Nazismo é identificado com elementos ideológicos da extrema-direita; “uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar a volta do nazismo”, diz Georg Witschel embaixador da Alemanha

Chefe da missão diplomática alemã no Brasil, Georg Witschel afirma que discussão desencadeada após publicação de vídeo pela embaixada pode ser explicada por ignorância ou desonestidade.

Georg Witschel: discussão sobre ‘nazismo de esquerda’ não tem base honesta. Membros de partidos de esquerda, como os social-democratas e os comunistas, estavam entre as primeiras vítimas do regime nazista.

O embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, disse que ficou surpreso com a repercussão do vídeo que explica como os alemães lidam com o passado. A peça, que foi publicada na conta da missão diplomática no Facebook há duas semanas, foi alvo de ataques de alguns militantes de direita que não gostaram do conteúdo.

Tudo porque o vídeo classifica o nazismo como uma ideologia de extrema direita. Para esses internautas – alguns manifestam apoio ao candidato Jair Bolsonaro (PSL) em seus perfis – o movimento liderado por Adolf Hitler era de esquerda. Outros foram até mais longe e publicaram comentários negando o Holocausto.

Segundo Witschel, que chefia a missão alemã em Brasília desde setembro de 2016, essa reação pode ser explicada por ignorância ou simplesmente desonestidade.

“Há muitas pessoas que não sabem muito sobre o nazismo. E nós queremos informar. Uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar uma volta do nazismo. Mas parece que há outros que têm um interesse político de reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos. Esses grupos políticos fazem tentativas desonestas de mover a responsabilidade do Holocausto para o colo de outros”, disse.

Witschel também aponta que essa discussão é inexistente em círculos sérios na Alemanha. “Nunca ouvi uma voz séria na Alemanha argumentando que o nacional-socialismo foi um movimento de esquerda”, disse. “Não faz sentido jogar a culpa e a responsabilidade do Holocausto em uma determinada tendência política. Foram os nazistas. Com certeza não foram os socialistas”, afirmou, lembrando ainda que membros de partidos de esquerda, como os social-democratas e os comunistas, estavam entre as primeiras vítimas do regime.

Ele também comentou que “foi uma surpresa que, mesmo no Brasil, haja pessoas que neguem o Holocausto e que falem do movimento nazista como se ele fosse de esquerda”.

“O Holocausto é simplesmente um fato. Quem não acredita deveria visitar algum campo de concentração. É um fato histórico e basta.” O embaixador também disse que ficou especialmente chocado com a expressão “holofraude” em um comentário negacionista feito por usuário no post do vídeo. “Esse termo foi terrível. E esse argumento sem base histórica de que o nazismo foi um movimento de esquerda não tem bases honestas, mas objetivos desonestos”, completou.

Entre algumas páginas e círculos de direita brasileiros têm sido comum, nos últimos anos, tentar classificar o nazismo como um “movimento de esquerda”. O principal argumento para defender essa tese leva em conta a presença do termo “socialista” no nome do partido. O nome oficial da agremiação nazista era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. O próprio filho de Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo, afirmou em 2016 no Twitter que o “nazismo é esquerda” e usou o argumento sobre a presença da palavra “socialista” no nome do partido.

Historiadores renomados de Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos consideram o nazismo um movimento de extrema direita, de caráter nacionalista, que defendia uma visão radical de darwinismo social, em que os alemães – ou os membros da raça ariana – deveriam subjugar raças consideradas inferiores. Suas origens imediatas são traçadas na ação de grupos paramilitares de direita formados por ex-militares após a derrota do país na Primeira Guerra Mundial, em sociedades secretas antissemitas e ideias perversas sobre racismo biológico e imperialismo em voga na Alemanha do pós-guerra.

Já a inclusão da palavra “socialista” no nome é encarada como uma estratégia política para atrair as classes trabalhadoras da Alemanha, que à época gravitavam em torno dos partidos social-democrata e comunista, e também para diferenciar os nazistas dos partidos de direita tradicionais. Na história alemã, não era incomum que políticos conservadores ou da direita adotassem alguns poucos elementos socialistas como estratégia de poder. “Hitler nunca foi socialista”, apontou o historiador britânico Ian Kershaw na sua monumental biografia do líder nazista.

O próprio Hitler afirmou em uma entrevista em 1923 que pretendia retirar da esquerda o termo socialismo e ressignificá-lo. Segundo Hitler, o socialismo era uma antiga “instituição ariana”. Essa distorção das palavras para fins políticos também é comum na história alemã. A antiga Alemanha Oriental comunista (1949-1990), que era governada por um regime ditatorial, tinha como nome oficial “República Democrática Alemã”.

O embaixador Witschel recordou ainda que o partido nazista, em suas origens, contou com diversas alas conflitantes, com alguns elementos que defendiam ideias social-revolucionárias. Entre as figuras que advogavam essa ideia estava o militante Gregor Strasser. Mas ele foi expulso do partido em 1932 e posteriormente assassinado em 1934 por ordem de Hitler, que identificava as ideias de Strasser como uma forma disfarçada de marxismo. Historiadores se referem a essa corrente obscura do início do nazismo como “strasserismo”.

“Essa ala social-revolucionária nunca passou de uma corrente minoritária. E a partir de 1934, com o assassinato de seus membros, o nazismo não tinha mais qualquer minoria socialista. E é preciso lembrar que, a partir de 1933, os partidos social-democrata e comunista foram proibidos, e seus membros foram para campos de concentração ou assassinados”, disse.

Ainda segundo Witschel, a publicação do vídeo pela embaixada não teve nada a ver com ação de grupos brasileiros que propagandeiam a ideia do “nazismo de esquerda”. Ele diz que a missão já planejava há tempos divulgar um vídeo sobre a cultura da lembrança. A publicação também foi influenciada pelos recentes eventos xenófobos em Chemnitz, no leste da Alemanha, que vem sendo palco regular de protestos organizados por grupos populistas e de extrema direita.

“Como representantes diplomáticos, somos absolutamente neutros na campanha eleitoral brasileira. O que nós fazemos é informar sobre nossa história e nossa cultura da lembrança. Não queremos tomar um ou outro lado na discussão eleitoral. Só queremos dizer que o Holocausto é um fato – e que não deve se repetir”, disse.

Por fim, o embaixador afirmou que, apesar de algumas reações negativas, a embaixada encarou a divulgação em massa do vídeo como uma “surpresa positiva”. “Para nós é importante um interesse tão alto. Esse resultado possibilitou para muitos brasileiros conhecer um pouco mais da história alemã, incluindo essa fase terrível do nazismo, da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto”, comentou.

Na tarde desta quinta-feira (18/09), o vídeo da embaixada já contava com mais de 800 mil visualizações vezes e tinha mais de 1.700 comentários. O Consulado-Geral da Alemanha no Recife também publicou a peça, e a reação foi similar. Após a repercussão, a maior parte dos comentários passaram a ser feitos por brasileiros que mostraram repúdio às declarações dos militantes de direita. “Querem ensinar o padre a rezar a missa”, disse um usuário. “Todo dia um a 7 a 1 diferente”, disse outro. Vários pediram “desculpas” à embaixada da Alemanha pelo comportamento de alguns de seus compatriotas.

Confira vídeo

Com informações do DW.

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