A voz das urnas | Por Luiz Holanda

Ministra Rosa Weber divulga resultado do primeiro turno da eleições de 2018.

Ministra Rosa Weber divulga resultado do primeiro turno da eleições de 2018.

As lições das urnas nesse primeiro turno demonstraram que o eleitor quer mudanças. De nada adiantou a blindagem que os políticos fizeram de si próprios nem a dinheirama transferida para os partidos via fundo partidário. A renovação foi um golpe na velha guarda, que precisa manter os privilégios do cargo e a impunidade que a função oferece.

Só no Senado o índice de renovação chegou a 85%, enquanto na Câmara foi de 47,3%. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, somente oito serão ocupadas por reeleitos. O restante, ou seja, 46 cadeiras, serão ocupadas por gente nova, cuja plataforma de campanha foi o combate à corrupção, ao desemprego e á insegurança.

Na Câmara dos Deputados, dos 243 que tomarão posse pela primeira vez, a maioria foi eleita na onda bolsonarista que empolgou o país. Desse total, 52 são do PSL -partido do candidato-, que antes das eleições tinha apenas oito.

A renovação não permite, ainda, uma análise mais profunda da vontade do eleitor, haja vista as surpresas que ainda podem vir e ás criadas com o defenestramento politico dos velhos caciques que até agora mandaram no país. Antes, os filhos herdavam os mandatos. Agora, quem deu o mandato foi o povo. No Maranhão, por exemplo, o ex-presidente Sarney não conseguiu eleger seus herdeiros. Tanto a filha, Roseana Sarney, como o seu irmão, Sarney Filho, perderam as eleições.

Outro velho cacique aposentado pelas urnas foi o senador Edison Lobão, que mandava e desmandava no estado desde 1970. Acusado de corrupção por tudo quanto é lado, nem no Senado aparece mais. O exemplo foi seguido por Roraima, com o defenestramento de Romero Jucá, líder de todos os governos no passado, tanto da esquerda como da direita. Para ele, tanto fazia servir a Deus como ao Diabo, desde que não perda o poder.

O PSDB mingou. Foi o partido que mais perdeu nestas eleições. Já o MDB, apesar do desprestígio de Temer, ficou com 34 dos 66 deputados que tinha antes (2014). A Rede de dona Marina derreteu-se com ela: tem um deputado e cinco senadores.

Já para governador, o pleito foi diferente. O PT e o PSB foram os que mais elegeram nesse primeiro turno. Cada um com três governadores, enquanto o DEM ficou com dois. O perfil do Congresso se manteve conservador, com alguns integrantes totalmente despreparados para o exercício da função.

Um ponto, entretanto, ficou sinalizado: o brasileiro reprovou a prática legislativa atual, principalmente no que se refere á corrupção. A Lava Jato contribuiu muito para a mudança, mas o eleitor também exigiu mais segurança, saúde, emprego e educação.

O segundo turno pode trazer algumas surpresas, principalmente para governador, mas, no resto, a derrota de muitos acusados de corrupção será a tônica.

Um dos poucos a garantir a impunidade com a reeleição foi Renan Calheiros, cacique das Alagoas. Para os que não se recordam, esse alagoano, após seis meses de denúncias contra a sua pessoa, foi obrigado a renunciar à presidência do Senado como estratégia para evitar a cassação do seu mandato pelo plenário da Casa.

A acusação se referia ao pagamento das suas despesas pessoais por um lobista de uma construtora. Embora ele tenha sido absolvido pelo corporativismo existente no Senado, só conseguiu se manter graças ter conquistado, novamente, a presidência da Casa, coisa que jamais alcançará. Apesar do seu filho ter sido reeleito governador no primeiro turno, sua votação bateu na trave. Volta sem prestígio, mas garantiu as prerrogativas do cargo. Está protegido.

A voz das urnas foram tão poderosas que até o PT mudou de cor. Em vez do vermelho, sua cor desde a fundação, mudou para o verde-amarelo de Bolsonaro, com direito a patente e tudo.

Abandonaram o Lula e o Zé Dirceu, que não podem aparacer na campanha para não tirar voto do candidato. Vivem xingando Bolsonaro de tudo qianto é palavrão. Até ameaça de invasão de sua casa pelo MST incentivaram, sob a justificativa de que a residência do candidato não é produtiva.

Atacaram demais, mas não conseguiram reverter a preferência popular. O fenômeno Bolsonaro não tem explicação. Quem quiser entendê-lo vai pirar, pois nada justifica uma votação dessa sem alçguma razão que não seja o desejo de mudança, que, por sinal, está sendo apenas pela metade, pois a outra metade vai caber ao candidato eleito.

Haddad foi a Aparecida, comungou, fez discurso dentro da igreja e recebeu o apoio de um padre estrangeiro. Poderia ter ficado nisso, mas, entusiasmado, resolveu atacar Edir Macedo, o dono da Universal. O resultado todo mundo viu: caiu nas pesquisas e ainda praticou um pecado mortal. E pior: pode perder as eleições pior do que se esperava.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]