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David Motta, o brasileiro que dançava escondido dos pais e agora brilha no Balé Bolshoi

David Motta diz que adaptação na Rússia, aos 13 anos, foi difícil.

David Motta diz que adaptação na Rússia, aos 13 anos, foi difícil.

Depois da Copa do Mundo 2018, brasileiro continuará representando o país sob salvas de palmas emocionadas na Rússia. O bailarino David Motta, o primeiro dançarino do país a conquistar um papel de destaque no renomado Balé Bolshoi, uma das companhias de dança mais famosas do mundo.

Em entrevista concedida por David Motta, em frente à sede do Teatro Bolshoi – cujo nome em russo quer dizer “grande” – em Moscou, ele comparou a emoção que sente com a façanha de “ganhar uma Copa”: “É exatamente a emoção que eu tenho diariamente quando danço um papel principal aqui no Bolshoi”.

Símbolo máximo da arte e da cultura russas, a companhia de balé do Bolshoi foi fundada em 1776. Inaugurada em 1825, a sede atual tem sua fachada imortalizada nas notas de 100 rublos.Motta foi descoberto aos 12 anos por um “olheiro” do teatro e convidado a fazer um curso de verão pela escola nos Estados Unidos. Em seguida, veio o convite para estudar na escola de balé do Bolshoi em Moscou, onde se formou. Em 2016, aos 19 anos, se tornou o primeiro bailarino vindo do Brasil a assumir um papel principal no teatro (atualmente são, no total, quatro brasileiros no corpo de baile).

Hoje, com apenas 21 anos, é aclamado pela crítica europeia está prestes a protagonizar novos espetáculos.

“(Aqui) fora, um bailarino é almejado, visto como uma pessoa grande. Todos querem se aproximar, conhecer, saber como foi sua história, como fez para chegar lá (…) No Brasil, ao contrário, querem se afastar.”

Ele explica: “No Brasil, dança não é reconhecida como cultura ou profissão, mas como hobby, não um trabalho”.

Dançando escondido

Num breve hiato entre os ensaios diários (fins de semana inclusos), ele conta que precisou esconder da família os primeiros passos na dança, quando tinha 9 anos, em Cabo Frio (RJ).

“Eu sentia muita dificuldade como bailarino homem no Brasil quando comecei a dançar”, diz. “Contar em casa que queria ser bailarino, eu não fiz, eu não contei. Fiz 5 meses de aula de balé escondido, sem dizer para os meus pais.”

Às vésperas da primeira apresentação em um teatro, o segredo teve que ser desfeito.

“Eu precisava de uma autorização para dançar no espetáculo da escola. Minha mãe ficou muito feliz, e, sim, autorizou. Meu pai, inicialmente, não. Ficou com receio. Mas no fim, autorizou.”

O motivo, ele conta, são estereótipos há muito tempo arraigados à cultura brasileira.

“No Brasil, todo mundo tem medo de comparar o filho que dança com se tornar gay”, diz. “E realmente não tem conexão nenhuma uma coisa com a outra. É dança, você faz com a alma, a vida, com amor.”

“Vejo esse estereótipo de bailarino ser comparado a gay muito baixo e sem cultura”, afirma.

Não há mágoas, no entanto. “Não culpo as pessoas que acham isso porque muitas delas não tem autoconhecimento, nunca vão ao teatro, não têm conexão com a arte.”

“Acho que os pais simplesmente deveriam apoiar porque é uma profissão maravilhosa”, sugere o astro brasileiro.

Rússia

Motta desembarcou na Rússia aos 13 anos, sozinho, após o convite do teatro.

No ano anterior, ele havia se inscrito em um concurso de dança cuja etapa final aconteceria em Nova York. Não conseguiu visto para os Estados Unidos a tempo, mas um dos jurados era professor do Bolshoi e assistiu a seu vídeo de inscrição. Encantado com o que viu, fez o convite para a escola de dança russa, aceito imediatamente pelo jovem bailarino.

Na mudança, Motta resolveu abraçar a profissão e suou para se adaptar a uma cultura diametralmente oposta – como ao frio, que pode chegar a 10 graus negativos no inverno, e ao idioma, que não se assemelha ao português no alfabeto.

“Eu falava português, e eles simplesmente olhavam pra mim e diziam que não, não poderiam ajudar, e saíam andando”, lembra, se referindo à desorientação nas estações de metrô e ruas, onde a maioria das placas é escrita em russo.”Vim com 13 anos, vim sozinho, não conhecia ninguém… A necessidade faz a gente aprender”, lembra. “Graças a Deus eu passei essa barra. Hoje falo russo fluente – e inglês também.”

Nascido em uma família com poucos recursos financeiros, filho de uma auxiliar de serviços gerais e de pai desempregado, o jovem contava com uma bolsa de R$ 1.600 financiada pelo Itamaraty para se manter no país enquanto estudava no Bolshoi.

Chegou a fazer uma vaquinha virtual para conseguir se manter na Rússia.

Hoje, com a carreira consolidada, ele é alvo de elogios até do presidente Michel Temer.

Logo após assumir o Palácio do Planalto, em 2016, o emedebista gravou um vídeo parabenizando o jovem de Cabo Frio.

“Você é um exemplo para os brasileiros. Exemplo de persistência, combatividade, disciplina, que merece o aplauso de todos os brasileiros”, disse Temer.

Copa do Mundo

O brasileiro ainda não conseguiu assistir a jogos da Seleção – em ambos, estava de sapatilha, entre adágios e pliés (passos clássicos do balé), nos salões de ensaio do teatro russo.

A rotina pesada, no entanto, não o impede de torcer.”O clima de Copa do Mundo está maravilhoso, eu nunca vi a Rússia desse jeito”, diz, olhando para a praça em frente ao teatro, repleta de turistas com camisas de diferentes países.

“Acho isso incrível, porque a Rússia não é normalmente assim festiva.”

O jovem se mostra confiante sobre a seleção. “Acho que a gente vai conseguir, sim, vencer, e espero que a gente possa se tornar o hexacampeão do mundo”, aposta.

A principal vitória, no entanto, já aconteceu.

“É um orgulho muito grande representar o Brasil aqui”, diz, sorrindo. “Todo bailarino almeja dançar neste teatro. Ter a oportunidade de dançar aqui hoje e ser protagonista no melhor teatro do mundo não tem explicação.”

*Por  BBC Brasil.

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