Pela liberdade de ser, grupo Muriquins lança seu primeiro videoclipe

O grupo Muriquins é formado por Marcos Santos (bateria), Gabriel Barros (guitarra), Vérciah (vocal) e Zé Livera (baixo).

O grupo Muriquins é formado por Marcos Santos (bateria), Gabriel Barros (guitarra), Vérciah (vocal) e Zé Livera (baixo).

Em tempos de cerceamento de liberdades, golpes, escalada dos discursos de ódio às diferenças, fundamentalismo religioso, racismo espalhado na mídia e redes sociais, e ameaças a quem não se enquadra nos modelos que restringem as possibilidades de ser, um grupo de artistas baianos se lança ao duplo desafio: navegar pelas águas da música preta brasileira e difundir imagens positivas sobre suas comunidades.

Com dicção própria, a Muriquins tem feito esse mergulho unindo sensibilidade e posicionamento político. De recente trajetória construída a partir de vivências periféricas, a banda é formada por quatro artistas vindos do sul da Bahia e Recôncavo os quais veem Salvador como ponto de contato e espaço propício a experimentações sonoras capazes de expressar provocações. Assim interioranos, sendo três negros, os músicos da Muriquins têm o microfone empunhado por um cantor trans; e por ser um grupo em atividade numa cidade de maioria negra (mas que oprime diariamente essa população), não se nega a trazer para a sua estética a intensidade da denúncia (seja do racismo ou da violência contra LGBTTQI+).

O resultado é uma densidade sonora que bebe na inesgotável fonte das matrizes africanas, nas sobrevivências do povo preto na diáspora, confluindo as expressões artísticas de Vérciah (vocal), Marcos Santos (direção musical e bateria), Gabriel Barros (guitarra) e Zé Livera (baixo). O repertório autoral, que entrelaça questões de gênero, classe e raça em letras vibrantes, potencializado pela performance contundente, tem proporcionado conexões intensas com um público cada vez mais diverso.

Desfazendo gênero em tempos ameaçadores

Essas movimentações desaguaram no primeiro videoclipe da Muriquins: Desfazendo gênero (composição de Marcos Santos). Gravado em Salvador e Camaçari e produzido pela Voo Audiovisual, o clipe é uma resposta sensível a todas as formas de violência que atingem as pessoas trans e que, infelizmente, têm se tornado gestos cotidianos. Num país onde mais se matam travestis e pessoas trans, e num estado (Bahia) que em 2017 ficou no segundo lugar nesse ranking do ódio, é preciso pendular entre a denúncia e a projeção positiva.

A sensibilidade como resposta às violências de gênero é o fio condutor desse clipe (dirigido por Edson Bastos e Henrique Filho) e se expressa no encontro das trajetórias de Vérciah (vocalista da banda) e Lila Raio de Sol, uma criança não-binária – também artista – que tem sido educada para a liberdade. O clipe tem como cenário muros grafitados por Annie Ganzala, artista lésbica e mãe de Lila, com imagens que reforçam a igualdade de gênero e o antirracismo. A aproximação entre as vivências de Vérciah, Lila e Annie, associada à condução cuidadosa da Voo Audiovisual, forma um mosaico de representatividade negra e LGBTTQI+.

A temática do clipe dialoga com o discurso da Voo Audiovisual. Edson Bastos, diretor, afirma que “é muito importante propor a discussão de gênero na arte e, no caso do clipe Desfazendo Gênero, foi emocionante captar as nuances de Lila, criança não-binária, com 10 anos de idade e contrastar com Vérciah, cantor trans da banda Muriquins, e poder apresentar uma diversidade de gênero num modo delicado e respeitoso”.

De forma articulada, essas questões dialogam com imagens de integrantes da Muriquins, numa belíssima sequência em que corpos diferentes se emaranham numa dança que é luta. Nesse clipe, os Muriquins dançam pela liberdade e nos convidam a ampliar os movimentos.

Gravação com celular

Desfazendo Gênero foi filmado com iPhone X e é a segunda incursão da Voo Audiovisual no uso dessa tecnologia. Para o diretor Henrique Filho, “foi ótima a experiência de filmar o videoclipe quase que inteiramente com celular. Isso tornou a produção mais dinâmica e amplia a liberdade criativa, as possibilidades de linguagem e experimentação. Sem contar que é muito prático chegar na locação, principalmente quando é externa, tirar o celular do bolso e estar praticamente pronto para filmar. E isso também viabiliza uma produção independente e com poucos recursos”.

Além de inovar no cenário do audiovisual baiano e nacional, investindo nessa tecnologia, a Voo Audiovisual encontra na Muriquins a disposição para tratar de temas imprescindíveis. E a Muriquins encontra na Voo a liberdade para lançar ao mundo uma produção independente à altura do seu intenso trabalho criativo. O território da arte permite aos dois grupos romper as limitações cotidianas. Os expectadores do clipe Desfazendo Gênero ampliam o olhar sobre as possibilidades de ser.

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