A Mirian Cordeiro de Jair Bolsonaro | Por Luiz Holanda

Reportagem de capa da Revista Veja aborda, criticamente, aspectos da vida de Jair Messias Bolsonaro. Candidato à presidência da República de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL/RJ) é um político identificado por setores da mídia com as ideias do nazismo, fascismo, antissemitismo, misoginia, segregacionismo contra negros e grupos minoritários, que professa discurso do ódio, vinculado a prática da violência física como forma de obter a redução do conflito social.

Reportagem de capa da Revista Veja aborda, criticamente, aspectos da vida de Jair Messias Bolsonaro.

No mundo em que vivemos, as pessoas recebem informações através da mídia, seja qual for o meio utilizado, mesmo não estando fisicamente presentes no tempo ou lugar de sua ocorrência. Se o fato ocorrer em época de eleição, sua divulgação tanto pode servir para conquistar o eleitor como para destruir o adversário. Tudo vai depender da situação do candidato na preferência popular.

Construindo espaços para ser reconhecido pelo eleitor, o divulgador da noticia visa desconstruir quem pode ameaçá-lo no segundo turno das eleições. Esse fato já ocorreu entre nós em 1989, quando Lula disputou com Collor a presidência da República. Agora a vez é de Bolsonaro, com a divulgação das acusações feitas por sua ex-esposa no processo de divórcio ocorrido entre ambos alguns anos atrás.

A reportagem publicada pela revista Veja na edição de domingo último, bem como a tomada de posição da TV Globo e do jornal Folha de São Paulo contra o candidado do PSOL, relembra o período em que os eleitores demonstravam profunda decepção com o governo do então presidente José Sarney, um dos mais corruptos de nossa história

Dois candidatos disputavam, à época, a ida para o segundo turno. Um era o ex-governador das Alagoas, Fernando Collor de Mello, que se apresentava como um jovem atlético, urbano e capaz de trazer modernidade ao país. O outro era o ex-sindicalista Lula da Silva, que se apresentava como um retirante do nordeste, trabalhador, de esquerda, defensor da ética, do regime socialista e aquele que iria acabar com a corrupção quando chegasse ao poder. Na época, o fator determinante que se observava no eleitorado era o desejo de realizar uma mudança significativa no cenário político. Collor, que vestia a camisa 18 da mudança, era um dos preferidos dos eleitores, enquanto Lula se apresentava como o único capaz de resolver os problemas do Brasil

Em todas as eleições as comunicações da campanha eleitoral, no primeiro turno, visam construir uma boa imagem do candidato, adequando sua personalidade às necessidades do eleitor. Já no segundo turno, a preocupação é administrar a rejeição que cada um possui. Outro fator decisivo é atacar o adversário em sua intimidade, diretamente, sempre procurando aumentar a sua rejeição. Esse tipo de campanha ressalta o aspecto negativo do inimigo, muito conhecido pelos americanos como Negative Campaigne, largamente utilizado na disputa entre Trump e Hillary Clinton.

Conhecendo como poucos a tática de se desconstruir o adversário, Fernando Collor colocou no ar, dentro do seu programa eleitoral na televisão, o depoimento da ex-namorada de Lula, a enfermeira Mirian Cordeiro, com quem ele teve uma filha, na época com quinze anos de idade. No programa Lula aparecia como um pai que abandonara a filha, não sem antes ter pedido à mãe que fizesse um aborto para não prejudicar sua carreira política.

O resultado todo mundo sabe: Collor baixou o nível e Lula perdeu as eleições. Agora, assumindo o papel que pertencia a Collor, a revista Veja, a TV Globo e os jornais Globo e Folha de São Paulo divulgaram as agressões que teriam sido feitas ao candidato por sua ex-esposa.

A história mal contada sobre esse ‘affair’ teve início com uma reportagem da Folha de São Paulo. Apesar dos desmentidos da ex-esposa do candidato, que, por sinal, postula um mandato de deputada federal usando o mesmo nome do ex-marido, a publicação continuou sem do repetida à exaustão.

Esse fato trouxe de volta episódios típicos de um jornalismo perverso e sensacionalista, tentando conduzir o ente político para o terreno baldio dos escândalos e das fofocas sobre seus familiares, abrindo espaços para discussões de baixo nível, em vez de se discutir os graves problemas porque passa a nação.

Essa decida ao submundo das querelas sensacionalistas tem características simbólicas à de uma segunda facada em Bolsonaro, alimentada mais pelo ódio do que, propriamente, por interesses políticos. O problema é que isso tem um preço: se o povo entender que o atingido está sendo vitimado, o efeito é o seu crescimento.

E a maior prova disso pode ser vista no apoio que o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, pretende dar a Bolsonaro. Se a noticia for confirmada, o candidato deverá subir ainda mais nas pesquisas, pois os fiés seguidores do Bispo certamente o acompanharão no voto. Em quem ele mandar seus seguidores votam. Dizem que Macedo reuniu a cúpula da Universal para tratar da sucessão presidencial, e que, na reunião, teria sugerido que o PRB desembarcasse da candidatura de Geraldo Alckmin para apoiar Bolsonaro. Ele próprio teria formalizado esse apoio através do facebook.

A publicação do depoimento da ex-esposa de Bolsonaro a respeito de um assunto que ela negou e nega, pode incentivar a divulgação do vídeo em que Mirian Cordeiro, ex-mulher de Lula, afirma que ele é racista e que nunca suportou negros. Essa baixaria não pode nem deve continuar. Se querem transformar a ex-mulher do candidato numa nova Mirian Cordeiro, que o façam com competência, pois, do contrário, o tiro pode sair pela culatra.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]