Somos o que fotografamos | Por Victor Moriyama

Paisagem do nevado Huascarán sobre um retrato de uma campesina local, em Huaraz, Peru.

Paisagem do nevado Huascarán sobre um retrato de uma campesina local, em Huaraz, Peru.

Nos jornais, revistas e agências de notícias, as imagens produzidas estão fundamentadas no compromisso com a veracidade dos fatos. A verossimilhança da informação na cultura da mídia impressa é crucial para sua credibilidade. A linguagem fotográfica neste contexto segue, portanto, padrões já estabelecidos desde o nascimento da imprensa e que permanecem inalteráveis. Editores sustentam hierarquicamente que a informação é o principal e a estética deve vir em segundo plano. Encontramos nesta lógica certos limites à criatividade que são próprios dos modelos industriais de produção no qual devemos produzir para atender uma demanda repleta de expectativas.

Se desprender dos padrões que constituem essa relação, sejam eles de qualquer ordem, é uma árdua e desgastante tarefa emocional, mas que pode trazer inúmeros benefícios no campo das realizações pessoais. Cada indivíduo encontra ao longo da vida seu próprio caminho de emancipação. Muitos ficam pela metade. Mas é neste exato ponto de rompimento com as barreiras com os sistemas pré-definidos que as asas da autoralidade ganham o voo mais importante da criação artística porque projetam o desprendimento. “Pela minha idade ou maturidade já não tenho o que perder”, diz o fotógrafo gaúcho Izan Petterle, 61 anos.

Somos o que fotografamos. Ou, como disse um dos grandes mestres da imagem o inglês Ansel Adams, “algumas pessoas vivem da fotografia, para outras a fotografia lhes dá a vida”. Ser fotógrafo(a) documental é atender a uma espécie de chamado individual para viver intensamente situações que muitas pessoas jamais viverão. Se por um lado esta ideia é romântica e estereotipada por outro ela evoca o compromisso que orienta jornadas pessoais de muitos fotógrafos (as) há décadas. Izan sabe o que lhe move antes mesmo de completar 18 anos, quando atravessou boa parte da América do Sul, numa formidável viagem que teve origem em Porto Alegre com destino a mística Machu Picchu. O ano era 1975, uma bolsa a tira colo com a lendária Pentax Photomatic, uma lente 50mm e dois rolos de filme, um tri x e outro ectachrome, e o fotógrafo gaúcho descobriu numa epifania andina a motivação que guiaria sua vida a partir dali, a fotografia humanista. “A fotografia fala sobre a vida das pessoas, quem elas são, como vivem. Não se trata de retratar apenas o que vejo, mas sim oferecer a possibilidade de múltiplas leituras de uma imagem” diz.

Residente da Chapada dos Guimarães há décadas, passou grande parte de sua vida na fronteira do Brasil com outros países da América do Sul. “Nestes povos que vivem sob o impacto das cordilheiras, as crenças advindas da Pachamama evocam a mãe terra feminina numa realidade onde tempo não é cronológico” reflete o fotógrafo. As imagens produzidas por ele nos meses de julho e agosto de 2018 e que acompanham este artigo propõem uma atmosfera fascinante que flerta com o realismo mágico que permeiam os povos tradicionais andinos. Sua obra é um convite irrecusável a leitura dos diferentes tempos que coexistem numa mesma realidade. “É um trabalho que chamo de pós documental onírico metafísico” pontua o fotógrafo que sonhou com uma Xamã andina que previa seu futuro fotográfico aos pés das cordilheiras.Izan faz parte do restrito time de fotógrafos que abandonaram os equipamentos tradicionais em prol do uso exclusivo dos celulares, embora não defenda esta troca, afinal cada um sabe de suas próprias necessidades. Munido de dois iPhones, um funciona como back up e iluminação, aposta na discrição e familiaridade que os aparelhos tem nas comunidades tradicionais. Hoje em dia, a telefonia móvel é acessível a boa parcela da população latina que se familiarizou com a presença do portátil aparelho. “As populações andinas têm verdadeira aversão à fotografia, não querem ser fotografadas. Mas quando estou com celular as pessoas não se importam. Isso muda radicalmente a condição do trabalho”, conta, entusiasmado. Os últimos lançamentos dos telefones possuem memória interna generosa e possibilitam maior autonomia de trabalho. Além do aperfeiçoamento ótico de suas câmeras internas, aplicativos de edição e tratamento de imagem bem como o processamento das fotos na qualidade RAW (arquivo bruto de máxima resolução) são ferramentas que dão segurança para a comunidade fotográfica. Para o fotógrafo, não há mais necessidade de carregar computadores, lentes, câmeras, hard drives e outros apetrechos fotográficos. “Alcanço aquela condição preconizada que o Cartier Bresson propunha da invisibilidade do fotógrafo. Isso me permite fazer fotos completamente inusitadas” resume Petterle.

Os aparelhos telefônicos revolucionaram a forma de fotografar porque permitem trabalhos em tempo real, mas suas câmeras ainda precisam de aperfeiçoamento técnico em situações com baixa luminosidade. É uma questão de pouco tempo. “Para mim não faz mais sentido investir 50.000 reais em equipamento. As revistas não pagam mais porque as redes sociais impuseram a condição de gerar conteúdo de graça, não há como escapar dessa dinâmica” avalia. Se o ofício fotográfico parece estar em declínio econômico, nos resta encontrar novas formas de emancipação autoral capazes de contribuir com a reflexão e compreensão da fragilidade da existência do ser humano frente a um planeta desequilibrado. “Não quero salvar nenhuma espécie, salvar o mundo, e nem a mim mesmo. Quero ter liberdade poética para falar da fragilidade da existência e o mundo que circula este universo frágil”, conclui Izan Petterle.Os aparelhos telefônicos revolucionaram a forma de fotografar porque permitem trabalhos em tempo real, mas suas câmeras ainda precisam de aperfeiçoamento técnico em situações com baixa luminosidade. É uma questão de pouco tempo. “Para mim não faz mais sentido investir 50.000 reais em equipamento. As revistas não pagam mais porque as redes sociais impuseram a condição de gerar conteúdo de graça, não há como escapar dessa dinâmica” avalia. Se o ofício fotográfico parece estar em declínio econômico, nos resta encontrar novas formas de emancipação autoral capazes de contribuir com a reflexão e compreensão da fragilidade da existência do ser humano frente a um planeta desequilibrado. “Não quero salvar nenhuma espécie, salvar o mundo, e nem a mim mesmo. Quero ter liberdade poética para falar da fragilidade da existência e o mundo que circula este universo frágil”, conclui Izan Petterle.

*Publicado no El País, em 31 de agosto de 2018.

*Victor Moriyama é um fotógrafo brasileiro.

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