Em discurso para história, senador Roberto Requião antevê fracasso do Governo Bolsonaro; Liberalismo econômico acentua desigualdade e amplia concentração de renda

Roberto Requião: Como essas massas de descontentes que se enfileiram ao tropel autoritário vão reagir quando as privatizações repetirem o desastre fernandista que levou de roldão a Vale, as teles, as ferrovias, sem um tostão de lucro para os brasileiros, sem abater centavo da dívida, sem gerar empregos, sem aquecer a economia, sem estimular a produção? Pior, obrigando o País, logo em seguida, a esmolar recursos do Fundo Monetário Internacional.

Roberto Requião: a política econômica proposta pelos economistas do Bolsonaro é exatamente a política econômica do Temer, do Meirelles, da Ponte para o Futuro, que nos deixou neste caos em que estamos vivendo.

O senador Roberto Requião (MDB-PR) afirmou na terça-feira (23/10/2018) em Plenário que a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República representa uma “tríplice aliança” entre forças autoritárias, expoentes do neoliberalismo e as massas frustradas com a corrupção e a crise econômica. Para o senador, Bolsonaro galvanizou a frustração e o descontentamento de amplos setores da sociedade, mas criou um movimento fadado ao fracasso.

Para Requião, um eventual governo de Bolsonaro será marcado pela contradição de seus apoiadores, com interesses inconciliáveis. O senador vê uma “aliança inédita” entre a setores expressivos classe média, trabalhadores e lideranças nas Forças Armadas com o “liberalismo mercantilista”.

— Vemos uma inusitada tríplice aliança reunindo expoentes do autoritarismo, alguns deles muito próximos do que poderíamos classificar como fascismo, os ultraliberais do mercado, desde oportunistas, tipo Paulo Guedes, até economistas do PSDB, e o povaréu revoltado, de cujo descontentamento fazem-se as massas do capitão — afirmou Requião.

Para ele, as contradições inviabilização um eventual governo Bolsonaro.

— Qual é o elo de um general Augusto Heleno com o guru econômico do capitão, que pretende privatizar e entregar tudo, desmantelando o Estado nacional pedra por pedra? Que Estado sobrará, senhores militares, para sustentar os objetivos nacionais permanentes previstos na Constituição? Ou isto já não importa mais? Que ponto de contato pode existir entre os que clamam por emprego, salário, segurança, saúde, educação, dignidade e respeito e um programa econômico que não reserva espaço para estas demandas e que, pelo contrário, prega arrocho fiscal, contenção radical de gastos e suspensão dos investimentos públicos? — continuou o senador.

Para Requião, o descontentamento e o desencanto da população foram abduzidos pelos setores neoliberais. Mas isso não tem como dar certo.

— Como essas massas vão reagir à privatização da Petrobras, do sistema energético e dos recursos hídricos, do Banco do Brasil, da Caixa, do BNDS? Quando a venda de todos os bens da viúva não resultar em nada para a geração de empregos, para a saúde, para a educação, para a redução da violência?

Brasileiros desiludidos

— O que falei há oito anos não era uma profecia. Não tenho esse dom. Apenas observava os acontecimentos à luz da história. Mas, seja como for, temos aí a candidatura de Jair Bolsonaro. Na verdade, não é bem uma candidatura; é um movimento, uma procissão de brasileiros desiludidos com a política, revoltados com a corrupção, apavorados com a perda de status, temerosos da pobreza, indignados com a violência, desesperados com a falta de perspectivas, vítimas do desemprego, do subemprego, dos salários baixos, do achatamento do poder aquisitivo, além, é claro, de arrebanhar com todo o séquito, todo tipo de séquito, bandidos, proxenetas, rufiões, atores pornôs que marcham ombro a ombro com os defensores dos bons costumes e da família, um cortejo, um séquito habilmente explorado nos últimos anos pelos meios de comunicação – as Organizações Globo à frente –, estimulado pela conivência dos nossos liberais, social-democratas e pelo ciúme doentio do príncipe dos sociólogos e manipulados por um Judiciário e um Ministério Público parcialíssimos, vesgos por seu parti pris político e ideológico. Todas as frustrações reunidas, galvanizadas por uma ideia difusa de revanche, de troco, de vingança.

Liberalismo Econômico e Geopolítica 

— Em fevereiro de 2011, no primeiro discurso que fiz desta tribuna, no exercício do mandato que agora se encerra, apontava uma contradição original, liminar, entre o neoliberalismo e a democracia. Considerava que o avanço das reformas neoliberais, a financeirização da economia, com a transformação até mesmo de nossas vidas emcommodities negociáveis nas bolsas, levariam inevitavelmente à precarização das instituições democráticas e ao despertar do autoritarismo. Afinal, para que o reino do mercado se estabelecesse em toda a sua plenitude, as instituições democráticas deveriam necessariamente ser enfraquecidas. Como o mercado representasse os interesses minoritários da sociedade, para se impor à maioria, precisava subjugar o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e os mecanismos de controle da economia, assim, como era necessário precarizar o mercado de mão de obra com reformas trabalhistas e previdenciárias, além, é claro, do enfraquecimento do movimento sindical e da criminalização dos movimentos sociais.

— Como essas massas de descontentes que se enfileiram ao tropel autoritário vão reagir quando as privatizações repetirem o desastre fernandista que levou de roldão a Vale, as teles, as ferrovias, sem um tostão de lucro para os brasileiros, sem abater centavo da dívida, sem gerar empregos, sem aquecer a economia, sem estimular a produção? Pior, obrigando o País, logo em seguida, a esmolar recursos do Fundo Monetário Internacional.

— Quando a venda de todos os bens da viúva não resultar em nada para a geração de empregos, para o avanço da qualidade de vida, para a diminuição dos juros, para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, para a saúde, para a educação, para a redução da violência e para a retomada da industrialização? Como reagirão os brasileiros com essa esterilização dos mais de R$500 bilhões, que, segundo calcula o Sr. Paulo Guedes, advirão da liquidação em regra total do patrimônio público nacional? Será que, ainda antes das eleições, haverá tempo para despertar esses brasileiros que engrossam as hordas bolsonaristas da arapuca que eles armaram, os neoliberais? Da treta que engatilham o mercado, os bancos e os capitais transnacionais e os interesses geopolíticos norte-americanos?

Dificuldades

—  O general Heleno é um dos seus preceptores; o Gen. Heleno foi o general que se revoltou com a Raposa Serra do Sol, porque ele achava que era um artifício colocado para futuramente separar aquela área indígena do Brasil para exploração de interesses financeiros geopolíticos de outros países; o Gen. Heleno, mentor, diz ele, do Bolsonaro, pode dialogar com as maluquices do Paulo Guedes? Nós estamos vivendo uma contradição incrível, e eu, primeiro, acredito, como o Senador Humberto Costa, que o Brasil pode acordar nesses últimos dias, mas não acredito que o Brasil se submeta à escravização por interesses geopolíticos e econômicos de todo um processo nacional de criação, de criação civilizatória, de organização social, com mil erros que têm que ser corrigidos, mas nunca nos submetermos à condição de país de segunda categoria.

Dilma, o Ovo da Serpente e o Totalitarismo

Requião lembrou que, em 2011, no início do atual mandato, apontou em seu primeiro discurso as contradições do governo Dilma Rousseff, então no começo. Na ocasião, o senador alertou para o risco do autoritarismo e da perda de direitos trabalhistas e previdenciários. O senador identificava ações destinadas a garantir o domínio do mercado sobre os interesses do país. Para ele, estava sendo chocado o “ovo da serpente”.

Ainda para o senador, muitos constroem equivocadamente paralelos entre os bolsonaristas e os movimentos fascistas europeus das décadas de 20, 30 e 40.

— O nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo, os quislings, da Noruega, são fortemente nacionalistas, anti-imperialistas e defendem com toda radicalidade o Estado nacional, as empresas nacionais, o capital nacional, os trabalhadores nacionais, o mercado nacional. Se abstrairmos os aspectos autoritários, que podem aproximar o candidato do PSL dos movimentos que citei, pouco resta que os identifique ou avizinhe-os. Assim, querer associar as propostas de Horace Greeley Hjalmar Schacht [economista alemão] com as de Paulo Guedes, por exemplo, além da impropriedade de se comparar o economista do milagre alemão com o especulador, medíocre e limitado, é não conhecer economia e muito menos história.

Confira vídeo

*Por Roberto Requião de Mello e Silva, advogado, jornalista, urbanista e político brasileiro. Atualmente, é senador da República pelo estado do Paraná e relator e defensor do Projeto de Abuso de Autoridade, atualmente em pauta no Senado Federal.

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