Miguel de Unamuno, vítima do fascismo espanhol. A morte da inteligência | Por Juarez Duarte

Miguel de Unamuno y Jugo (Bilbau, 29 de setembro de 1864 – Salamanca, 31 de dezembro de 1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol. Foi também deputado entre 1931 a 1933 pela região de Salamanca.

Miguel de Unamuno y Jugo (Bilbau, 29 de setembro de 1864 – Salamanca, 31 de dezembro de 1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol. Foi também deputado entre 1931 a 1933 pela região de Salamanca.

O general franquista José Millán-Astray, ex-comandante da Legião Estrangeira espanhola e autor do insólito slogan “Viva a Morte!”, se enfurece com o Reitor e brada:

— Morte à inteligência!

Em protesto, Unamuno responde:

— Este é um templo da inteligência! E eu sou seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando seu recinto sagrado. Eu sempre fui, diga o que diga o provérbio, um profeta em meu próprio país. Vencereis mas não convencereis. Vencereis porque tendes a força bruta, mas não convencereis porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de algo que não tendes: razão e direito na luta!

Corria o ano de 1936, militares espanhóis golpeiam a frágil democracia republicana e o pais se divide em zonas conflagradas. Se instaura uma guerra civil. Guerra fraticida.

Os militares insurgentes são apoiados pelo clero, latifundiários e a alta burguesia das zonas conquistadas. Em Valladolid os republicanos são encarcerados nas “Arenas de Touros”, onde acontecem as touradas da tradição cultural espanhola.

Os algozes dos prisioneiros republicanos, sadicamente reproduzem e imitam os trejeitos dos toureiros profissionais, quando atacam e matam espetacularmente as suas vítimas humanas — com espadas, lanças, pompa e circunstância.

A matança desenfreada dilacera o país por 3 anos, até a derrota republicana em 1939.

Estima-se um milhão de mortos. Os que morreram assassinados ou que tombaram nos campos de batalha foram principalmente jovens adultos, do sexo masculino, pessoas em idade economicamente ativa.

Todavia, a regra era a violação de mulheres e assassinato em massa de todos os que eram considerados inimigos.

Sobre a tragédia espanhola, escreveu Ernest Hemingway, lembrando o poeta John Donne “não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

As feridas da Guerra Civil Espanhola nunca cicatrizaram, mesmo passados 79 longos anos. Por que?

O pós-Guerra. Vingança e não perdão

Com a vitória dos militares golpistas em 1939, liderados pelo general Francisco Franco, começa uma impiedosa perseguição aos republicanos derrotados. Não houve perdão, não houve anistia.

Encarceramentos, torturas, julgamentos sumários e punições rigorosas se tornam o padrão de vingança. E quem era o inimigo a ser duramente penalizado?

O homem adulto em idade de servir ao exército e que foi obrigado a se alistar nas forças armadas do governo republicano era passível de punição, como criminoso de guerra; ter sido associado a um sindicato de classe tornava um trabalhador inimigo do regime fascista vitorioso; ter sido filiado a um partido político que funcionava legalmente antes da Guerra Civil era motivo se severa punição.

Os maçons, através de suas lojas, apoiaram o governo republicano democraticamente eleito. Com a derrota, o simples fato de pertencer a maçonaria era motivo para a aplicação da pena de morte. Até os dias de hoje essa histórica organização é insipiente na Espanha.

O ambiente de terror gerou condições para vinganças particulares, e vizinhos e desafetos denunciavam o seu próximo, pelo perverso prazer da vingança ou interesses materiais de tomar-lhes alguma posse.

No pós-Guerra Civil, a capital Madri despertava diariamente com o matraquear de fuzis e metralhadoras dos pelotões de fuzilamento, sentenças autorizadas no dia anterior.

A rotina do ditador sanguinário era de, zelosamente, enquanto sorvia o seu café matinal, assinava as sentenças de morte de suas vítimas.

Com a economia nacional em frangalhos, devastada pela Guerra, a fome e a doença engrossava o número de vítimas fatais naquele desgraçado país.

Francisco Franco se autoproclamou “generalíssimo pelas graças de Deus”. E não faltou cardeais e arcebispos para “abençoá-lo”.

O poder autoritário de Estado se apresentou mais cruel sobre as nacionalidades derrotadas. As línguas nacionais catalã, euskera (basca), galega e todas as outras foram oficialmente proibidas. O simples ato de falar sua língua nacional em local público era passível de severa punição — e muitos indivíduos só sabiam se comunicar na sua própria língua…

Durante a Guerra Civil, o país se dividiu em 2 zonas, a zona republicana e a zona franquista. A Cidade de Salamanca cai em mãos dos golpistas, militares insurgentes, liderados pelo general Francisco Franco. Se torna capital temporária dos militares fascistas, que depois se transferem para Burgos. Jorram rios de sangue por todo o país, com a política de eliminação física do oponente.

Miguel de Unamuno: vencereis porque tendes força bruta, mas não convencereis

Salão da Universidade de Salamanca – Espanha, 12 de outubro de 1936. Início da Guerra Civil espanhola entre o Governo republicano e os insurgentes liderados pelo general Francisco Franco. Na cerimônia, o Magnífico Reitor Miguel de Unamuno, que havia inicialmente apoiado a rebelião franquista, faz duras críticas aos rebeldes:

— Vencereis, mas não convencereis. Vencer não é convencer e há que se convencer. O ódio que não dá lugar à compaixão não pode convencer.

O general franquista José Millán-Astray, ex-comandante da Legião Estrangeira espanhola e autor do insólito slogan “Viva a Morte!”, se enfurece com o Reitor e brada:

— Morte à inteligência!

Em protesto, Unamuno responde:

— Este é um templo da inteligência! E eu sou seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando seu recinto sagrado. Eu sempre fui, diga o que diga o provérbio, um profeta em meu próprio país. Vencereis mas não convencereis. Vencereis porque tendes a força bruta, mas não convencereis porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de algo que não tendes: razão e direito na luta!

Alvoroço no Paraninfo (Salão), os fascistas camisas azuis se juntam em torno a Astray e sacam as suas armas para fuzilarem o Reitor ali mesmo. Professores togados corajosamente cercam Unamuno, no intuito de protegê-lo.

Assistia ao ato a esposa do recém-nomeado chefe de Estado da Espanha insurgente, Dona Carmen Polo de Franco, que salva o Reitor da ira de Astray. A esposa do general Franco, rodeada por sua escolta, toma Unamuno pelo braço e o conduz até a porta da Universidade, onde o esperava um carro do Quartel General. Ele é levado para a sua casa — hoje museu —, muito próxima do que na atualidade é denominado Edifício Histórico da Universidade de Salamanca.

Unamuno foi destituído do cargo de reitor e nunca mais visto em público, encarcerado em sua própria casa. Morreria em 31 de dezembro daquele fatídico ano de 1936, provavelmente de desgosto.

Com esta extrema dramaticidade encerra-se a vida em matéria do grande pensador espanhol Miguel de Unamuno. Escritor, poeta e filósofo, D. Miguel foi importantíssimo no cenário cultural e intelectual espanhol e mundial do Século XX.

Francisco Franco morre matando

Habilmente o governo franquista sobrevive ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os americanos, por motivos geopolíticos da Guerra Fria, toleram a continuidade do seu regime fascista, como forma de conter o avanço das esquerdas na Europa Ocidental — e enche o território espanhol de bases da OTAN, tutelando aquele atrasado e isolado país.

Franco entrega a vigilância da “moral e bons costumes” à Igreja Católica, sua cúmplice, e a Espanha mais se assemelhava então a um convento de freiras, do que a um país europeu ávido por mudanças na segunda metade do Século XX.

Talvez por isso, os espanhóis parecem ser o povo mais anticlerical do mundo — e com razão.

Uma longa e agônica enfermidade acomete o ditador fascista, e do seu leito de morte ele arquiteta a transição política espanhola para um regime monarquista; e mais: reprime duramente os movimentos armados nacionalistas catalães e de Euskadi, quando sentencia à morte 2 jovens envolvidos em ações armadas. Francisco Franco morre matando.

Espanha hoje

A Espanha na atualidade é um país próspero, moderno, democrático, que está superando gradativamente a última grande e cíclica crise econômica mundial. Sendo um dos principais destinos turísticos do Planeta, isso faz de suas metrópoles cidades globais, pluralistas e multiculturalistas.

As chagas da Guerra Civil estão ali, abertas. Serão superadas? Serão retroalimentadas com a ascensão recente do fascismo e neonazismo em escala mundial?

Só o tempo dirá. Quem viver verá. Quem viver… verão.

*Dr. Juarez Duarte Bomfim ([email protected]) é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha, e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]