Ceticismo climático de Jair Bolsonaro põe em risco benefícios econômicos da transição energética

Mina de carvão ainda ativa em Katowice, na Polônia, cidade-sede da COP24.

Mina de carvão ainda ativa em Katowice, na Polônia, cidade-sede da COP24.

O Brasil chegará à 24ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP24, de 2 a 14 de dezembro de 2018), em Katowice, na Polônia, fragilizado pela desistência do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PFL), de acolher o encontro no ano que vem, a COP 25, como estava previsto. Mas o que o Brasil pode perder deixando de ser um ator estratégico nas negociações climáticas? Dois ambientalistas ouvidos pela RFI estimam que o prejuízo, além de diplomático, será sobretudo econômico.

Para André Ferretti, coordenador do Observatório do Clima e gerente de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, a decisão de Bolsonaro faz com que países que estavam interessados em estabelecer parcerias de negócios para o desenvolvimento de tecnologias e o comércio de produtos de baixo carbono deixem de ver o Brasil como um parceiro para investimentos.

“O mundo precisa diminuir as emissões de gases de efeito estufa [implicados no aquecimento global] e existe atualmente uma enorme demanda por tecnologias de baixa emissão. O Brasil é um dos maiores produtores de gêneros alimentícios do planeta e poderia ser o maior produtor de alimentos sustentáveis do mundo, com uma agropecuária de baixo carbono. Mas o que ele está pondo sobre a mesa? Que não está alinhado com esses objetivos”, lamenta Ferretti.

A diretora do Instituto Clima e Sociedade (ICS), Ana Toni, concorda com esse engano de avaliação do futuro governo. Ela vê o Brasil correndo o risco de perder a revolução tecnológica para a economia de baixo carbono, uma corrida na qual a União Europeia, a China e o setor privado americano têm investido bilhões.

“Nós estamos entrando em uma nova era, de uma revolução econômica mundial baseada no baixo carbono. Não ser liderança nesse debate também é abrir mão de estar na liderança dessa revolução. Deixar de se beneficiar dessa nova economia, num país que tem todas as condições naturais, seja na área de energia, de florestas, da água, seria uma perda”, adverte Ana Toni. “Clima não é mais um tema de meio ambiente, é um tema econômico fortíssimo. Estamos vivendo uma reação de setores da velha economia, o que se viu em outras revoluções. O que é infeliz é que o Brasil tem a ganhar com a nova economia e por isso é importante que continue nessa liderança”, enfatiza a representante do ICS.

O coordenador do Observatório do Clima lembra que os mercados externos demandam produtos com responsabilidade ambiental e sustentabilidade. “Se o Brasil não tiver uma produção agropecuária que respeite esses parâmetros ambientais, ele vai depender de mercados periféricos, e, na questão da diplomacia global, o Brasil será um mero coadjuvante, não vai mais desempenhar o papel estratégico que veio desempenhando desde a Rio 92, quando foram firmadas as três convenções da ONU sobre diversidade biológica, mudanças climáticas e combate à desertificação”, recorda Ferretti.

Diplomatas brasileiros chegam enfraquecidos à COP24

Para o Brasil, é muito importante discutir na COP24 a participação das florestas na questão da mudança climática. O desmatamento representa 46% das emissões do país, quase a metade do total, sendo que o Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

As ONGs brasileiras e os países em desenvolvimento cobram financiamento dos países desenvolvidos, que se comprometeram a destinar US$ 100 bilhões de ajuda aos países que não têm condições de se adaptar ou de desenvolver tecnologia de baixo carbono até 2020. Mas isso não tem acontecido, destaca o coordenador do Observatório do Clima.

Entre 2005 e 2010, houve uma redução significativa do desmatamento na Amazônia e, por consequência, das emissões. “Passamos de mais de 30 mil quilômetros quadrados por ano de floresta desmatada para algo em torno de 8 mil quilômetros quadrados por ano. O problema é que nos últimos sete, oito anos, essa redução ficou estagnada”, explica. Ferretti ressalta que o Brasil ainda tem uma emissão per capta maior que a média mundial, sendo necessário diminuir as emissões na agropecuária e no que os ambientalistas chamam de mudança de uso do solo, os setores que mais produzem gases poluentes.

Ferretti prevê sérias pressões sobre a delegação brasileira durante a conferência na Polônia, para que o Brasil tome medidas que levem à redução das emissões de CO2. A diretora do ICS vê, no entanto, os diplomatas do Itamaraty enfraquecidos pelo recuo de Bolsonaro sobre a COP25. “Eles sempre defenderam de maneira brilhante os interesses brasileiros, inclusive econômicos. Fazer um anúncio desses quando nossos diplomatas estão a caminho das negociações cria mal-estar, num momento em que eles precisam se posicionar como uma fortaleza”, lamenta.

A especialista acredita que Jair Bolsonaro está repetindo a posição política do presidente americano, Donald Trump, que anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, sem se dar conta de que este não é o interesse econômico e nacional do Brasil. “É estranho que uma pessoa que tem um discurso nacionalista e de soberania muito fortes siga a posição de um outro país, ainda por cima contrária aos interesses do Brasil”, observa. Na opinião de Ana Toni, o moderno setor agropecuário e os industriais brasileiros vão alertar o futuro governo sobre quanto o Brasil tem a ganhar mantendo a liderança na área ambiental.

*Com informações da Agência RFI.

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