Brasil precisa se adaptar a mundo menos centrado no Ocidente, diz Oliver Stuenkel professor da FGV

Chefes de Estado e de Governo durante encontro do G7.

Chefes de Estado e de Governo durante encontro do G7.

Para pesquisador, Brics, que se reúnem pela décima vez em cúpula, dão acesso privilegiado para o Brasil aos grandes centros de poder na Ásia. Mas sociedade civil e os setores público e privado precisam entender isso.

Os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reúnem a partir desta quarta-feira (25/10/2018), em Johanesburgo, para a décima cúpula dos Brics. Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o grupo pode mostrar ao mundo ” ser um pilar de estabilidade” no momento em que o G7 passa por uma das crises mais profundas de sua história.

O especialista afirma ainda que alguns setores brasileiros poderão se beneficiar do conflito comercial entre EUA, Europa e China, mas a maioria desses avanços será de natureza temporária. “O Brasil pode chegar a vender mais soja para a China, substituindo o produto dos EUA”, explica. “Mas, em qualquer momento, as regras podem mudar novamente. Uma guerra comercial é ruim para todos os países, inclusive para o grupo Brics.”

Os países dos Brics realizam sua 10ª cúpula na África do Sul. Quais foram os principais avanços desde a criação do grupo?

Oliver Stuenkel: O grupo atuou de maneira coordenada para ajudar a comunidade internacional a superar a crise global de 2008, oferecendo capital – que era escasso na época – para instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois, começaram a aprofundar suas relações e, desde então, há encontros em vários níveis que têm ajudado os países a se adaptarem a uma nova realidade geopolítica e econômica na qual o Brics, sobretudo China e Índia, tem um papel muito mais importante do que antes. E, mais recentemente, foi institucionalizado o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) para atuar em projetos nos países-membros.

Apesar dos avanços, os países-membros mostram também que têm divergências entre si.

É natural que existam divergências. São países de regiões, sistemas políticos e, às vezes, com interesses diferentes. E isso não vai mudar. Mas não quer dizer que não haja um amplo espaço para cooperação, inclusive o fórum dos Brics pode ajudar a gerenciar essas divergências de maneira mais efetiva. Por exemplo, há claros pontos de tensão entre Índia e China, como a questão de fronteiras. Não que os países dos Brics vão ajudar a acabar com esses conflitos, mas é mais uma plataforma para que essas nações possam lidar de melhor maneira com essas tensões. Existe um diálogo muito maior hoje entre eles do que há 20 anos.

Qual é maior vantagem dos Brics para o Brasil?

Apesar de todos os problemas internos que têm reduzido o tempo e espaço de Brasília em discutir tópicos externos, os Brics dão um acesso privilegiado para o Brasil aos grandes centros de poder na Ásia. A sociedade civil e os setores público e privado precisam se adaptar a um mundo menos “ocidentalcêntrico”, um mundo no qual a Ásia tem um papel importante. Porém, isso aparece pouco no debate público. Mesmo assim, o grupo continua sendo uma grande oportunidade e, por isso, vale a pena continuar investindo nele e enxergar as oportunidades que ele representa.

A última cúpula do G7 terminou com troca de farpas, e o grupo parece ter saído mais enfraquecido por causa de ações isolacionistas de Donald Trump. Os Brics podem preencher o vácuo de poder que o G7 está deixando?

Sim. O G7 passa pela mais profunda crise de sua história, e isso aponta para um racha mais amplo entre EUA e Europa que não é temporário. O futuro da relação transatlântica é muito incerto e, em comparação, os Brics parecem ser um pilar de estabilidade. Até certo ponto, sobretudo na gestão do sistema global comercial – por exemplo, no combate contra o protecionismo –, os Brics podem ter um papel relevante, mas não se pode negar que há diferenças fundamentais entre eles também em áreas onde é difícil para os Brics terem um papel de destaque, como nos direitos humanos, diante do caráter não democrático de dois de seus membros [China e Rússia].

Mas por que o G7 não está tendo mais capacidade, como antigamente, de coordenar estratégias e assumir a liderança internacional?

Há anos temos um deslocamento de poder para a Ásia, o que tem reduzido o papel e capacidade de o G7 liderar qualquer debate internacional. Mas, com a imprevisibilidade e falta de uma estratégia clara do governo Trump, vemos que esse processo está se acelerando, reduzindo então a confiança que o mundo tem no G7. As consequências já são visíveis: a União Europeia, por exemplo, acabou de assinar um acordo de comércio com o Japão. Parceiros tradicionais dos EUA precisam pensar em um plano B.

Os EUA parecem estar interessados em intensificar uma guerra comercial contra Europa e China. Como os Brics e, em especial o Brasil, podem se beneficiar desses conflitos?

O Brasil poderá se beneficiar em alguns setores, porém, a maioria desses avanços será de natureza temporária. Afinal, é preciso ter confiança nas regras e normas para fazer grandes investimentos. O Brasil pode chegar a vender mais soja para a China, substituindo o produto dos EUA, mas, em qualquer momento, as regras podem mudar novamente. Em função dessa incerteza, uma guerra comercial é ruim para todos os países, inclusive para o grupo Brics. Mas, ao longo dos anos, os países-membros vêm defendendo um sistema global de comércio baseado em regras e normas e vão fazer o mesmo em Johannesburgo. Os Brics poderão se beneficiar por serem vistos como defensores da globalização – e é uma chance inédita de assumir a liderança internacional.

Em tempos de desconfiança em relação aos EUA, as empresas europeias deverão se voltar mais ao países dos Brics?

Não há dúvidas de que cada vez mais as empresas ao redor do mundo, inclusive europeias, estão sendo afetadas pelo risco político em Washington e incertezas quanto às medidas comerciais tomadas pelos EUA. Apesar do tamanho da economia americana, certamente haverá uma tentativa de reduzir a exposição ao mercado deste país ou tentar compensá-la com uma forte presença em outros mercados como nos dos Brics também. Isso ficou muito visível durante a recente visita do primeiro-ministro chinês a Berlim. Apesar de várias divergências, a Alemanha reconhece que precisa de uma parceria estável com Pequim, já que sua relação com Washington é marcada por incerteza.

Por causa de crises, Brasil e África do Sul não conseguiram articular uma visão para os Brics. E, assim, a China aproveita o vácuo para incluir os países-membros numa ordem mais “sinocêntrica”. Quais são as vantagens e desvantagens?

É verdade que Brasil e África do Sul não conseguiram articular visões claras para os Brics. Como consequência negativa, o grupo está sendo cada vez mais visto como elemento de uma estratégia chinesa mais ampla. Por outro lado, isso traz possíveis vantagens econômicas para todos os países-membros por terem uma proximidade com uma das economias que mais crescem no mundo [China]. Mas, ao mesmo tempo, reduz o espaço para que o Brasil possa apresentar novas ideias.

Mas o Brasil terá essa chance de articular uma visão para os Brics ao receber nesta cúpula da África do Sul a presidência rotativa?

Isso depende do resultado da próxima eleição, quer dizer, se o futuro presidente conseguirá articular uma estratégia clara sobre como serão as políticas econômicas e sociais brasileiras, além das internacionais durante os próximos quatro anos. Mas, a princípio, o Brasil tem uma grande chance de apresentar uma nova narrativa não só aos Brics, mas à comunidade internacional como um todo. Isso requer não só um governo estável, mas envolve um processo mais amplo de priorizar debates sobre os Brics na mídia, nas universidades e na sociedade como um todo.

*Com informações de Deutsche Welle Brasil.

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