Segundo Le Monde, primeiros dias do Governo Bolsonaro demonstram “agressividade e improvisação” do presidente

O jornal Le Monde traz em capa os primeiros dias de Jair Bolsonaro na presidência do Brasil

O jornal Le Monde traz em capa os primeiros dias de Jair Bolsonaro na presidência do Brasil.

“Dois dias após sua posse, Bolsonaro teve o cuidado, no dia 3 de janeiro de 2019, de retirar as cadeiras vermelhas do Palácio Presidencial da Alvorada, em Brasília”, diz o jornal, lembrando que a cor é associada ao comunismo pelos membros do partido Partido Social Liberal (PSL), que preferem o azul, visto como “mais de direita”.

Enquanto alguns veem apenas um detalhe, outros enxergam um verdadeiro símbolo da obsessão de um governo dedicado a procurar “inimigos imaginários”, no lugar de propor um verdadeiro programa político, ressalta Le Monde. A marca de Bolsonaro, para o jornal, é a de um poder “que mistura agressividade e improvisação”.

Uma inauguração de governo fracassada, segundo análise do professor de ciência política Carlos Melo, entrevistado pelo Le Monde. “Mesmo os mais tolerantes dirão que, até agora, só tivemos momentos vazios de sentido. Isso não dá uma boa imagem”, diz o especialista. “Do discurso do próprio presidente ao de seus ministros, as mídias brasileiras tiveram a impressão de que o governo ainda estava em sua campanha, com um chefe de extrema direita pronto a criticar sua oposição e ministros prometendo combater os ‘inimigos da pátria’, atacando o ‘socialismo’ e desprezando o ‘globalismo’”, afirma o jornal francês.

Le Monde também destacou o fato de que, apenas algumas horas após a posse, o ex-militar assinou uma medida provisória para transferir a demarcação de terras indígenas da Funai para o Ministério da Agricultura, cumprindo a promessa de Bolsonaro de que, após sua eleição, “nem mais um centímetro de terra seria dado aos índios”.

Novo governo prioriza questões menores e se esquece de verdadeiros problemas.

Outra decisão feita às pressas pelo novo governo abordada pelo Le Monde é a retirada das questões LGBT da lista de políticas de Direitos Humanos, o que, segundo o jornal, demonstra a intenção de reduzir ou mesmo acabar com as subvenções destinadas a essas pessoas, vítimas de discriminação. “De acordo com o grupo Gay da Bahia, uma pessoa LGBT morre assassinada a cada 19 horas no Brasil”, diz a publicação.

“O governo de Bolsonaro demonstrou sua vontade de desmantelar trinta anos de políticas públicas brasileiras, atacando a comunidade LGBT e os indígenas, sem propor soluções positivas”, declarou ao jornal o cientista político Ruda Ricci, dizendo-se “horrorizado” com os primeiros passos do presidente.

O vídeo que viralizou nas redes sociais no fim-de-semana no Brasil também aparece na matéria do jornal. Nele, vemos a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, dizer que na “nova era” de Bolsonaro os meninos vestirão azul e as meninas ficarão com o rosa. Já o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, prometeu lutar contra o pseudomarxismo nas escolas, lembrou Le Monde.

Por fim, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, confirmou em seu discurso sua política fundada no nacional-populismo, focando nos Estados Unidos, escreve a jornalista Claire Gatinois. A repórter conclui afirmando que Bolsonaro privilegiou outros temas no lugar dos problemas mais graves do país, a economia e a corrupção, pontos fortes de sua campanha.

*Por Marcos Lúcio Fernandes da RFI.

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