Salvador: exposição urbana É Só Amor sofre vandalismo um dia após colagem

Fotografia da exposição É Só Amor sofre ato de vandalização.

Fotografia da exposição É Só Amor sofre ato de vandalização.

Em 2017, de acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), no Brasil, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e até heterossexuais foram assassinatos ou cometeram suicídio por circunstâncias homofóbicas. Na Bahia foram 35 mortes. Muitas dessas mortes ocorreram em lugares públicos (57%), em momentos afetivos da vítima com parceiros e/ou com amigos.

Utilizando desta pauta, o ator, performer, dramaturgo e diretor teatral Luiz Antônio Sena Jr leva para as ruas do centro histórico de Salvador a Exposição Fotográfica Urbana É Só Amor, que o traz em situações cotidianas de homoafetividade. “Essa exposição tem o intuito de convocar a reflexão a respeito da violência que as expressões homossexuais sofrem cotidianamente”, explica Luiz Antônio.

Os afetos expressos nas fotografias provocaram atos homofóbicos mais rápido que se pensava. No dia seguinte a colagem, nesta terça-feira (02/10/2018), todas as fotos tinham sofridos vandalismo e atos de homofobia, entre eles, a frase: “Só Bala”. “Todas as fotografias foram rasgadas. Em sua maioria, o ‘vândalo’ rasgou exatamente o afeto demostrado”, descreve Luiz Antônio.

Documental

A exposição faz parte do projeto homônimo É Só Amor³, que fricciona realidade e ficção e tem como base a arte documental. “Sou homossexual e vejo muitos dos meus pares sendo agredidos das diversas formas possíveis. A intenção dessa ação é discutir homofobia e a homoafetividade”, realça o artista.

Trazendo um conceito mais urbano e contemporâneo, as fotografias foram impressas em formato de lambe-lambe, com tamanhos gigantes e coladas no corredor urbano que vai da Avenida Carlos Gomes de Salvador, Rua Chile e, por fim, na Praça da Sé. A exposição não tem previsão de término, ficando sujeita a ações climáticas e sociais.

“A arte do lambe-lambe tem como característica ser atravessada pelo tempo, desgaste do trânsito, pelo cruzamento das pessoas, que podem riscar, rasgar e até colar outros lambes e grafitar em cima das imagens. O lambe não é somente uma arte para apreciar, mas também para sofrer intervenções”, argumenta Luiz Antônio.

É Só Amor é uma exposição que marca o encontro de três artistas, de linguagens distintas: Luiz Antônio Sena Jr (teatro), Tina Melo (artes visuais e performance) e Mayara Ferrão (audiovisual, fotografia e artes visuais). Estas duas assumiram o papel de provocadoras performativas no ensaio fotográfico. No decorrer do processo e na sessão de fotos elas questionaram a Luiz Antônio quais signos afetivos e situações cotidianas podem ser suscitar crimes homofóbicos.

A obra será construída processualmente. A primeira fase é fixação das fotografias em lambes. No segundo momento, esses quadros sofrerão intervenções performáticas com balões de tinta vermelha lançados pelo artista e performer Luiz Antônio Sena Júnior. Essa ação ocorrerá ao longo de uma semana a partir do dia 4 de outubro.

“Em cima de uma imagem de afeto, em preto e branco, essas intervenções buscam refletir a violência urbana e a homofobia”, realça o performer, ao acrescentar que os locais onde estão fixados os lambes são ruas que existem espaços de convivência e resistência da comunidade LGBTQ+. Inclusive, alguns destes espaços, a exemplo do Bar Caras & Bocas, localizado na Avenida Carlos Gomes, já sofreram agressões verbais e físicas de prédios vizinhos e transeuntes.

Luiz Antônio Sena Jr. convidou o administrador e designer João Pimenta para compor algumas fotografias. Os dois vivenciaram laboratórios criativos que evidenciam a homoafetividade em seus diversos ambientes domésticos, uma vez que o projeto tem como base a arte documental. É Só Amor³ vem sendo concebido, gestado e produzido há pelo menos um ano na ‘Casa do Lu’, moradia do performer.

É Só Amor³

O projeto nasce pelo fato da pesquisa teatral de Luiz Antônio, baseada na arte documental, ser atravessada por outras linguagens artísticas. No entanto que, as três fases do projeto É Só Amor³ trazem reverberações desses atravessamentos. No caso da exposição, o intercâmbio é com as artes visuais e a performance.

A segunda fase é o show #ComproVendoTrocoAmor, que ocorrerá em três espaços da capital baiana. Neste momento, o artista traz o intercâmbio com a música. “Desde 2009, A Outra Companhia de Teatro, grupo que integro, desenvolve uma pesquisa que compreende que a música, assim como o teatro, cria narrativas”.

O ato performático TOMATEAMO – terceira etapa do É Só Amor³ – cruza teatro, dança e performance.

Cada uma dessas etapas tem provocadores diferentes: na primeira, Mayara Ferrão e Tina Mello acendem em referências visuais signos de como homoafetividade pode ser afrontosa para algumas pessoas, ao ponto de serem cometidos crimes e assassinatos, tomando como eixo ações-sínteses.

Na segunda, Luiz Antônio Sena Jr. convidou os músicos Filipe Mimoso e Roquildes Júnior, que serão responsáveis pelos arranjos de músicas autorais e dar ‘cara’ nova a músicas conhecidas do imaginário social. “O show não tem um ritmo predominante, mas tem uma linguagem muito particular, com músicas – sejam autorais ou de outros artistas – que carregam muita dramaticidade”, pontua Roquildes Júnior, ao acrescentar que o repertório tem canções de Djavan, Milton Nascimento, Geraldo Azevedo, Adriana Calcanhoto, entre outros.

A última fase, que é uma performance-espetáculo, tem o atravessamento de Anderson Danttas – ator, bailarino e transformista baiano, integrante d’A Outra Companhia – e Alexandre Américo – bailarino e coreógrafo de Natal (RN), que desenvolve pesquisas em arte documental.

O ator e diretor teatral Thiago Romero também assume o papel de provocador, mas do projeto como um todo. É Só Amor³ foi contemplado no edital Arte Todo Dia – Ano IV, Bairro a Bairro, da Fundação Gregório de Mattos – Prefeitura de Salvador

Perfil do artista

Idealizador do projeto, Luiz Antônio Sena Jr. é bacharel em Artes Cênicas pela Escola de Teatro da UFBA com habilitação em Interpretação Teatral e pós-graduando em Gestão e Políticas Culturais pela UFRB. Atualmente, integra A Outra Companhia de Teatro, onde além de ator também é diretor e produtor, desenvolvendo ainda ações de dramaturgia e iluminação.

Como ator, trabalhou com diretores de reconhecido mérito como Harildo Déda (As bruxas de Salem), Thiago Romero (Menu e O que de você ficou em mim), Adelice Souza (Bagagem), Cristina Castro (José ULISSES da Silva), Fernando Santana (Frida Kahlo), Fernanda Júlia (Senzalas), Vinício de Oliveira (Arlequim e O Contêiner), Marcelo Souza Brito (Luz), dentre outros.

Enquanto diretor, destacam-se os espetáculos Sertão, Ruína de Anjos, O que de você ficou em mim, Remendo Remendó (pelo qual foi indicado a Revelação no Prêmio Braskem de Teatro, pela direção) e Mar me quer.

Na área de produção, desenvolve ações de gestão e produção nas áreas de teatro e dança, a exemplo dos projetos Enxergue! sonhos, memórias e declarações d’A Outra Companhia; Circulação nacional d’A Outra Companhia de Teatro no Palco Giratório 2017; Vivadança Festival Internacional.

Luiz Antônio produziu também os espetáculos Madame Satã (2018), Frida Kahlo (2018), Mundaréu (2017), Desviante (2017), Menu (2016), Kaiala (2016), Sobre a Pele (2016), Rebola (2016), Ruína de Anjos (2015) e mais de uma dezena de montagens.

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