Quem falou foi o Alto Comando | Por Luiz Holanda

Eduardo Dias da Costa Villas Bôas (Cruz Alta, 7 de novembro de 1951) é um general de exército do Exército Brasileiro. É o Comandante do Exército Brasileiro desde 5 de fevereiro de 2015.

Eduardo Dias da Costa Villas Bôas (Cruz Alta, 7 de novembro de 1951) é um general de exército do Exército Brasileiro. É o Comandante do Exército Brasileiro desde 5 de fevereiro de 2015.

Os políticos brasileiros, principalmente os candidatos a presidente da República, costumam se agredir mutuamente, geralmente utilizando expressões de baixo nível. Dessa vez resolveram atacar os militares que ousaram emitir opiniões sobre a delicada situação política que vivemos. O general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, foi um deles. Ao dizer que o ataque a Jair Bolsonaro poderia provocar, futuramente, questionamentos à legitimidade do novo governo, o PT e o candidato Ciro Gomes não se contiveram.

Os petistas consideraram a fala do general um “grave episódio de insubordinação de um comandante das Forças Armadas ao papel que lhe foi delimitado pela Constituição”. Já Ciro, acionando sua “metralhadora giratória”, disse que em seu governo “militar não fala em política”, e que o general “estaria demitido e provavelmente pegaria uma cana”. O pedetista ainda disparou contra o general Mourão, vice na chapa de Bolsonaro, chamando-o de “jumento de carga”, além de atacar o próprio candidato (que está hospitalizado), taxando-o como “uma aberração”.

Para o PT, a manifestação do general tem caráter político e visa “tutelar as instituições republicanas”, mais especificamente o Judiciário, “que ainda examina recursos processuais legítimos em relação ao ex-presidente Lula”. Na nota, o partido convoca “as forças democráticas do país” a condenar as declarações do general.

A manifestação do comandante do Exército foi no sentido de que a violência contra Bolsonaro demonstra que estamos construindo dificuldades para que o novo governo tenha estabilidade, e que a intolerância generalizada e a falta de capacidade de se colocar os interesses do país “acima das questões políticas, ideológicas e pessoais”, podem dificultar a governabilidade.

Villas Bôas negou que Bolsonaro seja o candidato das Forças Armadas e que o seu eventual governo venha a ser “militar”, destacando que as Forças Armadas são “apolíticas e apartidárias”, compromissadas com a estabilidade, qualquer que seja o governo eleito pelo povo. “A instabilidade é que mobiliza nossa atuação”, disse, citando como exemplo a greve dos caminhoneiros. Ao pedir que os candidatos pregassem a harmonia, Villas Bôas apelou para que as controvérsias jurídicas não tirem a tranquilidade do processo eleitoral. Aproveitando a ocasião, classificou como “invasão à soberania nacional” o parecer da Comissão de Direitos Humanos da ONU em favor da candidatura de Lula (PT), que teve seu registro negado pela Justiça Eleitoral “A Constituição e a Lei da Ficha Limpa valem para todos”, acrescentou.

Ciro Gomes, em eleições passadas, contribuiu para se projetar como um candidato sem o devido equilíbrio para o cargo que postula. Em 2002, ao chamar de “burro” um ouvinte durante um programa de rádio e dizer que a atriz Patrícia Pillar tinha como papel principal dormir com ele, perdeu as eleições. Mesmo sendo um colecionador de desafetos, foi perdoado pelos militares quando o convidaram para ter um encontro com o comandante do Exército para tratar da conjuntura futura do país. O encontro deu-se em junho, ocasião em que o general se impressionou com o candidato, partilhada por outros generais.

Agora a coisa mudou. Sabe-se que os militares não gostaram da agressão. Mesmo assim, apenas dois se manifestaram publicamente contra as diatribes do pedetista. Um foi o general Mourão, que surpreendeu na moderação ao dizer que não iria rebater as “baixarias” do candidato, e que suas “ofensas” não tinham importância para ele. O outro foi o general Paulo Chagas, candidato do PRP ao Governo do Distrito Federal, que divulgou uma nota pedindo para o “cãodidato” ter cautela, pois o silêncio do lobo e o coice do “jumento de carga”, seguramente são mais “perigoso que o latido de um cão, particularmente quando este é um sarnento vira-lata”.

Ciro devia compreender que os militares sempre participaram da vida política no Brasil, tanto na proclamação da República quanto antes e durante o governo militar de 1964. A conjuntura nacional do século XX em nosso país sempre foi permeada pela influência dos militares nas instituições públicas civis, inclusive no desenvolvimento das pesquisas e da ciência, bem como no campo humanitário e da segurança nacional. Não se deve esquecer que, como as demais forças sociais, os militares tomam parte e são influenciados pela dinâmica da luta de classes, se posicionando politicamente na garantia das liberdades e da Lei e da Ordem (GLO), e que quando o comandante do Exército fala, quem fala é o Alto Comando.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]