A oração do terceiro turno | Por Luiz Holanda

Artigo analisa fatos da campanha eleitoral de 2018 e disputa pela presidência da República.

Artigo analisa fatos da campanha eleitoral de 2018 e disputa pela presidência da República.

O Brasil inteiro ficou indignado com a divulgação, em 2010, de um vídeo no qual o então deputado distrital pelo PSC de Brasília, Júnior Brunelli, agradecia a Deus pela propina recebida do delator e ex-secretário de Relações Institucionais do governo brasiliense, Durval Barbosa. O vídeo foi gravado pelos investigadores da Operação Caixa de Pandora, e ficou conhecido como a oração da propina.

O escândalo foi tão grande que o deputado renunciou ao mandato para não ser cassado por quebra de decoro parlamentar. O deputado também foi acusado de desviar R$ 1,7 milhões previstos em emendas parlamentares para os idosos da Associação de Assistência Social Monte das Oliveiras. Decretado a sua prisão, ficou apenas dez dias.

No vídeo, Brunelli aparece agradecendo a Deus pelo recebimento dos valores, dizendo que sabia que “somos falhos, que somos imperfeitos, mas queremos agradecer aos santos que nos purificam. Olha, nós somos gratos pelo amigo Durval, que tem sido um instrumento de benção para as nossas vidas e para esta cidade”. Essa oração foi feita em companhia do então presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, e divulgada pelos poetas de cordéis. Nos versos se pedia a proteção de Nossa Senhora da Pedra Fina, pois, “diante de tanta meia recheada com o níquel da fedentina, a ratazana reza em coro a oração da propina”.

Oito anos depois, o ex-deputado, que é pastor da Casa da Benção, deu sinais de querer voltar à política pelo Podemos, partido que apoiou a candidatura da ex-deputada distrital, Eliana Pedrosa, ao Palácio Buriti, mas foi vetado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Brasília- TRE/DF.

Agora, em plena campanha eleitoral, a oração é outra. No último dia 12, durante os festejos em homenagem a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad, compareceu a uma missa na diocese de Campo Limpo, em São Paulo, para fazer sua oração política.

Durante muito tempo o candidato aceitou ser ventrículo de Lula e ser chamado de poste, sem jamais contestar, além de vestir uma camisa com o retrato do prisioneiro com os dizeres: “Haddad é Lula”. Posteriormente, ao perceber que o antigo chefe atrapalhava sua candidatura, não só o abandonou como retirou o seu nome da propaganda, além da cor vermelha do partido, substituindo-a pelas cores do seu adversário, ou seja, o verde-amarelo.

Em seu discurso durante a missa o candidato discutiu com uma mulher que o criticou pelo uso político da religião e pelo apoio do padre celebrante, que, além de usar a igreja como palanque eleitoreiro, pediu aos fiéis votos para o candidato dizendo que “agora cada um de nós tem que ser um cabo eleitoral”.

O candidato estava acompanhado de sua vice, Manuela D’Avila, atéia confessa e membro do Partido Comunista do Brasil, ambos protagonistas da ideologia do gênero. A comunista -que jamais acreditou em Deus-, não titubeou em pegar a hóstia com as mãos e engoli-la, em frente às câmaras de televisão. Esse gesto causou revolta entre os católicos e foi criticado pelas demais religiões.

Os fiéis que assistiam á missa criticaram o uso político da religião pelo candidato e por sua vice com fins puramente eleitoreiros, além de criticarem o padre por fazer proselitismo eleitoral dentro de um templo sagrado, considerado um “bem de uso comum”. Não se pode usar o templo de uma igreja para se fazer politica partidária, nem tampouco usá-lo como palanque eleitoral. Tanto o candidato como o padre praticaram um ilícito eleitoral, sendo que o deste último, por tê-lo feito durante a celebração de uma missa, é tipificado como crime de abuso do poder religioso.

Não se conformando com essa ladainha, o candidato partiu para outra, já denominada pelo povo como a oração do terceiro turno. É que o candidato, agora, quer a anulação da votação no primeiro turno sob o argumento de conluio entre algumas empresas e a coligação que apóia o seu adversário para propagar notícias falsas a seu respeito.

Sem sinais de reação e atribuindo a força do adversário a uma “campanha suja” promovida através de WhatsApp, o petista, desesperado, decidiu partir para uma ofensiva judicial tentando anular a votação do seu aniversário no primeiro turno. Essa ladainha já foi usada pelo próprio na eleição para a prefeitura de São Paulo, quando tentou impugnar a candidatura de João Dória sob o mesmo argumento. Como a Justiça Eleitoral, na época, não atendeu ao seu apelo nem o santo ouviu as suas preces, o candidato perdeu logo no primeiro turno.

A poucos dias do segundo turno, Fernando Haddad tenta esconder tudo o que até agora defendeu para posar de vítima tentando criar o terceiro turno, contando, para tanto, com o apoio da Justiça Eleitoral. Como esse não virá, a aposta agora é na suposta fala do filho do adversário sobre o fechamento do Supremo Tribunal Federal-STF.

A propósito, sobre esse assunto, quem primeiro pediu o fechamento do Supremo foi o deputado petista Wadih Damous, em discurso feito na Câmara dos Deputados e sem que nenhum dos seus ministros tenha vindo a público dizer que tal afirmação era um golpe contra a instituição. Tampouco o sociólogo de plantão, Fernando Enrique Cardoso, que agora pousa de democrata, o fez.. As eleições se encerram no domingo. E como o povo já decidiu, não haverá terceiro turno.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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