Como os liberais brasileiros conseguem juntar liberalismo econômico e conservadorismo moral | Por Clóvis Roberto Zimmermann

Gøsta Esping-Andersen , nascido em 24 de novembro de 1947 em Næstved , Dinamarca , é um sociólogo dinamarquês cujo foco principal campo do estudo é o Estado do Bem-Estar Socia(Welfare State) e o lugar nas economias capitalistas. Ele é professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, Espanha e membro do Comitê Científico do Instituto Juan March e do Conselho de Administração e do Conselho Científico do Instituto de Ciências Sociais IMDEA, ambos em Madri, Espanha.

Gøsta Esping-Andersen , nascido em 24 de novembro de 1947 em Næstved , Dinamarca, é um sociólogo dinamarquês cujo foco principal campo do estudo é o Estado do Bem-Estar Socia (Welfare State) e o lugar nas economias capitalistas. Ele é professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, Espanha e membro do Comitê Científico do Instituto Juan March e do Conselho de Administração e do Conselho Científico do Instituto de Ciências Sociais IMDEA, ambos em Madri, Espanha.

Segundo o sociólogo dinamarquês Gosta Esping-Andersen as políticas sociais devem ser analisadas através da tríade mercado, Estado e família. O mercado tem um papel importantíssimo na provisão de bem-estar social na medida em que através da renda do trabalho conseguimos prover o nosso sustento. O ideal é que a renda do trabalho seja suficiente para comprar no mesmo mercado todos os serviços sociais, tais como saúde, educação, moradia, cuidados e previdência. Contudo, o mercado não é perfeito, especialmente por causa de crises econômicas, que redundam em desemprego e consequentemente falta de renda.

Enquanto parte dos países europeus conseguem quase garantir o pleno emprego, na América Latina e no Brasil não conseguimos criar emprego para todas as pessoas em idade ativa. Nenhum país do continente consegue mercantilizar a sua força de trabalho, o que faz a região se tornar instável do ponto de vista da garantia dos direitos sociais. Além disso, corremos o risco de ficarmos doentes e dessa forma não poder garantir o bem-estar pessoal e também da família. Como o mercado é instável e não garante proteção aos riscos sociais, Gosta Esping-Andersen sugere a presença do Estado, o qual poderia ser o responsável em proteger seus cidadãos nas falhas do mercado. Em muitos país do mundo existe uma rede de proteção social que consegue proteger os cidadãos nacionais das oscilações do mercado.

Já na América Latina, o Estado também não consegue proteger todos os seus cidadãos dos riscos sociais, sendo que saúde, educação, moradia, previdência e cuidados acabam sendo relegados aos cuidados da família. Em virtude disso, quando mercado e Estado não dão conta de proteger seus cidadãos na cobertura de riscos, sobra para o terceiro ente da tríade, a família. Essa função existe faz muito tempo, sendo que na América Latina os estudiosos chamam a atenção para o papel central da família ou mesmo das mulheres no cuidado aos riscos sociais. O familialismo é o agente central na proteção social na América Latina, especialmente em relação aos cuidados aos membros da família.

Assim sendo, fica claro o motivo dos liberais brasileiros defenderem tanto o mercado na economia como também a família na esfera privada. Fica subentendido que esses liberais reconhecem que o mercado é insuficiente e por isso precisam da família para proteger os seus cidadãos das intempéries do mercado.  Em muitos lugares o Estado assume essas funções, tornando-se um elemento central para a participação das mulheres no mercado de trabalho. Mas, por aqui os liberais são contra o Estado, repassando medidas de proteção social às famílias.

Estranho nisso tudo é que o excesso de atividades na esfera doméstica impede especialmente as mulheres de assumirem atividades remuneradas fora do âmbito familiar. Com isso, as atividades intensas na família acabam atrapalhando a mercantilização da força de trabalho e o próprio desenvolvimento do capitalismo. Mantém-se um mercado insuficiente e um monte de cuidados relegadas ao ambiente familiar. E assim os liberais conseguem defender o mercado e a família, mas não conseguem nem fomentar a mercantilização da força de trabalho muito menos o espírito do capitalismo.

*Doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha e Professor Adjunto de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected]

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Sobre o autor

Clóvis Roberto Zimmermann
O pesquisador Clóvis Roberto Zimmermann é doutor em Sociologia pela Universidade Heidelberg (Ruprecht-Karls) (2004), possui graduação em Teologia pela Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1996); é professor adjunto do curso de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA e é professor do programa de doutorado em Sociologia da UFBA; tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Políticas Sociais, atuando, principalmente, nos seguintes temas: teoria das políticas sociais, participação popular e direitos humanos. *E-mail: [email protected]