Por que a arte brasileira faz tanto sucesso na Suíça

Escultura interativa feita de crochê, de autoria do carioca Ernesto Neto, em exposição na estação central de Zurique.

Escultura interativa feita de crochê, de autoria do carioca Ernesto Neto, em exposição na estação central de Zurique.

Durante este mês de julho de 2018, quem desembarca na estação central de Zurique se depara com uma enorme árvore feita de crochê. A peça, uma escultura interativa do carioca Ernesto Neto, impressiona pela magnitude e traz a Amazônia para o coração da cidade mais movimentada da Suíça , por onde circulam 460 mil pessoas a cada dia.

A exuberância da natureza, as cores intensas e o uso inusitado do artesanato são características dessa obra brasileira de 2 mil metros quadrados e 1,5 tonelada, que ostenta o recorde de ser a maior intervenção já montada no local.
Os 10.220 metros de tecido utilizados na confecção da obra GaiaMotherTree impressionam, mas são apenas o último desenrolar de um flerte que há muito já se estabelece entre o olhar suíço e a arte brasileira, um relacionamento que chega a movimentar quase US$ 5 milhões (R$ 18,6 milhões) por ano.

Para além da atual intervenção, o país europeu tem um museu dedicado exclusivamente à arte brasileira, além de acolher renomados artistas, coleções e galeristas e fomentar o mercado através da organização de feiras e do subsídio a novos talentos.

“Na verdade, se você for puxar o fio da história, a atração é antiga”, conta Letícia Amas, uma galerista brasileira radicada em Genebra.

“Desde a época em que Jean-Pierre Chabloz se encantou com o naïve Chico da Silva essa fascinação já existia”, diz em referência ao curador suíço que descobriu o artista primitivista brasileiro no século 20 em Fortaleza.

‘A arte brasileira é espontânea e democrática’

A própria Letícia Amas é um exemplo dessa ponte. Morando na Suíça desde 2006, a jornalista é dona da conceituada Galeria Espace_L de Genebra.

“Tudo aqui é como se fosse muito pensado, conceitual, refletido. No Brasil, a arte é espontânea. A nossa adversidade é que nos permite uma outra criação. Isso fascina porque está fora das normas”, argumenta.

Michiko Kono, curadora da prestigiada Fundação Beyeler da Basileia e organizadora da exposição GaiaMotherTree , concorda.

“Não há um conceito elitista por trás (da arte brasileira). Você não precisa ser um especialista em arte contemporânea com um grande conhecimento para entendê-la e apreciá-la.”

A Fundação Beyeler é conhecida pelo vasto acervo de mestres como Monet e Picasso e, anteriormente, já mirou seu holofote para outros brasileiros, como a gravurista Beatriz Milhazes.

Kono explica que a fascinação suíça por instalações como a árvore gigante se origina da abordagem “democrática” que a arte brasileira propicia. O artista oferece ao público a oportunidade de viver as emoções.

Nessa obra, por exemplo, as pessoas são convidadas a utilizar o espaço dentro da escultura livremente para recreação, meditação e relaxamento. “Esse é um espaço público, e essa obra é sobre intimidade”, resumiu o criador Ernesto Neto.

“É uma enorme confiança que o artista deposita no público, permitindo às pessoas tocar e experimentar. É uma responsabilidade transferida ao público. Assim como numa democracia, onde propicia-se a possibilidade de escolha”, sintetiza Kono.

Museu dedicado a obras brasileiras apresenta arte do país aos suíços
Às margens do rio Reno, na Basileia, há até mesmo um museu dedicado exclusivamente à arte do Brasil.

A Fundação Brasileia (trocadilho com o nome da cidade) abriga o acervo deixado pelo imigrante suíço Walter Wüthrich, que construiu fortuna nos trópicos.

Em operação desde 2003, o local é palco de exposições contemporâneas e tem como missão central apresentar ao público suíço e europeu a arte produzida atualmente no Brasil.

Entre os mais de 60 nomes que já passaram pelo espaço estão artistas contemporâneos como o grafiteiro Zezão, o pintor, escultor e fotógrafo Alex Flemming e a artista plástica radicada na Suíça Christina Oiticica.

Oiticica, que vive em Genebra junto ao marido, o escritor Paulo Coelho, vê um interesse genuíno dos suíços pela arte em geral e em particular pelas obras brasileiras por conta das cores fortes e da temática da natureza.

“Sinto que aqui há muito apoio à arte, e eles se interessam de verdade”, diz. “Os suíços levam a natureza muito a sério e esse tema universal é central no meu trabalho.”

Uma das técnicas empregadas por Oiticica é enterrar telas e deixar que a erosão interfira no resultado da obra, influências do “Land Art” e “Nouveau Réalisme”, ambos movimentos conhecidos por serem “democráticos”.

O diretor da Brasileia, o arquiteto alemão Daniel Faust, chegou a ser condecorado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil com o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural em reconhecimento ao seu trabalho.

Na ocasião, Faust afirmou que é justamente a “flexibilidade” da arte brasileira o seu grande trunfo. “Aqui, é tudo de concreto, lá é de madeira”, explicou numa metáfora arquitetônica.

“Nos últimos anos, a arte brasileira tem tido maior visibilidade na Suíça, graças ao trabalho de instituições privadas locais, como a Fundação Brasilea”, disse a diplomata Ana Ribeiro Bezerra, responsável pelo setor cultural da embaixada brasileira em Berna.

Ela avalia que a participação brasileira no cenário internacional das artes “tem crescido substancialmente e, nesse contexto, a Suíça vem se revelando como um mercado importante. (…) Ao ganhar espaço nesse competitivo mercado, os artistas brasileiros têm contribuído para solidificar a reputação da arte brasileira e abrir oportunidades para jovens artistas”.

Vale notar também que uma das maiores coleções particulares de arte latino-americana do mundo está abrigada em Zurique. A Daros Collection conta com mais de 1 mil peças de cem artistas da região.

“Destacar a significância e espírito inovador da arte contemporânea latino-americana para o público internacional” é o objetivo da coleção que acomoda peças de brasileiros consagrados como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Vik Muniz em seu acervo.

Cresce a participação de galerias brasileiras em feira de Basel

Uma das portas de entrada é a participação de galerias nacionais na Art Basel, feira que acontece todos os anos em Basileia, Miami e Hong Kong.

Galerias como Bergamin & Gomide, Fortes D’Aloia & Gabriel, Nara Roesler e Mendes Wood DM estão entre os expositores brasileiros assíduos.

Na última edição suíça, em junho passado, sete galerias brasileiras participaram do evento – duas a mais do que em 2017.

A Art Basel informou não possuir dados sobre montantes envolvidos nas vendas, pois as negociações são particulares. Estimativas brasileiras, entretanto, colocam as exportações verde-amarelas à Suíça perto da casa dos US$ 5 milhões.

O projeto Latitude da APEX, Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos, promove a internacionalização do mercado brasileiro de arte contemporânea e organiza estudos setoriais e ações promocionais. O projeto é integrado por cerca de 45 galerias do Brasil todo.

Eu seu último levantamento, publicado em 2015, o Latitude estimou que o mercado de arte brasileira exportou US$ 82,215 milhões, sendo US$ 33,921 milhões oriundos das galerias que participam do projeto. Naquele ano, esses expositores venderam 114 obras para 24 instituições internacionais.

A Suíça foi o segundo principal comprador desse grupo, atrás apenas dos Estados Unidos. As vendas ao país europeu corresponderam a 14,3% e totalizaram US$4,839 milhões.

O Latitude também estima em 200 o número de galerias na Suíça e aponta a Associação de Galerias Suíças (SGA) como a organização de primeira linha que congrega o mercado da arte.

No seu site oficial, a SGA não divulga valores, nem volume de transações, mas lista os artistas representados no país. No registro constam brasileiros como Ernesto Neto, Erika Verzutti, Caetano de Almeida, Rosana Ricalde, Luzia Simons e Sergio Sister.

*Por  da BBC News Brasil.

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