Os militares no novo governo | Por Luiz Holanda

Presidente Michel Temer cumprimenta o general Joaquim Silva e Luna.

Presidente Michel Temer cumprimenta o general Joaquim Silva e Luna.

Não vai ser fácil os militares voltarem completamente à caserna depois de terem ajudado o governo civil a administrar o país. O ápice desse processo foi a nomeação do general da reserva, Joaquim Silva e Luna, para o Ministério da Defesa. O general foi o primeiro militar a assumir a pasta desde quando ela foi criada, em 1999. O anúncio foi feito quase simultaneamente com a nomeação do delegado Rogério Garollo para comandar a Policia Federal.

O delegado é ligado ao general Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República e garantidor da permanência do presidente Temer no cargo. Esse gabinete tinha sido extinto, mas Temer o recriou e o integrou à ABIN-Agência Brasileira de Informações.

Outro fator importante da ascensão dos militares no governo foi a intervenção federal na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, colocando as forças estaduais nas mãos do Exército. Esse ato foi apenas reconhecimento, pelo governo, de que não poderia garantir a segurança naquele estado sem o apoio da Armada.

Outra demonstração do poder limitar foi a sanção do presidente Temer ao projeto de lei que transmite para as cortes militares o julgamento de crimes dolosos contra a vida cometidos por integrantes das Forças Armadas nas missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), quando convocados a assumir papel de polícia e reforçar a segurança pública.

No pouco tempo em que Temer está no poder, os militares foram chamados para combater as facções criminosas no Rio Grande do Norte, deter a onda de violência no Espirito Santo depois da greve dos policiais militares daquele estado, reforçar o patrulhamento do Rio de Janeiro durante as Olimpíadas, garantir a ordem nas eleições municipais e a votação do pacote de austeridade aprovado pela Assembléia Legislativa.

O retorno ao poder motivou muitos militares da reserva a saírem candidatos nas próximas eleições, inclusive a presidente da República, como é o caso do capitão e deputado federal Jair Bolsonaro, citado pelo general Augusto Heleno como “o único com possibilidade de mudar o que está aí porque todos querem que se faça uma faxina no país”, muito embora não seja o candidato dos seus sonhos.

O partido de Bolsonaro certamente é o que apresentará o maior número de candidatos ligados às Forças Armadas, mas outras legendas também o terão. Até o presente momento a imprensa aponta 149 militares pretendendo um mandato eletivo, federal ou estadual.

Bolsonaro, que jamais pensou ser aceito pelo eleitor como candidato a presidente da República, tenta esconder suas diatribes ao atacar as mulheres, os negros e os homossexuais. Em relação à mulher, afirmou para a imprensa que tinha cinco filhos: “foram quatro homens, a quinta nós deu uma fraquejada e veio uma mulher”. Em outra disse que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Perguntado se amaria um filho homossexual, respondeu que “seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”. Em outra disse que bateria se visse dois homens se beijando na rua.

Como se sabe, os discursos de ódio vêm ganhando força e atraindo eleitores, principalmente os mais necessitados, revoltados com a sua situação de eterna penúria. Na falta de espaço para se manifestarem, utilizam as redes sociais para atacar a chamada burguesia, considerada reacionária e perigosa.

Bolsonaro defende a ditadura militar, a diminuição do Estado e outras idéias de difícil e impossível aplicação na prática. Mesmo assim, vem ganhando eleitores paulatinamente, ao ponto de as pesquisas o apontarem como provável candidato ao segundo turno, se houver.

Suas declarações já lhe renderam diversos processos, mas isso não o intimada muito. Continua a praguejar e a endeusar a direita como saída para um Brasil melhor. Entretanto, ao ser obrigado a chamar a advogada Janaína Paschoal para ser sua vice, Bolsonaro demonstrou que está sozinho.

Em 2014 atacou a colega Maria do Rosário afirmando que ela não merecia ser estuprada porque era feia demais. Por essa mesma razão responde a processo no STF. Seja como for, seu tempo de televisão não lhe permite reverter esse quadro, nem ele é um Éneas para disparar suas aleivosias em questão de segundos. A convenção que o escolheu não demonstrou pujança nem entusiasmou eleitores. Vai marchar sozinho, acompanhado de Janina Paschoal e sem o apoio dos militares.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário ([email protected]).

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]