Te recordo, Víctor Jara. A capacidade de matar dos regimes militares na América Latina | Por Juarez Duarte Bomfim

Instantes depois de pisar no Estádio Chile, Víctor Jara foi brutalmente espancado. Para silenciar o seu violão, os algozes esmigalharam as suas mãos, a coronhadas. Perversamente, seus torturadores quebraram cada osso de suas mãos. Nos dedos, quebraram com redobrado sadismo as falanges, falanginhas e falangetas. Os torturadores afirmavam fazer aquilo para que ele nunca mais empunhasse um instrumento musical, dedilhasse um violão.

Bombardeio do Palácio La Moneda (Santiago do Chile)

Bombardeio do Palácio La Moneda (Santiago do Chile)

Em 1964 um golpe de Estado instituiu uma Ditadura Militar no Brasil. Para conter qualquer resistência contra o novo regime autoritário, prisões, torturas e mortes se tornaram as armas dos “gorilas” contra a população civil indefesa — “gorilas” era o nome dado aos cruéis militares golpistas.

Como efeito cascata, em muitos países vizinhos os mesmos golpes militares, de caráter fascista, foram sendo perpetrados. Depois do Brasil veio a instauração de ditaduras sangrentas no Chile, Argentina e Uruguai.

Os golpes militares depuseram os governos democraticamente eleitos do subcontinente americano. Porém, o principal inimigo a derrotar era o próprio povo — trabalhadores rurais e urbanos e os jovens estudantes. Assim exigiam as classes dominantes, que deram total apoio para os “gorilas” fazerem o trabalho sujo de repressão e derramamento de sangue dos compatriotas.

No Chile, onde a organização sindical e política dos trabalhadores e estudantes era maior, houve resistência ao golpe.

Em 11 de setembro de 1973, os militares golpistas atacaram por terra e ar o Palácio presidencial La Moneda e assassinaram o presidente chileno Salvador Allende que, em pleno exercício do mandato, esboçou uma frágil reação à violência dos militares insurgentes. O terror foi estabelecido na capital Santiago e em todo o Chile, com a eliminação física de trabalhadores e estudantes. Rios de sangue coalharam as ruas daquele desgraçado país.

No Brasil, o governo deposto de João Goulart não resistiu ao golpe e apressadamente fugiu para o exílio. Assim, os indefesos trabalhadores e estudantes foram obrigados a capitular, sem maior resistência. Houve apenas alguns focos de oposição, como veremos. Daí que a repressão política que caiu sobre os derrotados da democracia, em 1964, foi mais seletiva, menos violenta no primeiro momento — comparativamente ao Chile.

A Ditadura Militar brasileira teve diversas fases, e a sua etapa mais cruel e sanguinária começou depois, com a decretação do AI-5 em 13 de dezembro de 1968. A violência institucionalizada e eliminação física dos opositores ao regime militar ocorreu e continuou a ocorrer ao longo dos anos e anos de duração do nefasto governo ditatorial.

Cinicamente, alguns chegaram a afirmar: a ditadura brasileira foi ditabranda…

Não! Branda coisa nenhuma. Pimenta no olho do inimigo é refresco? A capacidade de matar dos fascistas no poder está diretamente relacionada à necessidade de imposição da sua vitória e usurpação da democracia.

Gregório Bezerra

Gregório Bezerra

Tortura cruel e sádica pelas ruas do Recife

Quando lembramos das ruas da alegre capital pernambucana, recordamos da coreografia festiva do frevo, avançando pelas avenidas do Recife Velho.

Todavia, no fatídico 2 de abril de 1964, o que se viu foi um desfile macabro: um idoso de 64 anos de idade amarrado pelo pescoço ao para-choque de um carro militar, na altura do tubo de descarga, a ser arrastado pelas ruas do bairro Casa Forte, sede do quartel do CPOR.

O líder político e sindical Gregório Bezerra havia se levantado contra a destituição e prisão do governador de Pernambuco Miguel Arraes — opositor ao golpe.

Gregório foi preso no dia 1º de abril ao tentar incentivar os camponeses e sindicatos rurais a resistirem contra o golpe militar.

Acabou sendo levado para o quartel da Casa Forte. Foi recebido a pancadas pelo comandante da unidade, o coronel Darcy Ursmar Villocq Vianna, mais conhecido como coronel Villocq.

Gregório Bezerra recebeu “coiçada de fuzil no estômago”, golpes de barra de ferro na cabeça, teve os pés mergulhados em ácido de bateria de carro e, depois, foi quase degolado pelas três cordas amarradas em seu pescoço, pelas quais foi arrastado, num desfile macabro, pelo bairro de Casa Forte, na capital pernambucana, num linchamento público.

— A dor que senti não sei descrever.

Frase do depoimento do sobrevivente dessas duras e sádicas sevícias.

Gregório foi um dos presos políticos trocados quando do sequestro do embaixador americano, anos depois. Viveu longos anos no exílio e retornou ao Brasil com a Anistia, para restabelecer a democracia.

Víctor Jara

Víctor Jara

O martírio de Víctor Jara no Chile

Em 12 de setembro de 1973, cerca de 600 professores e estudantes da Universidade Técnica do Estado (UTE), em Santiago, faziam vigília no campus. O grupo manifestava seu apoio ao presidente deposto pelo sanguinário general Augusto Pinochet.

Todos os manifestantes foram, neste mesmo dia, presos e conduzidos ao Estádio Chile, um ginásio de esportes que tinha sido convertido desde o dia anterior em centro de detenção e quartel general da repressão. Entre os detidos estava um conhecido compositor de cabelo encaracolado, logo identificado por um dos soldados. O oficial da tropa orientou:

— Não o tratem como uma mulherzinha.

O nome da vítima era Víctor Jara. Professor, poeta e cantor, Víctor Jara firmara-se como o maior nome das canções de temática social no Chile, as “canções de protesto”, e isso incomodava as classes dominantes.

Instantes depois de pisar no Estádio Chile, Víctor Jara foi brutalmente espancado. Para silenciar o seu violão, os algozes esmigalharam as suas mãos, a coronhadas. Perversamente, seus torturadores quebraram cada osso de suas mãos. Nos dedos, quebraram com redobrado sadismo as falanges, falanginhas e falangetas. Os torturadores afirmavam fazer aquilo para que ele nunca mais empunhasse um instrumento musical, dedilhasse um violão.

(Reza a lenda que, mesmo com as mãos destroçadas e os dedos esmigalhados, Víctor Jara cantava para os seus colegas de infortúnio, encorajando-os, e inutilmente batia os dedos mutilados nas cordas do violão)

Cinco dias após a prisão, Víctor Jara foi assassinado. O laudo emitido após a autópsia, feita quando localizaram o cadáver num matagal, indicou uma porção de ossos quebrados e 44 marcas de balas.

Antes de morrer, Víctor Jara conseguiu redigir um poema, entregue aos companheiros de cárcere, que providenciaram cópias e conseguiram preservá-lo, dando-lhe mais tarde o título de “Estádio Chile“:

Somos cinco mil aquí

en esta pequeña parte de la ciudad

(…) Seis de los nuestros se perdieron

en el espacio de las estrellas.

Uno muerto, un golpeado como jamás creí

se podría golpear a un ser humano.

Los otros cuatro quisieron quitarse

todos los temores,

uno saltando al vacío,

otro golpeándose la cabeza contra un muro

pero todos con la mirada fija en la muerte.

¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!

Trinta anos depois, em setembro de 2003, o mesmo Estádio Chile foi nomeado Estádio Víctor Jara, em memória deste mártir da liberdade.

Ouça ‘Te recuerdo Amanda’, com Víctor Jara:

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Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]