A utopia não morreu, deve ser alimentada | Por João Baptista Herkenhoff

Tomás Morus foi filósofo, homem de estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de "Lord Chancellor" de Henrique VIII da Inglaterra. É geralmente considerado como um dos grandes humanistas do Renascimento.

Tomás Morus foi filósofo, homem de estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de “Lord Chancellor” de Henrique VIII da Inglaterra. É geralmente considerado como um dos grandes humanistas do Renascimento.

Há colocações falsas que, de tão repetidas, são absorvidas, até inconscientemente, como verdadeiras. Uma dessas colocações equivocadas é, a meu ver, a de que teríamos chegado ao fim das utopias. Tratei deste tema num livro meu – Direito e Utopia, livro este que está, no momento, esgotado.

Em defesa da tese de que as utopias acabaram, vários argumentos são apresentados: a) a União Soviética ruiu, o Socialismo é coisa do passado; b) a ineficiência da máquina pública é evidente, avançam as privatizações, a economia de mercado triunfou; c) Jesus casou com Maria Madalena e teve um filho, a Fé Cristã naufragou; d) a competição é a senha do progresso, só esta via pode libertar o homem dos mitos que o aprisionam; e) a felicidade de um povo mede-se pelos seus níveis de consumo.

Essas mentiras, afirmadas em várias línguas, difundidas por sofisticados aparelhos de dominação social, acabam por se tornar dogmas.

As afirmações colocadas acima são inteiramente falsas.

O que caiu foi apenas um modelo de Socialismo, o Socialismo autoritário que, em parte, resultou da pressão dos países capitalistas, pois estes encurralaram a União Soviética tornando muito difícil a experiência de um Socialismo democrático naquele país. O Socialismo está vivo e é a promessa do amanhã. O que está nos últimos estertores é o Capitalismo, que esmaga o ser humano e tem na prática da guerra o seu pressuposto e a sua lógica.

A condenação em bloco da máquina pública como ineficiente é falsa. Há instituições públicas e instituições privadas de excelente qualidade, da mesma forma que há instituições péssimas nos dois modelos.

Jesus Cristo permanece como Luz do Mundo, horizonte para milhões de pessoas. Interesses mesquinhos pretendem o fim do Cristianismo porque a vivência do Cristianismo, nas suas últimas consequências, criará uma sociedade oposta à sociedade hoje dominante.

A competição gera um progresso conflitivo e desumano. A cooperação é que pode produzir o verdadeiro progresso, em benefício de todos e não apenas em proveito de alguns.

A felicidade de um povo mede-se por indicadores muito mais profundos do que o simples consumo, ainda mais esse consumo que alcança somente uma fração do povo.

A utopia, no seu sentido filosófico e político, não é um sonho, uma quimera, conforme o sentido que às vezes é atribuído a esta palavra.

O termo “utopia”, em grego, significa “que  não existe em nenhum lugar”, ou tentando explicar com outros vocábulos o conceito que a velha Grécia nos legou. A utopia é a representação daquilo que não existe ainda, mas que  poderá existir se lutarmos por sua concretização.

A utopia é assim um “projeto de futuro”. A utopia quer construir um mundo diferente deste que aí está.

Sempre foi a utopia que moveu a História. Todos os grandes avanços da Humanidade nasceram da utopia.

Tomás Morus, Campanella, Marx, Teilhard de Chardin, Kierkegaard, Gabriel Marcel, Ernest Bloch, Roger Geraudy, Martin Luther King, Che Guevara, Hélder Câmara foram alguns dos grandes utopistas que alimentaram a caminhada dos homens na busca de uma existência compatível com sua suprema dignidade.

Foi o pensamento utópico que levou Frei Caneca à  morte: sonhador de um mundo igual para todos. Foi nutrido de sua seiva que Oswald de Andrade defendeu o poder revolucionário da imaginação. Foi  com base nele que Niemeyer pôs em arquitetura o seu projeto de uma cidade humana, projeto aniquilado pelas estruturas envolventes, pois é impossível uma cidade humana dentro de uma sociedade fundada no lucro, na discriminação, na desigualdade.

Dizer que a utopia morreu é assinar carta de abdicação à face das forças poderosas que comandam este mundo.

A utopia está viva. É preciso alimentá-la com a nossa Fé, em todos os espaços sociais onde possamos atuar. O desafio não é apenas construir a utopia na organização do mundo, mas construir também a utopia em nosso país, em nosso Estado, em nosso município, em nosso bairro, em nosso local de trabalho. Construir a utopia com nossa ação, nossa palavra, nosso testemunho. Compreender que a edificação da utopia não é obra de uma só geração. Temos de fazer o que cabe ao nosso tempo e transmitir aos que venham depois de nós a tarefa de continuar o caminho.

*João Baptista Herkenhoff (Email: [email protected]), juiz de Direito aposentado (ES) e escritor.

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Sobre o autor

João Baptista Herkenhoff
João Baptista Herkenhoff possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (1958) , mestrado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1975) , pós-doutorado pela University of Wisconsin - Madison (1984) e pós-doutorado pela Universidade de Rouen (1992) . Atualmente é PROFESSOR ADJUNTO IV APOSENTADO da Universidade Federal do Espírito Santo.Contato:Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Departamento de Direito. Avenida Fernando Ferrari, 514 | Goibeiras 29075-910 - Vitoria, ES - Brasil | Home-page: www.jbherkenhoff.com.br |E:mail: [email protected] | Telefone: (27)3335-2604