez de padres nas matas e nos seringais fez da figura de um padre algo raro de se ver. Anos e anos se passavam até um padre aparecer nas comunidades ribeirinhas para as “desobrigas” — realizar batismos em crianças já crescidas, e casamentos em casais já de longa convivência marital.

Na ausência da religião institucionalizada, o povo tomou para si a responsabilidade de organização do culto, construindo capelas, rezando o Terço e fazendo novenas. Isto possibilitou o surgimento de líderes carismáticos messiânicos, como o Irmão José da Cruz.

Por onde passava, predicando, o Irmão José levantava um Santo Cruzeiro de madeira na comunidade, e estruturava informalmente uma irmandade da Santa Cruz, com a finalidade de preservar a devoção e zelar por seus ensinamentos. Até hoje é comum se encontrar esses grandes cruzeiros nas comunidades ribeirinhas do Vale do Juruá, registro físico e testemunho material da passagem do líder religioso por aquelas localidades.

Em alguns lugares a irmandade da Santa Cruz — por ele criada — frutificou, e esta forma de culto está estruturado como religião no Estado do Amazonas e na Amazônia peruana. Além disso, ocorre uma intensa devoção ao Irmão José, praticada pelos mais velhos, seus contemporâneos, que o conheceram e obtiveram a graça de uma cura física ou mental; a conversão religiosa; e testemunharam a realização de seus milagres e prodígios. A continuidade histórica da veneração a este santo está relacionada à uma exitosa transmissão geracional de sua recordação, em tempos de rápidas mudanças sociais.

O que quero destacar nesta breve comunicação é a dimensão mitológica e a memória social de alguns dos seus devotos, que em muitas partes da Amazônia consideram o Irmão José como um miraculoso homem santo.

“Eu sou do Estado do Acre, mais precisamente de Cruzeiro do Sul. Quando apareceu este missionário nós morávamos no seringal e eu era criança, mas me lembro das multidões de pessoas que acompanhava este homem. Ele realmente fazia muitos milagres. Ajudou e curou muita gente. Não posso afirmar que ele era santo, mas sei ele passava dias sem comer, escrevia receita com uma luz, andava por cima das águas, atravessava montanhas, selvas cheias de animais ferozes e mesmo assim nada lhe feria. Ele acalmava os animais com sua mão direita levantada. Curava pessoas com suas mãos. Meus pais tinham muita fé nele e ele tinha ‘milhões’ de fieis que lhes seguiam por onde passava”.

Por onde peregrinava, Irmão José da Cruz erguia um Santo Cruzeiro

Por onde peregrinava, Irmão José da Cruz erguia um Santo Cruzeiro

Irmão José, um santo brasileiro

Disse Jesus, profetizando sobre aqueles que viriam em seu nome:

— Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.

Para cumprir as promessas de Cristo vieram à Terra São Francisco de Assis, Santo Antônio de Pádua, São Sebastião… e tantos outros santos anônimos que passaram por aqui, muitas vezes conhecidos só por suas pequenas comunidades.

Muitos santos são conhecidos pelos seus prodígios e milagres. Seus mágicos poderes. O Apóstolo Paulo curava com a imposição das mãos, em nome de Cristo Jesus; a sombra do corpo de Pedro curava enfermos, por onde ele passava; as relíquias de São Sebastião debelaram pestes em Roma, Milão e Lisboa.

E recordemos dos prodígios atribuídos à vida de São João Evangelista, um dos poucos cristão dos primeiros tempos que não morreu martirizado. Há um mágico episódio de sua história, que aconteceu quando os romanos o jogaram ao fogo na Ilha de Patmos, para ser queimado vivo, e deste flagelo ele saiu incólume, sequer chamuscado.

E em terras acreanas peregrinou o Irmão José da Cruz, santo apócrifo da religiosidade popular brasileira. Santo apócrifo é aquele que não passou pelo processo de beatificação e canonização do Vaticano. Melhor assim, pois ele foi aclamado e santificado pela intensa devoção dos fiéis.

As narrativas das peregrinações do Irmão José, em sua missão apostólica pelas cidades, vilas, aldeias e comunidades ribeirinhas do Vale do Juruá são sobrenaturais, supranormais e transcendentais. Em muito lembra os yogues autorrealizados da Índia, portadores dos sidhis. Sidhis, palavra do sânscrito, significa os poderes transcendentais de um grande yogue iluminado. Isso os torna capazes de controlar e dominar os mundos mineral, vegetal, animal e hominal — este último na condição de predicadores do Amor, da Paz, da Verdade e da Justiça.

Pela narrativa extraordinária de seus devotos, o Irmão José da Cruz andava sobre as águas e perambulava por baixo da Terra — como um ser intraterrestre. Realizou o milagre da multiplicação de frangos e de farinha para alimentar a multidão que o seguia — ele mesmo passava semanas sem nada comer, apenas alimentado pela fé em Jesus.

Em êxtase místico, Irmão José conversava com o Mestre, o Senhor Jesus Cristo, que lhe fez três grandes revelações; assim como Francisco de Assis, ele recebeu os estigmas de Cristo Crucificado: as chagas nas mãos, nos pés e no peito, quando da vil crucificação do Nosso Salvador.

A narrativa que ouvi de um prodígio seu: Irmão José tinha chegado a uma cidade, junto com os seus seguidores, e iria predicar à noite. Receoso com a presença daquela pequena multidão, como forma de afugentá-los, o prefeito resolveu cortar a energia elétrica do lugar. Quando anoiteceu, miraculosamente as luzes se acenderam e assim permaneceu durante toda a pregação feita por aquele santo missionário.

Bem… eu publiquei um pequeno e singelo artigo sobre o Irmão José da Cruz em janeiro de 2017. Pela internet o artigo se tornou conhecido nas comunidades que compõem o Vale do Rio Juruá, foi lido por habitantes das Cidades de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Feijó, todas estas no Acre e por residentes das cidades do Estado do Amazonas e outras localidades. Surpreendentemente, surgiram inúmeros testemunhos e depoimentos espontâneos dos milagres e prodígios atribuídos ao Irmão José da Cruz, postados por estes leitores.

Esses depoimentos e testemunhos foram feitos por contemporâneos do Irmão José da Cruz, que o seguiam nas suas peregrinações junto com suas famílias; por pessoas que o conheceram e assistiram as suas prédicas quando o Irmão José visitou as suas comunidades; gente que testemunhou e testifica os milagres e prodígios realizados por este santo; pessoas que se tornaram seus devotos; filhos e netos de familiares que lhes contavam os feitos do homem santo e, especialmente, aqueles homens e mulheres que receberam a graça da cura física ou mental de suas graves doenças e aflições.

Uma leitora assim expressou a sua gratidão pela singela lembrança ao milagreiro querido de sua infância:

“Fiquei emocionada. Quando era pequenina em 1967, no município de Mâncio Lima, meu corpo era tomado por uma enfermidade que não havia remédio que desse jeito, o irmão José estava pregando no Guarani e meus pais me levaram até ele e através de suas orações fiquei completamente curada. Ele fez muitas curas em nome de Jesus Cristo. Sou apaixonada por sua história de vida”.

E para o escrevinhador é igualmente gratificante ler depoimentos como estes, abaixo:

“Que bom ver uma matéria como essa. Eu já ouvi muitos testemunhos sobre Irmão José da Cruz, porém nunca tinha lido nada sobre ele. Acho que merecia uma pesquisa mais minuciosa com testemunhos das pessoas que o seguiam em sua missão. Ainda tem muita gente vivo daquela época. Homem santo. Minha vozinha já falava muito sobre ele, suas pregações e muitas coisas que Irmão José profetizou já tem acontecido, segundo os mais velhos.

“Sou do Juruá. Nasci e vivi no Seringal Grajaú. Lá tem um Santo Cruzeiro, que já está no chão e foi erguido por ele (Irmão José da Cruz). O povo reergueu outro. A data é 1968. Tenho inclusive fotos arquivadas, de outras cruzes erguidas ao longo do Juruá. Vou anualmente ao seringal Grajaú por conta de um local de romaria chamado Barro Alto. Em 1970 eu nasci e ele já havia passado por lá. Gostei muito do artigo. Parabéns pela iniciativa. Quem precisar de alguma informação pode procurar minha mãe em Cruzeiro do Sul. Ela o acompanhou na Nova Cintra e Paraná dos Mouras. Ela conversou muito com ele. Mais uma vez, parabéns pelo texto. Muito Bom”.

A seguir, transcreveremos os depoimentos de outros leitores, com breves comentários. As fontes virão ao término desta breve comunicação.

Irmão José da Cruz, aclamado santo pela religiosidade popular brasileira

Irmão José da Cruz, aclamado santo pela religiosidade popular brasileira

Irmão José da Cruz, servo de Deus

Os depoentes que escreveram sobre o Irmão José relatam: “a certeza que eu tenho, é que ele era um santo missionário, um verdadeiro sacerdote de Deus!”; “meus pais o viram e disseram que ele era um servo de Deus, pelo que fazia”; e continuam “ele era e é um homem santo”; “esse era puro, sem pecados e sem malícia. Um grande servo enviado por Deus”; “esse enviado de Deus cumpriu muito bem a sua missão aqui na nossa região”.

E uma tocante rogativa: “continue orando junto ao Divino Pai Eterno por nós, Irmão José da Cruz!”.

A Igreja Católica e o Irmão José da Cruz

Como já foi dito, este profeta da floresta pode ser considerado um líder carismático messiânico, e o seu movimento está inserido entre as manifestações de catolicismo popular. O catolicismo tradicional popular é um tipo de catolicismo não institucionalizado, oriundo das populações rurais brasileiras, organizado à margem da Igreja Católica.

A relação da Igreja Católica institucional frente a esses movimentos messiânicos pode se dar, principalmente, de 2 formas: tolerância, aceitação e alianças; ou forte rejeição, com boicote e perseguições.

Daí que nas narrativas se encontram as 2 situações. Na primeira, de tolerância e aceitação pelos sacerdotes da Igreja Católica. Exemplos? O Irmão José da Cruz é acolhido pelo próprio bispo de Cruzeiro do Sul – Acre; num outro depoimento, ele é convidado para almoçar na casa do padre da Cidade de Porto Walter, também no Acre, e é bem cuidado por zelozas freiras. Eis os depoimentos:

“Eu assisti uma pregação do irmão José da Cruz no Morro da Glória em Cruzeiro do Sul, na casa do Bispo Dom José, quando o mesmo passou em peregrinação rumo ao Alto Juruá. Pregação essa assistida por uma grande multidão de fiéis”.

“Eu e meu irmão subimos em uma caixa de madeira e conseguimos ver ele sentadinho em um tamborete dentro de um quarto muito pequeno, isso era na casa dos padres em Porto Walter. Eu vi umas das freiras entregar pra ele o prato com comida e ele não comeu! Em seguida eu já vi o prato vazio. Isso era eu e meu irmão olhando pra ele em uma janela de vidro, em cima da caixa de madeira”.

Agora, a segunda situação: a forte rejeição, com boicote e perseguições da Igreja oficial a esse movimento de catolicismo popular. A reação contrária da Igreja incluía a desqualificação do sacramento do batismo ministrado por líderes populares carismáticos, como o Irmão José da Cruz, não o reconhecendo com autoridade para ministrar tal sacramento. Daí que nos depoimentos aparece a informação de que o padre de Ipixuna – Amazonas, proibia os fiéis de assistirem às preleções do Irmão José:

“Eu era menino quando passou aqui em Ipixuna. Vi ele só… não assisti sua pregação pois éramos sacristãos e o padre não nos deixou assisti. Depois ouvi muitos relatos por onde ele passou, em lugares como Mâncio Lima e Alto Juruá. Tenho uma foto dele onde durmo. Creio nos seus ensinamentos e milagres”.

Profeta da floresta

Pelas narrativas dos devotos, Irmão José da Cruz tinha o dom da profecia, assim como vidência e clarividência. Ele era portador de poderes transcendentais, atribuídos a um homem santo — ou um yogue autorrealizado.

Devido à violência social e a degradação dos valores humanos que ocorre no país — guerra, mentira, desarmonia e injustiças — obviamente as profecias do Irmão José tinham um quê de aterradoras e ‘apocalipticas’… Todavia, sua missão aqui na Terra foi de cultivar a fé e a esperança no Salvador.

“Não o conheci, mas minha Vó, que Deus a tenha, falou e falou muito bem dele e muitas coisas que ele profetizou aconteceu ou está acontecendo”.

“Minha mãe também viu ele. Ela conta muita coisa que ele falou é que está acontecendo hoje”.

“Meu pai e meu avô acompanharam ele no Vale do Juruá. Tudo que irmão José falou é o que está acontecendo hoje no Brasil…”

Todavia, não eram apenas premonições preocupantes que o irmão José transmitia aos seus seguidores. Com o dom da vidência e clarividência ele ajudava e socorria as pessoas:

“Gente, não é história de melindroso não. Irmão José da Cruz era — ou pode ainda ser — um grande homem. Eu presenciei ele falar de tudo que está acontecendo hoje no nosso mundo. Eu na época tinha de 6 a 8 anos, mas lembro tudo! Até o momento que ele me abençoou e falou: ‘Deus te abençoe minha filha!’, colocando sua mão sobre minha cabeça. Até hoje tenho a fotografia dele e guardo com muito carinho”.

“Minha mãe também chegou a ver ele. Certo dia, indo pro culto dele, se perderam no caminho e só depois conseguiram chegar. Chegando no culto ele falou que uma família ali tinha se perdido no caminho, mas a fé tinha conduzido eles até lá”.

“Minha mãe me falou muito dele e ele descobriu que ela estava grávida de mim e meu nome foi ele que colocou: Maria José. Tínhamos a foto de Irmão José, água benta e a vela benta que minha bisavó guardava. Disseram que ele fez muitos milagres. Tem até um Santo Cruzeiro aonde eu nasci, em Porto Walter”.

Curas, milagres e prodígios realizados pelo Irmão José da Cruz

Achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com uma hemorragia; tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais.

Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença.

Jesus logo percebeu que uma força tinha saído Dele.

— Quem tocou na minha roupa?

Os discípulos disseram:

— Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou’?

Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade.

Ele lhe disse:

— Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença (Marcos 5: 25-34).

Surpreendentemente, encontramos um relato de cura realizada por Irmão José, similar a esta passagem bíblica acima, quando da Missão do Nosso Salvador aqui na terra:

“Minha mãe Railda Melo conta que em 1962 teve o prazer de tocar em suas vestes em Cruzeiro do Sul. Ele olhou para trás, em câmera lenta, daí sua vida mudou completamente e também uma enfermidade que tinha na cabeça foi curada. Conta ainda que o mesmo se hospedava na prelazia… Hoje ainda fala histórias verídicas dele e que um dia iria voltar e poucos iam reconhecê-lo…. a foto de Irmão José ainda temos aqui em casa; Ela guarda até hoje…”

O que mais desperta o imaginário social sobre a missão apostólica exercida por irmão José da Cruz, em sua peregrinação pelos verdes vales amazônicos, são as curas, milagres e prodígios atribuídos a ele.

As narrativas das pessoas que testemunharam tais feitos ou cresceram ouvindo seus pais e avôs os testificarem, alimenta a mística dos poderes sobrenaturais deste homem santo, que nos agraciou com a sua divina presença aqui na Terra.

“Meu pai e minha mãe tiveram a oportunidade de acompanhar algumas de suas novenas, chegaram a ver milagres que ele fazia. As orações de meu pai é sempre em frente a imagem do Irmão José. Ele presenciou um milagre desse Irmão. Eu não o vi pois não era nascida, mas meu pai sempre contou para nós o que ele fazia”.

“Tive a grata satisfação de conhecer este Santo peregrino quando eu era ainda pequenininha, assistindo várias pregações que reunia multidões para vê-lo de perto. Na época eu tinha apenas 10 anos de idade e todos esses encontros onde estava o Irmão José, lá estávamos nós felizes para assistirmos sua pregação. Meus irmãos Heitor e Elizomar seguiram acompanhando o nobre peregrino até regiões em que ele pedia que retirassem aos seus lares. Eles presenciaram muitos milagres feitos pelo Irmão José da Cruz. Meus pais receberam o peregrino na nossa residência preparando para o mesmo um almoço digno, porém todos observavam que ele comia, porém o prato continuava intacto, daí todos ficaram desconfiados que se tratava de um ser superior. Todos nós choramos com a partida do Irmão José. Vários outros relatos eram feitos diariamente sobre esse grande ser humano. Que bom encontrar alguém que nos fizesse reviver tão belos fatos. Saudades do irmão José.

Prodígios de Irmão José da Cruz

Esse que vos escreve ouviu mais de uma vez uma fantástica história, narrada por uma misteriosa devota do irmão José. Hoje ela é uma provecta senhora, porém, quando criança e adolescente o seguia nas peregrinações pela floresta amazônica, ao lado de sua mãe e outros familiares. Certo dia, conta, o santo homem parou e virou-se para a pequena multidão que o acompanhava e lhes falou:

— Daqui para a frente vocês não poderão me acompanhar… daqui em diante eu viajarei sozinho.

Despediu-se dos seus companheiros e companheiras de jornada e misteriosamente sumiu. A senhora que me contou tal episódio acredita que o irmão José continuou a sua jornada caminhando solitariamente… por baixo da terra — como um ser intraterrestre.

Nos depoimentos coletados posteriormente, que transcrevo aqui, encontramos testemunhos semelhantes:

“Amo ouvir histórias e mais histórias de Irmão José que minha avó muito antes de morrer contava e que acompanhou ele até um certo local e depois desapareceu”.

“O meu avô acompanhou ele até a extrema do Peru, como ele falava. Lá, ele disse pro meu avô, que dali ele podia voltar, pois dali ele seguiria só. Apesar dos pedidos do meu avô, João Cândido, ele se negou a levá-lo. Meu avô contava muitas coisas sobre ele”.

“Eu tive a graça de ver o Irmão José da Cruz. Ele fez uma viagem que costumávamos fazer em um dia, ele fez em uma hora”.

 “No Apuí tem um tronco de árvore que ele dormiu próximo que não tem fogo que a destrói… Inacreditável, mas é verdade”.

“Eu ainda não era nascido, mas minha mãe ainda está viva e conta que o acompanhou com meu pai até muito longe no Alto Juruá. E conta muitas coisas que aconteceu durante essa viagem que fizeram em sua companhia. Eu acredito”

“Esse realmente era um servo de Deus. Fez milagres aqui entre nós. Batizava, curava, fazia e pregava a palavra de Deus gratuitamente. Tinha uma lamparina que nunca era abastecida e vento nenhum apagava”.

“Em uma pregação aqui na minha cidade ele parou a chuva só estendendo a mão, mandou toda a multidão se ajoelhar na parte que tinha lama e ninguém melou o joelho. Era um homem Santo”.

Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis

Jesus voltou mais uma vez a Caná da Galileia, onde transformara água em vinho. E ali havia um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. Quando ele ouviu que Jesus havia chegado à Galileia, vindo da Judeia, dirigiu-se até Ele e lhe implorou que descesse para curar seu filho, que estava a ponto de morrer. E Jesus lhe disse:

— Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis.

O oficial do rei disse a Jesus:

— Senhor, desce, antes que o meu menino morra! …

Assegurou-lhe Jesus:

— Pode seguir, o teu filho vive.

O homem acreditou na palavra de Jesus e partiu (João 4:46-50).

Irmão José, bom curador

As pessoas que se manifestaram em depoimentos escritos se declararam devotas do Irmão José da Cruz, e não se furtaram em narrar e testificar a graça da cura obtida para si ou algum ente querido. Também narram que em momentos de aflição recorrem a ele como intercessor junto ao Divino Pai Eterno. Há depoimentos muito tocantes de familiares que acreditam que o espírito do Irmão José guiou seus entes queridos na hora da morte, para serem entregues aos pés do Senhor do Bomfim.

Depoimentos de curas milagrosas:

“O Irmão José da Cruz, passou aqui por Cruzeiro do Sul em 1968. Em 21 de Janeiro de 1969 ele saiu de Marechal Thaumaturgo, subiu pelo Rio Amônia e foi para o Peru. Dessa data em diante ninguém mais teve notícia dele. Eu tinha 10 aninhos de idade, quase morto de sarampo. Mas lembro bem: morava no Rio Bagé, município de Marechal Thaumaturgo e minha irmã de 3 aninhos de idade teve uma forte doença que já estava ‘escangotada’ e ele curou a minha iirmã. Depois ele viajou para o Peru”

“Sou testemunho vivo da passagem deste santo homem. Por volta de 1971 na Cidade de Cruzeiro do Sul, Irmão José orientou meu pai sobre uma doença que me afligia muito. Ele fez sua recomendação e hoje estou com 56 anos e vivo para Deus e testemunhar da graça alcançada”.

“Eu estava quase morta de sarampo quando o Irmão José me curou, pelas graças de Deus”.

“Minha mãe conta de um milagre ocorrido com minha irmã mais velha. Havia uma ferida que estava comendo a coxa de minha irmã e não havia remédio que curasse. Minha mãe, desesperada, olhou para o céu e disse: ‘Se esse homem, irmão José, for enviado de Deus, peço que minha filha fique curada sem a necessidade de medicamentos’. Uma semana depois a ferida estava cicatrizada. Minha irmã tem essa marca até hoje. Acredito que ele era mesmo um homem de Deus”.

Amor ao próximo e amor a Deus

A principal missão de Irmão José aqui na Terra foi de pregar a mensagem evangélica de amor ao próximo e amor a Deus, praticando a caridade. Porém, não era só com as palavras proferidas nos seus concorridos sermões. E sim com o exemplo de vida humilde e de dedicação aos necessitados. Ele seguia os passos do Nosso Senhor através da estrita imitação de Cristo – da mesma maneira de outros santos maiores da cristandade, como o Senhor São Paulo e São Francisco de Assis.

“Conheci quando eu ainda era criança. Ele passou no município de Mâncio Lima fazendo missões e atraiu multidões, assisti algumas vezes, quando saiu de Mâncio Lima, meu pai o acompanhou por vários dias nas localidades mais próximas, com o meu irmão Francisco Jonas enfermo e quando o acompanhava ele ficava lúcido, uma pessoa normal. Ensinou orações a meu pai e meu pai presenciou milagres. O que ele mais pedia era para meu pai todos os dias às 18 horas orasse 5 Pai Nosso e 5 Ave Maria em intenção da humanidade”.

“Ele disse que todos tinham que rezar muito”.

“Minha mãe disse que conheceu irmão José e ele benzeu ela. Graças Deus minha mãe nunca adoeceu”.

Por toda extensão do Vale do Juruá, os devotos do Irmão José da Cruz ostentam esse quadro em seus lares

Por toda extensão do Vale do Juruá, os devotos do Irmão José da Cruz ostentam esse quadro em seus lares

A devoção ao Irmão José da Cruz no Vale do Juruá

Irmão José da Cruz, aclamado pelo povo ribeirinho como São José da Cruz, é um santo apócrifo da religiosidade popular brasileira. É aquele que foi aclamado e santificado pela intensa devoção dos fiéis. Percebemos, nos depoimentos, que são as mulheres amazônidas as que nutrem maior devoção por este santo popular brasileiro, testificado pela sensibilidade e delicadeza da alma feminina.

“Eu tenho uma grande devoção com este santo querido e amado. Está sempre comigo. Sempre me atende. Meu santo de devoção: Irmão José da Cruz.

“Acredito na sua santificação por todo bem que fez, milagres e principalmente por ter sido um enviado de Deus, com certeza”.

“Sou devota a este santo. Que sempre me atende e está comigo. Meu Irmão José da Cruz”.

“Ele é um santo milagroso na minha vida e dos meus filhos. Que Irmão José da Cruz rogue por nós. Amém!”

Relíquias do Irmão José da Cruz

Os depoentes falam também de relíquias guardadas com veneração, da época da peregrinação de Irmão José da Cruz por aquelas plagas amazônicas. São velas votivas, água benta, cartas, fotografias originais já desbotadas pelo tempo…

“Eu fui curada de um ferimento que não tinha cura com a água benta que a minha mãe passou na minha cabeça. Glória a Deus!”

“Lá na minha avó tem uma fotografia original dele. Também tem duas cartas, ele falando e meu tio escrevendo. Minha avó guarda até umas velas”.

Sobre a função dessas velas é dito, apocalipticamente:

“Essas velas minha avó fala que quando for haver uma escuridão, só terá luz quem tiver ela… quando eu era criança minha avó falava isso”.

Uma outra pessoa completa, misteriosamente:

“Lembro que tinha umas garrafinhas com água também… Só sei que minha avó fala cada ‘coisa’…”

“Já ouvi meus pais falando dele. Eu acho muito linda essa história do irmão José. Meu pai e meus avós já chegou a conhecer ele. Meu pai e minha mãe tem água benta que ele deixou”.

A morte de Irmão José da Cruz. Ou será encantamento?

No Estado do Amazonas existe o túmulo do Irmão José da Cruz, que se tornou lugar de devoção e peregrinação. Entretanto, ouvi de uma misteriosa devota sua que ele não morreu, subiu aos céus em corpo e espírito, como o poderoso Profeta Elias numa carruagem de fogo; e a subida ao Céu do corpo luminoso de Jesus Ressuscitado, para sentar à direita de Deus Pai.

A permanência e continuidade da devoção ao Irmão José da Cruz não acontece por acaso na Floresta Amazônica. Se este santo popular brasileiro é venerado, isso ocorre porque, mesmo não mais estando entre nós no seu corpo físico, ele continua a agraciar os seus fiéis com aquilo que melhor fazia em vida de matéria: a cura de enfermos pela graça divina.

Numa época que a medicina científica não alcançava aquelas matas, ele já curava. Hoje em dia, que a triste realidade de abandono da humilde população rural brasileira não mudou, Irmão José da Cruz continua a interceder junto ao Pai Criador, pela saúde de seus irmãos. Por isto, para sempre, sempre ele será lembrado.

Amém, Jesus, Maria e José.

***

Fonte dos depoimentos transcritos: Facebook, postagem de Ronei Pequeno na sua linha do tempo, de 23 de julho de 2018 e os comentários dos leitores.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Publicidade

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]