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Eleições 2018: “Bancada dos parentes” resiste no Congresso Nacional

Já foram identificados 138 deputados e senadores que pertencem a clãs políticos entre os 567 novos parlamentares.

Foram identificados 138 deputados e senadores que pertencem a clãs políticos entre os 567 novos parlamentares.

O Congresso registrou uma renovação recorde nestas eleições, mas a chamada “bancada dos parentes”, que reúne deputados e senadores que usam as relações familiares para se elegerem, não deu sinais de perda de força. Algumas dinastias políticas saíram perdedoras, mas outras foram reforçadas ou tiveram revezamento entre gerações. Nas bancadas de vários estados, os rostos até podem ser novos, mas os sobrenomes são os mesmos.

Segundo um levantamento preliminar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), já foram identificados 138 deputados e senadores que pertencem a clãs políticos entre os 567 novos parlamentares – um aumento de 22% em relação a 2014. O número de membros da “bancada dos parentes”, no entanto, é seguramente muito mais alto, já que a pesquisa ainda está em andamento e considerou apenas relações de primeiro grau.

Neste ano, houve até mesmo casos de dinastias que fizeram campanha com um discurso antissistema, aproveitando a onda contra a política tradicional. Foi o caso de Eduardo e Flávio Bolsonaro (ambos no PSL), eleitos para a Câmara e o Senado, respectivamente. Eles são filhos do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), ele próprio um veterano de mais de duas décadas na Câmara. Puxado pela popularidade do pai, Eduardo acabou obtendo a maior votação da história para deputado federal no país: mais de 1,8 milhão de votos.

Em Pernambuco, o deputado mais votado foi João Campos (PSB), filho do ex-governador Eduardo Campos, morto em 2014. A prima do político, Marília Arraes (PT), que, por sua vez, é sobrinha de uma ex-deputada federal e neta do também ex-governador Miguel Arraes, foi a segunda mais votada.

Na Bahia, o segundo mais votado para a Câmara é filho do senador Otto Alencar (PSD). No Piauí, Iracema Portella (PP), filha de um ex-governador e de uma ex-deputada federal conseguiu mais um mandato na Câmara, enquanto seu marido, Ciro Nogueira (PP), foi reeleito para o Senado.

No Rio Grande do Norte, metade das vagas para deputado federal foram ocupadas por parentes – um eleito é filho do atual governador. No Ceará, um dos deputados federais mais votados é filho do atual presidente da Assembleia Legislativa. No Pará, o clã dos Barbalho garantiu tanto a reeleição do seu chefe, o senador Jader Barbalho (MDB), quanto de dois outros membros para a Câmara – a ex-mulher do senador e um primo.

Já Kátia Abreu (PDT-TO) vai ganhar no Senado a companhia do filho, Irajá Abreu (PSD), atualmente deputado federal por Tocantins e que conquistou uma das duas vagas em disputa no estado.

Na Paraíba, o deputado federal Veneziano Vital do Rego (MDB) conseguiu uma vaga no Senado, onde seu irmão já cumpriu mandato e sua mãe ocupa atualmente uma suplência. A outra vaga do estado vai ser ocupada por Daniella Ribeiro (PP), irmã do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que foi reeleito. A bancada paraibana na Câmara é um retrato escancarado da persistência da força dos clãs políticos. Das 12 vagas, dez vão ser ocupadas por deputados com laços com outras pessoas que já cumpriram algum mandato eletivo.

No Rio de Janeiro, o ex-governador Anthony Garotinho viu os dois filhos conquistarem mandatos na Câmara: Clarissa Garotinho (PROS) e Wladimir Garotinho (PRP). Em São Paulo, além de Eduardo Bolsonaro, os destaques da bancada dos parentes são: Baleia Rossi (MDB), filho de um ex-ministro; Renata Abreu (Podemos), filha de um ex-deputado federal; e Bruna Furlan (PSDB), filha do atual prefeito de Barueri.

Por Minas Gerais, foi eleito para a Câmara Lafayette Andrada (PRB), filho do deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG). São descendentes do patriarca da independência José Bonifácio de Andrada. A família ocupa cargos na Câmara desde à época do Império e nos últimos 196 anos elegeu 15 deputados e senadores.

No Paraná e em Santa Catarina, houve até mesmo casos de revezamento de posições entre membros da mesma família. O atual deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR) foi eleito deputado estadual, enquanto seu filho, Felipe (PSL), que cumpre mandato na Assembleia Legislativa do Paraná, vai substituir o pai na Câmara. Pelo mesmo estado ainda foram eleitos para a Câmara Gustavo Fruet (PDT), Zeca Dirceu (PT) e Pedro Lupion (DEM), todos filhos de ex-deputados. Já em Santa Catarina, o deputado Espiridião Amin (PP) foi eleito para o Senado, enquanto sua mulher, Ângela Amin (PP), vai ficar com sua vaga na Câmara.

Há ainda casos de políticos com problemas na Justiça que promoveram bem-sucedidas candidaturas de parentes. O ex-governador José Roberto Arruda, cassado e preso em 2010, elegeu sua mulher, Flávia Arruda (PR), como a deputada mais votada do Distrito Federal. Em Rondônia, o senador licenciado Ivo Cassol (PP), inelegível após uma condenação por fraude, emplacou a irmã, Jaqueline Cassol (PP), como deputada. Ambos são filhos de um ex-deputado federal.

Neste ano, a Câmara elegeu seis deputados com menos 25 anos. Poderia ser um sinal de renovação, mas também é em parte um sinal da influência das dinastias. Três deles têm laços com caciques políticos. Uma é Luísa Canziani (PTB-PR), mais jovem eleita para a Câmara em 2018. Com 22 anos, é filha do deputado federal Alex Canziani (PTB-PR). Outro é Emanuelzino (PDT-MT), filho do prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB).

A nova bancada feminina da Câmara, que saltou nesta eleição de 51 para 77 deputadas, também reflete a continuidade das dinastias. São filhas, irmãs, netas e esposas de políticos. Das 77 deputadas eleitas, ao menos 28 têm esse tipo de laço.

Além de Clarissa Garotinho e Jaqueline Cassol, esse também é o caso de Soraya Santos (PR-RJ), por exemplo, casada com o ex-deputado Alexandre Santos, antigo aliado de Eduardo Cunha. Outra delas é Dulce Miranda (MDB), mulher de Marcelo Miranda, ex-governador de Tocantins que foi recentemente condenado a 13 anos de prisão por fraude. Rejane Dias (PT), deputada mais votada do Piauí, é esposa do governador Welligton Dias (PT), que também foi reeleito.

Vitórias e derrotas

Em Alagoas, o deputado federal Arthur Lira (PP) foi reeleito, mas seu pai, o senador Benedito de Lira (PP) não conseguiu mais um mandato. O mesmo ocorreu na Paraíba, onde o senador Cássio Cunha Lima (PSDB) perdeu, mas pôde se contentar com a reeleição do filho, Pedro Cunha Lima (PSDB), para uma vaga na Câmara.

No Rio Grande do Norte, a influente oligarquia dos Alves viu a derrota do senador Garibaldi Filho (MDB), mas seu filho, Walter Alves (MDB) ainda conseguiu se manter na Câmara. Outro membro do clã, Henrique Eduardo Alves (MDB), que já foi presidente da Câmara, não se candidatou após ser preso em desdobramento da operação Lava Jato. No Espírito Santo, o senador Magno Malta (PR) não se reelegeu, mas sua mulher, Lauriete Malta (PR), conseguiu vaga na Câmara.

Na disputa pelo Congresso, alguns clãs políticos praticamente só acumularam derrotas. No Rio de Janeiro, não foram eleitos Danielle Cunha (MDB-RJ), Marcelo Crivella Filho (PRB-RJ, Marco Antônio Cabral (MDB-RJ) e Leonardo Picciani (MDB-RJ) – todos eles filhos de políticos que são ou foram influentes no estado. Em Alagoas, o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTC) não conseguiu eleger um filho para a Câmara.

Na Bahia, o clã dos Vieira Lima vai ficar pela primeira vez fora do Congresso em mais de quatro décadas. Único remanescente da família na Câmara, Lúcio Vieira Lima (MDB-BA) não conseguiu se reeleger. Junto com o irmão, Geddel, é réu no âmbito do caso da apreensão de malas com 51 milhões de reais em um aparamento em Salvador.

No Paraná, o clã do senador Roberto Requião (MDB) também vai deixar o Congresso. Roberto perdeu a reeleição, enquanto seu sobrinho, o deputado João Arruda (MDB), foi derrotado na disputa pelo governo. Em Rondônia, Valdir Raupp (MDB) e sua mulher, Marinha (MDB), perderam disputas para o Senado e Câmara.

Também houve um curioso – e intrincado – sobe e desce envolvendo diferentes famílias com o sobrenome Maia no Congresso. Uma delas é chefiada pelo senador José Agripino Maia (DEM-RN). Desgastado pela Lava Jato, não foi eleito deputado federal. Seu filho, Felipe, atualmente deputado, não se candidatou. Mas outros Maias vão continuar a representar o estado. A deputada Zenaide Maia (PHS) conseguiu uma vaga no Senado, enquanto seu irmão, João Maia (PR), vai assumir vaga na Câmara.

Apesar do sobrenome Maia, Zenaide e João não têm parentesco próximo com José Agripino. Este último, no entanto, vai continuar a contar com familiares mais próximos na Câmara. Um é Gervásio Maia (PSB), eleito pela Paraíba. Outro é seu primo, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que por sua vez é filho do ex-prefeito César Maia (DEM). Rodrigo também é genro do ministro Moreira Franco.

Nos próximos quatro anos, o Congresso deve, portanto, continuar sendo uma casa de família.

* Com informações Deutsche Welle.

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