A Globo, as eleições e a história como farsa | Por Ayrton Centeno

Jair Bolsonaro é entrevistado por William Bonner e Renata Vasconcellos. Ideologia reacionária da Rede Globo contribuiu para a visibilidade de políticos, fascistas, antissemitas, totalitários que expressam ódio de classe.

Jair Bolsonaro é entrevistado por William Bonner e Renata Vasconcellos. Ideologia reacionária da Rede Globo contribuiu para a visibilidade de políticos, fascistas, antissemitas, totalitários que expressam ódio de classe.

Todo mundo conhece a velha máxima de Marx, aquela que “a história só se repete como farsa”. No caso do Grupo Globo, a história desde o berço é uma farsa. Em 1964, tratou como ‘democracia’ a ditadura que despontava. Em 2016, tratou como impeachment, o golpe parlamentar/judicial/midiático de que foi parte faceira. Em 1984, tratou ato monumental pelas Diretas Já como se fosse a comemoração do aniversário de São Paulo. Em 2018, trata a candidatura de Lula como se não existisse.

Líder disparado em todas as pesquisas, presente nas intenções de voto da maioria dos brasileiros e brasileiras, o ex-presidente não tem voz nem vez no Jornal Nacional. Mesma agenda de silêncio e apagamento conferida pela emissora a Fernando Haddad, seu vice. Não importa que a chapa Lula/Haddad/Manuela seja a única a juntar povo em qualquer lugar do país nesta campanha estranha e paradoxal.

É uma longa, elaborada e metódica dedicação à farsa que uma consulta à testemunha insuspeita – o próprio jornal O Globo – comprova sem maiores dificuldades. Não é a farsa pela farsa.  Ela se exaspera em tempos de campanha eleitoral mas está, a cada dia da história, a serviço dos interesses da família Marinho.

Pouca gente sabe mas, na trincheira da ditadura, O Globo trombou até com os Beatles. Em 1969, quando o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, fez uma conferência em Manchester, na Inglaterra e sugeriu aos jovens seguir o exemplo dos quatro de Liverpool e questionar “a forma monstruosa em que vivemos hoje com nossos falsos valores, contra a ridícula mecanização de tudo, inclusive do dinheiro”, o jornal partiu ao ataque.

Ilustrou matéria de 11 de abril daquele ano com uma foto do casal George Harrison e Patty Boyd saindo de um tribunal. E a legenda: “O beatle Harrison e sua loura: entorpecentes”. No editorial, deplorava-se que o arcebispo indicasse tais modelos. Harrison fora multado por posse de maconha, enquanto John Lennon e Yoko Ono eram criticados por posarem numa “experiência de amor público” em Amsterdam. Para o diário, os Beatles, os Rolling Stones e outros faziam “propaganda aberta da depravação”. Eram “fantásticas agências a serviço da corrupção de menores”, escandalizou-se.

Acontece que os Beatles e os Stones haviam ficado na linha de tiro contra Dom Hélder. Em 1969, o arcebispo era fortíssimo candidato ao Prêmio Nobel da Paz. E a figura mais odiada pela tirania. Justamente pela denúncia corajosa da censura, tortura e assassinatos no país. No ano anterior, sua casa fora metralhada por homens que gritavam “morte ao arcebispo vermelho!” Seria o primeiro Nobel brasileiro. Quatro vezes candidato, Dom Hélder, porém, nunca ganhou. Foi vítima de uma campanha difamatória, no Brasil e na Europa, movida por O Globo, o Estadão, o regime dos generais e parte do empresariado.

Carlos Marighella, o número 1 da ALN, foi emboscado e assassinado – recebeu 28 tiros e não portava nenhuma arma – em 4 de novembro de 1969. Dois dias depois, O Globo publicou o editorial O Beijo de Judas. Era um texto abjeto. Nele, jogava perseguidos contra perseguidos, ao dizer que os padres franciscanos Fernando e Ivo, sem “resistência moral”, haviam entregue Marighella. Omitia as condições em que as informações haviam sido obtidas. Fernando, por exemplo, tivera um arame enfiado na uretra.

Dez anos após o golpe, a família Marinho ainda não havia convenientemente percebido onde estava metida.  Fiel ao culto da farsa, no editorial ‘Fidelidade ao Regime’, O Globo celebrou a ‘medicina democrática’ imposta pelos eventos de 1964. Não por acaso, em 1972, o então ditador, Garrastazu Médici, confessou que se sentia relaxado e feliz após ver o Jornal Nacional porque enquanto “o mundo está um caos, o Brasil está em paz”. Uma década depois, em 1984, veio outra exaltação: a democracia fora derrubada para “preservar as instituições democráticas”.

Tamanha luta braçal contra os fatos em nenhum momento pode ser chamada de ‘tragédia’ —embora trágica para a reputação do conglomerado. Aos olhos do leitor/telespectador/ouvinte mais atento desde sempre foi farsesca.

Vinte e oito anos após o retorno da democracia, as Organizações Globo expuseram seu mea culpa pelo relacionamento carnal com a ditadura. O editorial veio na véspera do cinquentenário do regime militar. Sim, timing não é o forte dos Marinho. Dado seu comportamento em 2016, teremos novidades em 2066.

*Texto publicado no site Brasil de Fato, em 28 de Agosto de 2018.

*Ayrton Centeno Jornalista, 65 anos, trabalhou em O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Veja, Agência Estado e Brasília Confidencial, entre outros.  Documentarista da questão da terra no Brasil, participou como entrevistador e roteirista de duas dezenas de documentários sobre o tema. Os Vencedores é seu quarto livro. Antes, publicou as biografias do poeta simbolista Alceu Wamosy e a do pioneiro da ecologia política no Brasil, Henrique Roessler. Também é co-autor do livro/DVD Coojornal, um Jornal de Jornalistas sob o Regime Militar.

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