Eleições 2018: Analistas alemães veem democracia no Brasil em risco

Partidário de Bolsonaro em manifestação em Minas Gerais.

Partidário de Bolsonaro em manifestação em Minas Gerais.

A poucos dias da eleição presidencial, observadores alemães veem um cenário de incerteza e risco à democracia no Brasil, em meio a uma campanha que caminha para um segundo turno de extrema polarização, entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

Segundo a última pesquisa Datafolha, de sexta-feira passada (28/09/2018), Bolsonaro lidera a corrida com 28% das intenções de voto, seguido por Haddad, que tem 22%. O ex-capitão foi motivo de protestos (pró e contra) no fim de semana em dezenas de cidades do país e, mesmo ausente, foi o principal alvo, ao lado do petista, dos ataques no penúltimo debate na TV.

Ameaça à democracia?

Para a historiadora Nina Schneider, da Universidade de Colônia, o grande número de indecisos deixa o cenário eleitoral incerto. A pesquisadora vê esta semana final e a batalha nas redes sociais como fundamentais para o resultado do primeiro turno.

“O que fica claro é a popularidade de Bolsonaro, que é chocante e até perigosa”, comenta. Em relação às comparações do candidato do PSL com Donald Trump, Schneider as avalia como ingênuas. “Bolsonaro é muito mais radical que o presidente americano. Ele faz comentários racistas, homofóbicos e sexistas. Mas o pior é elogiar em público os torturadores, isso o torna muito mais perigoso do que o Trump”, acrescenta.

Schneider evita ainda traçar comparações históricas com o momento atual e destaca que, embora o Brasil já tenha vivido momentos de alta polarização e propaganda sistemática da direita antes de 1964, os antagonistas nesta época estavam mais claros. “Atualmente a situação parece mais caótica e imprevisível, além disso, é mais complexa, pois Bolsonaro seria eleito pelo voto popular”, afirma.

Em sua avaliação, uma eventual eleição do candidato do PSL impulsionaria a discriminação de gênero e racial,  aumentaria a violência e desigualdade, desencadearia repressão política e provocaria tentativas de intimidar a independência das universidades e movimentos sociais.

Chance a surpresas?

A cientista política Claudia Zilla, da Fundação Ciência e Política (SWP), também argumenta que o grande número de eleitores indecisos e que pretendem votar em branco ou nulo geram um fator de insegurança em relação a um possível resultado do primeiro turno. A pesquisadora destaca que o cenário eleitoral está incerto e aberto a surpresas, porém, descarta que um candidato consiga já ser eleito no primeiro turno.

“Felizmente as eleições no Brasil são processos com resultados em aberto, e previsões podem não se concretizar na ida às urnas. Isso tem relação com a democracia e o sistema pluripartidário fragmentado”, ressalta.

Zilla, no entanto, faz um alerta sobre aspectos que, a seu ver, pressionam a democracia brasileira, como a grande polarização, os altos índices de criminalidade e o aumento da violência política.

“Os candidatos alcançam não somente diferentes níveis de adesão, mas também grande rejeição da população. O escândalo da Lava Jato, que atingiu todos os partidos políticos, levou ao cansaço político e prejudicou a legitimidade democrática”, destaca.

A pesquisadora aponta ainda como preocupante o grande apoio que Bolsonaro, “um candidato que despreza a democracia”, possui.

Cenários no segundo turno?

Já o cientista político Daniel Flemes, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), aponta como certa a ida de Bolsonaro para o segundo turno – o que ainda estaria em aberto seria a corrida para o segundo lugar. O pesquisador descarta também uma suposta decisão já no primeiro turno.

Para o segundo turno, Flemes afirma que o cenário é bastante imprevisível. “Poderia acontecer com Bolsonaro o mesmo que ocorreu com Marine Le Pen na França. O projeto político radical da Frente Nacional levou os moderados a se unirem num candidato comum. Especialmente a alta taxa de rejeição de Bolsonaro entre as brasileiras pode se tornar a sua desgraça”, destaca.

O cientista político, porém, não exclui a eleição de Bolsonaro, como ocorreu com Trump nos Estados Unidos. “É possível que muitos eleitores potenciais de Bolsonaro não admitam isso nas pesquisas de intenção de voto devido à imagem radical do candidato”.

Questionado sobre riscos para democracia, Flemes afirma que, mesmo após mais de 30 anos do fim da ditadura, a atual forma de governo não aparenta ser mais estável do que um castelo de cartas e ressalta que o país precisa de mudanças profundas na elite e na cultura democrática.

“O autoenriquecimento cleptocrático deve ser substituído pelo compromisso com o bem-comum. Mas, em vez disso, Bolsonaro conseguiu que posições de extrema direita e autoritarismo sejam novamente aceitáveis”, avalia.

Polarização extrema?

O sociólogo e cientista político Kai Wegrich, da Hertie School of Governance, avalia que, caso o cenário de segundo turno indicado nas pesquisas se concretize, entre Bolsonaro e Haddad, pode ocorrer uma polarização extrema e o agravamento dos conflitos políticos internos que tem escalado nos últimos anos.

O pesquisador vê ainda que a eleição do ex-militar seria uma ameaça à democracia. “Apesar do sucesso de consolidação considerável das décadas de 1990 e 2000, a democracia ainda não está suficientemente enraizada para sobreviver sem danos a um ataque de populistas da extrema direita”, pondera Wegrich.

Segundo o sociólogo, se eleito, Bolsonaro usará as ferramentas clássicas dos populistas de direta para restringir os direitos democráticos e conquistas sociais, atacará politicamente parte da população e tentará manipular militares e a polícia para seus objetivos. “Uma mistura muito perigosa”, conclui.

*Com informações da Deutsche Welle.

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