Eleições 2018: O país do futuro flerta com o passado

Candidato à presidência da República de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL/RJ) é um político identificado por setores da mídia com as ideias do nazismo, fascismo, antissemitismo, misoginia, segregacionismo contra negros e grupos minoritários, que professa discurso do ódio, vinculado a prática da violência física como forma de obter a redução do conflito social, e que usa a religião e o nome de Deus como forma de obter consentimento eleitoral.

Candidato à presidência da República de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL/RJ) é um político identificado por setores da mídia com as ideias do nazismo, fascismo, antissemitismo, misoginia, segregacionismo contra negros e grupos minoritários, que professa discurso do ódio, vinculado a prática da violência física como forma de obter a redução do conflito social, e que usa a religião e o nome de Deus como forma de obter consentimento eleitoral.0

O segundo turno da eleição brasileira parece encaminhado. Jair Messias Bolsonaro (PSL) tem ampla vantagem sobre Fernando Haddad (PT). É totalmente incerto o destino da viagem sob Bolsonaro. Levando em conta suas declarações, ele quer que “o Brasil semelhante ao de 40, 50 anos atrás”. Ou seja, voltando aos obscuros tempos da ditadura (1964-85), que o ex-militar defende apaixonadamente – incluindo torturadores. O discurso dele, pelo menos, já é equivalente.

No último domingo (21/10/2018), Bolsonaro, que não faz campanha na rua desde que foi atacado com uma faca, no início de setembro, prometeu “uma limpeza nunca vista na história do Brasil”, em mensagem de vídeo transmitida para manifestantes apoiadores de sua candidatura reunidos em São Paulo.

Quem não se subordinar à vontade majoritária vai “pra fora” ou “pra cadeia”. Ele disse ainda que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) serão tratados como terroristas e que Haddad passará “alguns anos” ao lado de Lula na cadeia.

“É possível equiparar perfeitamente o que ele diz com a ascensão de Hitler, e não seria surpreendente se, nos próximos meses, a democracia desse uma guinada em direção ao autoritarismo”, comenta o jornalista alemão e colunista da DW Brasil Alexander Busch. Para ele, as declarações de Bolsonaro ainda podem ser apenas retórica de campanha. “Até agora, o sistema político sempre teve um efeito moderador sobre os presidentes, empurrando o esquerdista Lula para uma política econômica liberal e o conservador Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) para uma política mais social”.

O cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, é mais pessimista. No melhor dos casos, afirma, vai acontecer com Bolsonaro o que ocorreu com Donald Trump nos EUA – as ideias mais radicais serão de alguma forma amortecidas pelas instituições políticas.

“Mas é preciso ressaltar que as estruturas no Brasil não são tão fortes como nos EUA”, pondera Stuenkel. Exemplo disso, segundo o analista, seria a reação desamparada da Justiça às acusações de que Bolsonaro teria financiado a disseminação de notícias falsas por um Caixa 2. Uma vez que os militares apoiam o apoiam, Bolsonaro não tem nada a temer de uma Justiça acuada.

Stuenkel espera um aumento da violência institucional, uma política de segurança interna mais dura, com menos direitos para as minorias e mais violações de direitos humanos nas favelas e na Amazônia. “Do ponto de vista da segurança interna, Bolsonaro pode ser comparado mais com o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Também Bolsonaro quer atuar com ‘mão dura’ contra minorias e o crime, sem consideração pelos direitos humanos. E isso encontra apoio na população.”

Ao mesmo tempo, entre os apoiadores de Haddad, domina uma mistura de medo e teimosia. Eleitores do PT declararam que vão resistir durante evento no Rio de Janeiro, na última terça-feira. Simultaneamente, disseram que vão preparar os passaportes.

Em geral, o Brasil oscila entre o pânico e a paranoia. Em parte, fruto da disseminação de milhões de fake news que polarizaram radicalmente a sociedade e tornam difícil um debate saudável sobre reformas necessárias. Há tempos o debate público brasileiro adotou contornos surreais e grotescos.

Atualmente, o medo se sobrepõe a qualquer razão. Assim, muitos brasileiros também não se incomodam com o fato de Bolsonaro não ter apresentado um programa consistente de governo. Na maioria das vezes, a resposta fica num breve “tem que mudar isso aí”.

Mesmo assim, segundo Alexander Busch, a economia olha com otimismo cauteloso para Bolsonaro. “Suas declarações para enxugar o Estado e para a privatização de estatais são contraditórias. Mas, se seu guru econômico liberal, Paulo Guedes, conseguir impor reformas nos primeiros meses, ele pode desencadear uma espiral positiva”, diz Busch. Com ou sem violação dos direitos humanos – “a economia pensa de forma pragmática”. A prova: desde que Bolsonaro lidera as pesquisas, a bolsa e o real tiveram valorização de 15%.

O cientista político Stuenkel enxerga um risco para a economia do Brasil numa eventual eleição de Bolsonaro. Como Trump, o capitão da reserva rejeita grêmios multilaterais, e a saída do Acordo de Paris e de convenções de defesa dos direitos humanos é tratada como possível. Algo que prejudicará principalmente as relações com a Europa: “Encontrar-se com Bolsonaro significaria altos custos políticos para a maioria dos líderes europeus em casa”, avalia Stuenkel.

As relações com a China, o parceiro comercial mais importante do Brasil, já foram desgastadas por uma visita de Bolsonaro a Taiwan e seu discurso sobre uma conspiração mundial comunista. “Se a China reagir, isso seria uma catástrofe para a economia brasileira”, prevê Stuenkel.

O economista Marcelo Neri, da FGV no Rio de Janeiro, também tem dúvidas sobre a viabilidade de reformas econômicas. Por um lado, Bolsonaro contará com uma maioria robusta, diferentemente dos últimos dois presidentes, Dilma Rousseff (2011-2016) e Michel Temer (desde 2016). Mas sua base parlamentar se baseia, em grande parte, em grupos lobistas de cunho nacionalista, como policiais e militares, com os quais não será possível nem fazer os cortes necessários no sistema previdenciário, nem a privatização de estatais. “Com isso, a ideia de reformas perde força”, avalia Neri.Para o economista, o clima na sociedade está envenenado demais para um recomeço limpo. “É como se estivesse gasolina espalhada – voce não pode riscar um fósforo nestas circunstâncias”, diz Neri, que descreve como simbólico para o momento altamente explosivo do Brasil a situação das duas personalidades mais importantes do país: o ex-presidente Lula, atualmente preso, e Bolsonaro, recentemente vítima de um ataque com uma faca. “Eu acho que o Brasil precisaria de um Nelson Mandela ou uma pessoa que tivesse a visão de tudo e do outro lado. E acho que é uma situação difícil de acontecer. Não me parece que temos isso”, constata Neri.

Com informações do DW.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia).