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O trabalho dignifica o ser humano, não o dinheiro, diz Papa Francisco

Somente a busca de lucro não garante mais a vida da empresa: é preciso uma formação de valores e de uma ética amiga da pessoa. Foi o que defendeu o Papa Francisco em entrevista. Ele também comenta de uma economia que “mata”, porque o homem não está mais no centro da própria dinâmica.

Somente a busca de lucro não garante mais a vida da empresa: é preciso uma formação de valores e de uma ética amiga da pessoa. Foi o que defendeu o Papa Francisco em entrevista. Ele também comenta de uma economia que “mata”, porque o homem não está mais no centro da própria dinâmica.

A gestão da economia e das finanças, a criação de novos trabalhos, o respeito pelo meio ambiente e a acolhida aos migrantes passam todos por uma ética “amiga da pessoa”, “forte estímulo” para uma conversão de que “temos necessidade”. É a reflexão do Papa Francisco na entrevista concedida ao jornal italiano “Il Sole 24 Ore”, nas bancas esta sexta-feira (07/07/2018).

Para o Pontífice, falta a consciência de uma origem comum, de uma pertença a uma raiz comum de humanidade e de um futuro a ser construído juntos. Esta consciência de base permitiria o desenvolvimento de novas convicções, novos comportamentos e estilos de vida. Uma ética amiga da pessoa tende a superar a rígida distinção entre realidades orientadas ao lucro e aquelas marcadas por outros mecanismos, deixando um amplo espaço para atividades que constituem e expandem o chamado setor terciário.

O ídolo que se chama dinheiro

A economia de hoje “mata”,  porque – reitera o Papa – “a pessoa não está mais no centro”, “ela  obedece somente ao dinheiro”, “ganhar dinheiro se torna o objetivo primário e único”. Francisco observa como são construídas as “estruturas de pobreza, escravidão e descarte”.

A centralidade atual da atividade financeira em relação à economia real não é casual: por trás disso, existe a escolha de alguém que pensa, equivocadamente, que o dinheiro é feito com dinheiro. O dinheiro, aquele verdadeiro, é feito com trabalho. É o trabalho que dá a dignidade ao homem, não o dinheiro. O desemprego que afeta vários países europeus é a consequência de um sistema econômico que não é mais capaz de gerar empregos, porque colocou um ídolo no centro, que se chama dinheiro.

O trabalho cria mais trabalho

Quando se pergunta como um empreendedor pode ser um “criador” de valor para a própria empresa e para os outros, a partir da comunidade em que ele vive e trabalha, o Papa recorda o quanto é importante a “atenção à pessoa concreta”, que significa “dar a cada um o seu”, “tirando mães e  pais de família da angústia de não poder dar um futuro e nem mesmo um presente aos próprio filhos”.

Significa saber dirigir, mas também saber ouvir, compartilhando com humildade e confiança  projetos e ideias. Significa fazer de forma que o trabalho crie outro trabalho, a responsabilidade cria outra responsabilidade, a esperança cria outra esperança, sobretudo para as jovens gerações, que hoje precisam dela mais do que nunca. “Creio que seja importante trabalhar juntos para construir o bem comum e um novo humanismo de trabalho, promover um trabalho que respeite a dignidade da pessoa, que não olha apenas ao lucro ou às exigências produtivas, mas promove uma vida digna sabendo que o bem das pessoas e o bem empresa andam de mãos dadas.”

Um desenvolvimento integral

A distribuição e a participação na riqueza produzida, a inserção da empresa num território, a responsabilidade social, o bem-estar das empresas, o tratamento salarial equitativo entre homens e mulheres, a conjugação entre os tempos de trabalho e o tempo de vida, o respeito do meio ambiente, o reconhecimento da importância do homem em relação à máquina e o reconhecimento do justo salário, a capacidade de inovação são elementos importantes que mantêm viva a dimensão comunitária de uma empresa. “Buscar um desenvolvimento integral pede a atenção aos temas que acabei de listar.”

O agir econômico é um fato ético

Uma economia saudável – observa portanto Francisco – “nunca está desconectada” do significado daquilo que se produz, e o agir econômico é “sempre” também um fato ético.

Manter unidas ações e responsabilidades, justiça e lucro, produção de riqueza e sua redistribuição, operacionalidade e respeito ao meio ambiente tornam-se elementos que ao longo do tempo garantem a vida da empresa.

Ainda muito trabalho para o desenvolvimento da dimensão ecológica

Nesta ótica, o significado da empresa “se amplia” e faz compreender que “somente a busca pelo lucro não garante mais a vida da empresa” e que “não é mais possível que os operadores econômicos não ouçam o clamor dos pobres”.

Eis o motivo pelo qual o Papa pensa, além de uma formação técnica na empresa, também em “uma formação aos valores”: solidariedade, ética, justiça, dignidade, sustentabilidade, para enriquecer “o pensamento e a capacidade operacional”.

Na perspectiva, depois, de um desenvolvimento da dimensão ecológica, centra-se na “convergência de várias ações: política, cultural, social, produtiva”, mesmo se “o trabalho a ser feito ainda seja muito”.

A partilha de uma viagem comum

O Papa volta então ao clamor dos pobres ao recordar que, quando eles se movem, “causam medo aos povos que vivem em bem-estar”. Francisco observa que “não existe futuro pacífico para a humanidade, senão na aceitação da diversidade, na solidariedade, no pensar na humanidade como uma só família”.

A atenção aos migrantes é “um grande desafio para todos” hoje: a viagem que realizam – destaca – no fundo “é feita a dois” e não devemos ter medo de compartilhá-la, com esperança.

“Aqueles que vêm à nossa terra, e nós que vamos ao coração deles para compreendê-los, entender a sua cultura, a sua língua, sem negligenciar o contexto atual. Isto seria um sinal claro de um mundo e de uma Igreja que procura ser aberta, inclusiva e acolhedora, uma Igreja mãe que abraça a todos na partilha da viagem comum.”

Dignidade do trabalho e sociedades justas e democráticas

Interpelado sobre os consensos obtidos na Itália por forças políticas definidas como populistas, que não compartilham a abertura das fronteiras nacionais aos migrantes, e sobre as direções a serem dadas à Europa, o Pontífice exorta a olhar para as pessoas que fogem da miséria e da fome, solicitando “muitos empresários” e outras tantas “instituições européias às quais não faltam genialidade e coragem”, para “empreender caminhos de investimento, em seus países, em formação, desde a escola até o desenvolvimento de verdadeiros sistemas culturais reais e sobretudo no trabalho”, apontando para o bem dos Estados “ainda hoje pobres”, “dando a essas pessoas a dignidade do trabalho e ao seu país a capacidade de criar laços sociais positivos, capazes de construir sociedades justas e democráticas”.

“As respostas aos pedidos de ajuda, mesmo que generosas, podem não ter sido suficientes e hoje choramos milhares de mortos. Houve muitos silêncios. O silêncio do senso comum, o silêncio do sim é feito sempre assim, o silêncio do nós sempre contraposto ao eles. O Senhor promete descanso e libertação a todos os oprimidos do mundo, mas Ele tem necessidade de nós para tornar eficaz a sua promessa. Tem necessidade de nossos olhos para ver as necessidades dos irmãos e irmãs. Tem necessidade de nossas mãos para socorrer. Tem necessidade da nossa voz para denunciar as injustiças cometidas no silêncio, às vezes cúmplice, de muitas. Sobretudo, o Senhor tem necessidade do nosso coração para manifestar o amor misericordioso de Deus pelos últimos, os rejeitados, os abandonados, os marginalizados.”

Integração e instalação digna

Por parte dos migrantes – acrescenta –, é necessário o respeito pela cultura e pelas leis do país que os acolhe, “para colocar assim em campo conjuntamente um percurso de integração e para superar todos os medos e inquietações”.

Confio estas responsabilidades à prudência dos governos, para que encontrem modalidades compartilhadas para dar acolhida digna a tantos irmãos e irmãs que pedem ajuda. Pode-se receber um certo número de pessoas, sem negligenciar a possibilidade de integrá-las e organizá-las de maneira digna. É necessário ter atenção aos tráficos ilícitos, cientes de que a acolhida não é fácil.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia).