Privatizações previstas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro agradam investidores estrangeiros

Charles-Henry Chenut: A nomeação de um economista com doutorado na Universidade de Chicago é um sinal de novos tempos.

Charles-Henry Chenut: A nomeação de um economista com doutorado na Universidade de Chicago é um sinal de novos tempos.

O novo governo brasileiro aposta na economia de mercado como instrumento para geração de renda e emprego. É com base no liberalismo que Jair Bolsonaro espera retomar a confiança no país e atrair investimentos. Estratégia que vem ao encontro dos anseios das 40 maiores empresas francesas, todas com atuação no Brasil.

A nomeação de um economista com doutorado na Universidade de Chicago é um sinal de novos tempos, segundo o Conselheiro de comércio exterior da França para a América Latina e Caribe, Charles-Henry Chenut. E que pode temperar a retórica populista do presidente eleito.

“A vontade dele de nomear o Paulo Guedes, esse famoso Chicago boy, que me parece mais liberal do que ultraliberal e que vai apoiar a posição do novo governo e que seria um caminho mais fácil para as empresas brasileiras e francesas lá no Brasil.”

“É uma questão também de dar mais liberdade aos empresários e notadamente aos empreendedores no Brasil para liberar ações individuais de cada um que quer trabalhar mais no mercado privado, diminuindo a pressão fiscal e diminuindo a complexidade administrativa para estimular o mercado privado. E também porque o Brasil tem uma imagem de protecionismo que os brasileiros não aceitam”, completa Chenut.

Entre os desafios do novo governo, além de mais abertura ao mercado externo, estão conter o déficit orçamentário e reverter a trajetória de crescimento da dívida pública. Uma herança que compromete a capacidade de investimento imediato da União. Apesar de enormes carências de infraestrutura no Brasil, os empresários franceses não contam com novos projetos em parceria com o setor público a curto prazo. Mas comemoram mais liberdade de ação do setor privado, explica Charles-Henry Chenut.

“Tem uma necessidade de trabalhar nessas áreas de saúde pública, de infraestrutura, segurança, construção civil, etc. Mas o problema é que não tem mais dinheiro público, então o Bolsonaro pode prometer qualquer coisa, mas ele não tem dinheiro. No mercado privado tem o mercado de novas energias, tem essas questões de aposentadorias e saúde para idosos, tem todo o novo mercado através da internet e eu acho que nesse sentido a cooperação França-Brasil tem que demonstrar que a gente tem bastante coisas em comum para serem desenvolvidas.”

“São expectativas grandes porque o mercado privado estava parado até essas eleições, tem condições para investir e trabalhar mais no Brasil, mas essas empresas estrangeiras, principalmente francesas, queriam ver qual seria o futuro presidente e qual seria a posição dele sobre o mercado privado nacional e internacional”, afirma o Conselheiro de comércio exterior da França.

Reformas

Segundo o programa de governo de Jair Bolsonaro, o tripé macroeconômico vigente deverá ser mantido, com câmbio flexível e metas de inflação e fiscal. Mas há outros pontos apresentados na campanha do PSL que chamam atenção de quem tem dinheiro para investir no Brasil.

Com oito escritórios espalhados pelo mundo, a Relecom trabalha para capturar empresas e grupos de países desenvolvidos interessados em mercados emergentes, como o caso do Brasil.  O diretor-executivo para as Américas, Fábio Levada, cita os pontos que podem funcionar como atrativos para o Brasil.

“O que chama mais a atenção é a questão do combate à corrupção, em relação a manter os poderes, principalmente o judiciário trabalhando da forma independente que tem trabalhado nos últimos anos. Esse é o primeiro fator de atração. O segundo é justamente a agenda mais liberal. A fim de trazer ou buscar investimentos e não focar a agenda única e exclusivamente nos países do Mercosul que até então era a política do governo anterior.  E o terceiro é a agenda de reformas que ele se propõe a fazer pelo menos ao longo desse próximo ano, ele tem muito mais capital político e vai ter mais apoio da base do congresso.”

Além das prometidas reformas da previdência e fiscal, uma maior autonomia ao Banco Central também é vista com bons olhos pelos investidores estrangeiros.

“O fato de dar a independência no papel e principalmente entregar a independência ao comandante do Banco Central serão fundamentais e aí há uma expectativa de continuidade da equipe atual no Banco Central com mais poder para a condução do que são as teorias fundamentais da economia”, explica Levada.

Um conjunto de medidas que poderão aumentar o volume de dólares investidos no país já a partir do ano que vem, como explica o diretor da Relecom.

“Das transações que foram reveladas em termos de números, o Brasil está em torno de 38 a 40 bilhões de investimentos estrangeiros diretos no acumulado desse ano. A expectativa é que no ano que vem esse número seja em torno de 75 e 80, ou seja, praticamente dobrar o volume de investimento direto em relação ao ano de 2018. Eu diria que os setores que chamam mais atenção são: a infraestrutura, construção civil e o comércio em geral, com muito foco nos alimentos e bebidas.”

Interesse em privatizações

Mas é o anúncio de novas privatizações que mais interessa aos investidores estrangeiros. O novo governo que assume em janeiro calcula que a União possui atualmente cento e quarenta e sete empresas estatais, das quais dezoito dependem de recursos financeiros do governo federal para pagamento de despesas com pessoal, para custeio em geral e de capital. Um catálogo de ofertas que abrange energia, logística e transporte e que deve encontrar interessados, segundo Fábio Levada.

“Eu diria que algumas empresas estatais já estão numa lista do governo para futura privatização o que também é bom porque além do recurso que entra com ele vem a tecnologia e o know-how. Do outro lado, as empresas consideradas as queridinhas do Brasil serão temas de mais debate.”

Mas num ponto os investidores dizem que será preciso ter mais paciência. “O problema não é do Bolsonaro, do governo, o problema vem mais do Congresso, dos partidos, dos senadores, dos deputados antigos que são, para uma boa parte, corruptos”, afirma Chenut. “Então tem essa nova lei de compliance no Brasil que pode ajudar, tem uma vontade de escrever uma nova página do país, da história da economia e da política do país, mas vai demorar. Porque tem reflexos antigos de corrupção e cada um sabe muito bem que você não pode mudar imediatamente, principalmente na área pública”, completa.

*Por Maria Paula Carvalho, da Agência RFI.

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