Waldir Pires e a luta pela igualdade | Por Emiliano José

Emiliano José lança biografias sobre a trajetória política do ex-governador Francisco Waldir Pires de Souza.

Emiliano José lança biografias sobre a trajetória política do ex-governador Francisco Waldir Pires de Souza.

Estou lançando, agora dia 14 de junho de 2018, em Salvador, o primeiro volume da trajetória de Waldir Pires, cobrindo o período de 1926, quando ele nasce, até o fim de 1978, quando decide voltar à Bahia. O segundo cobrirá do ano de 1979 até os dias de hoje, já seguindo para a revisão. Waldir não é personagem de fácil definição.

Antes de arriscar fazê-lo, lembro sua longa vida, a atravessar grande parte do século XX e adentrar esses quase 18 anos do século XXI. Nasceu no Cajueiro, mais tarde Acajutiba, e muito cedo, com três anos, a família aporta em Amargosa, onde viveu infância e parte da adolescência. Em Nazaré das Farinhas, fez ginásio. Colegial, no famoso Colégio Central, em Salvador. Cursa a Faculdade de Direito, formando-se em 1949. É orador de turma, quando produz memorável discurso em torno da obra de Ruy Barbosa, desenvolvendo uma noção nova sobre o Direito, pregando a existência do Estado Democrático capaz de suplantar uma visão liberal, para ele já condenada ao museu.

Em 1951, aos 24 anos, torna-se secretário do governador Régis Pacheco, indicado por Antonio Balbino, preceptor dele na vida política. Em 1954, elege-se deputado estadual, torna-se líder de Balbino na Assembleia Legislativa, e em 1958 é eleito deputado federal. Em 1962, disputa a eleição para governador, derrotado por Lomanto Júnior. É convidado quase simultaneamente para a nascente Universidade de Brasília e para a Consultoria-Geral da República. Aceita os dois encargos.

Vai para o olho do furacão da crise brasileira, para o centro da tormenta que assolava o governo Goulart, que se dispunha a avançar em suas reformas de base. Pressentiu amargurado o que viria, e veio. A direita brasileira não aceita quaisquer governos reformistas, a visão dela não sintoniza nunca com a ideia da democracia, de modo nenhum. Os dias atuais estão aí para confirmar. Foi, ao lado de Darcy Ribeiro, o último a deixar o Palácio do Planalto quando do golpe. Os golpistas entravam por uma porta na madrugada de dois de abril, com Supremo e tudo, e os dois saíam por outra, dispostos a seguir para o Rio Grande do Sul, para, ao lado do presidente e de Brizola, assumirem a direção da resistência.

Voaram para uma fazenda próxima, de propriedade de Goulart, e lá souberam que o presidente já havia partido para o Uruguai, certo de que não havia mais condições de resistir. Decidem, então, seguir no teco-teco impulsionado por gasolina de caminhão até terras uruguaias, onde começariam o longo exílio. No caso de Waldir, como não consegue emprego no Uruguai, segue para Paris, e na França dará aulas na Universidade de Dijon. Chama a família, cinco filhos e Yolanda, sua mulher, reorganiza a vida. Quando tudo está arrumado, toma consciência de que se não voltasse ao seu País, perderia os filhos para a França.

Contrariando a todos, volta para o Brasil, em 1970, plena vigência do AI-5, Médici e seu terror governando o País. Vive nove anos de ostracismo no Rio de Janeiro, um novo exílio, impossibilitado de atuação política aberta. Retorna à Bahia no início de 1979. Contribui decididamente para a organização do MDB, depois PMDB, disputa a eleição para o Senado em 1982, tem quase um milhão de votos. Em 1986, faz memorável campanha para governador, derrotando Josaphat Marinho, candidato de ACM, com quase 1 milhão e meio de diferença. Governa pouco mais de dois anos, renunciando para ser vive de Ulysses Guimarães, em controversa decisão que acabou por facilitar a volta de ACM ao poder em 1990, primeira e única vez que se elegeu governador pelo voto.

Quando todos o davam acabado para a política, cai na estrada e no mesmo ano em que ACM se elege, é eleito deputado federal como o mais votado do Estado. Três companheiros de partido, o PDT, com votações pouco expressivas, são arrastados por sua votação, chegam junto com ele à Câmara Federal. Disputa a eleição para o Senado em 1994, e é derrotado por uma fraude escandalosa arquitetada por ACM, que elegeu sua vassoura, que era a denominação que ele dava a pessoas sem expressão que ele apontava como seus candidatos, no caso Waldeck Ornelas, cuja vitória, com a fraude, foi por pouco mais de três mil votos.

Numa guinada surpreendente, aos 70 anos, em 1997, resolve sair do PSDB, onde estava naquele momento, e ir para o PT. Elege-se deputado federal em 1998, perde a eleição para o Senado em 2002. É chamado por Lula para assumir a Controladoria Geral da União, cuja feição ele muda inteiramente, dando-lhe eficiência no combate à corrupção, tornando-a referência mundial. Em 2006, é convidado para a Defesa, e aceita, talvez um erro dele e de Lula. Pelas mais variadas razões, inclusive dois graves acidentes aéreos, é demitido por Lula em julho de 2007, logo depois do acidente da TAM em Congonhas. Os militares conspiraram contra ele desde que chegou ao ministério. Em 2012, elege-se vereador em Salvador, o mais bem votado do partido, o PT.

Waldir é um homem de esquerda? – é a pergunta que pode inquietar muita gente. Creio ser possível e correto responder afirmativamente. Fui atrás primeiro de como se formou sua consciência política, tentando ultrapassar o mero conhecimento de sua vida prática. Veio das lutas pela entrada do Brasil na guerra, ainda muito imberbe, ginasiano em Nazaré das Farinhas, luta feita pelos comunistas e liberais. Começa ali sua intricada, rica relação com os comunistas. Em Salvador, toma contato com as ideias de João Mangabeira, que o encantam. Depois, e creio ser esta a sua verdadeira Estrada de Damasco, depara com a obra de Harold Laski: Reflexões sobre a Revolução de nossa Época, cuja primeira edição é de 1942, e a primeira no Brasil, de 1946, traduzida por Isa Silveira Leal e Enio Silveira, da Companhia Editora Nacional.

Não é fácil também definir Harold Laski. Conhecia Marx em profundidade, acreditava na marcha inevitável da humanidade para o socialismo, era criticado pelos comunistas ortodoxos, não compartilhava da ditadura do proletariado, flertava com teorias que poderíamos denominar gramscianas ao desenvolver a teoria da revolução por consentimento, que pode guardar algum parentesco com a noção de hegemonia. Defendia a democracia, sempre considerando a participação popular.

Sua principal obra, como vimos, veio à lume, em plena guerra, e faz uma crítica dura a Churchill, que à guisa de unir a Inglaterra para combater o nazifascismo, recusava-se a enfrentar as graves questões sociais, sobretudo e especialmente a questão das condições de vida das massas trabalhadoras. Laski dizia que era exatamente o drama da guerra que podia impulsionar a revolução por consentimento. Enquanto a guerra perdurasse, os interesses comuns são mais fortes do que os de qualquer interesse particular, o contrário do raciocínio de Churchill, que pretendia sempre deixar de lado as questões sociais enquanto a guerra corresse, na verdade uma maneira de assegurar os privilégios das classes dominantes, como bom conservador que era.

Laski era um admirador da Carta do Atlântico, como Waldir sempre foi, sobretudo por pregar que a humanidade deva se libertar das privações e do medo. Todo esse ideário devia ser levado à frente sob o Estado Democrático de Direito. Laski, era vinculado ao Partido Trabalhista Britânico. Não queria saber de ditadura do proletariado. Luta pela igualdade na humanidade, mas no caminho das revoluções por consentimento, caminho para se chegar ao socialismo.

Waldir sempre disse que ler o livro de Laski foi como uma iluminação. Durante toda sua vida, desde que se iniciou na política, jamais se afastou da ideia do Estado de Direito Democrático, um Estado forte, capaz de enfrentar as necessidades mais elementares do povo, especialmente dos mais pobres, a luta pela igualdade no centro. Além de Laski, bebeu nas fontes da Revolução Francesa, nas noções democráticas herdadas dos gregos, nas lições advindas da Revolução Americana, nas formulações de Vargas em torno do Estado como impulsionador do desenvolvimento, nas noções, e dele já se falou, de Mangabeira, também próximo das ideias de Laski, admirador do socialismo e avesso à ditadura do proletariado.

Quando olhava para o passado, para a luta de um Lincoln contra a escravidão, não se esquece que a luta contra o racismo persiste até os dias de hoje, lá e cá. Quando fala da Revolução Francesa, não ignora tantos direitos sonegados, o colonialismo presente. Quando refere-se aos gregos, lembra dos privilégios dos bem nascidos. Nunca se tornou um liberal embevecido. A veia crítica, da luta pela igualdade e pela liberdade plena do ser humano e pela democracia, sempre presente. Nunca deixará de dizer que a democracia não pode ser apenas o regime de eleições. Que ela sempre, continuamente, deve contemplar a participação popular. Todo esse ideário, nunca desmentido ao longo de sua vida, indica que podemos repetir sem medo ser Waldir um homem de esquerda, coerente com a sua noção de que a humanidade só pode ser livre e sem medo se suas necessidades essenciais são atendidas, se sua dignidade humana está satisfeita, respeitada, se tudo isso se dá sob um regime de liberdades plenas, sob a democracia. Se quiserem defini-lo como democrata, não estarão errados. Só que nunca numa acepção liberal, minimizada, que ele nunca aceitou. Como um democrata radical, cujo valor fundamental é o da igualdade.

Esse homem de esquerda, ou democrata radical, como se queira, sempre soube ter uma relação fraterna, caminhar lado a lado com os comunistas. Foi apoiado por eles nas eleições de 1962, quando não aceitou o que pretendia ser uma ordem de dom Augusto Álvaro da Silva para renegar tal apoio. Durante a ditadura, ainda no Rio de Janeiro, correndo todos os riscos, encontrou-se clandestinamente com alguns dirigentes comunistas, Giocondo Dias entre eles. Em 1986, contou com o apoio deles, seja do PCB, seja também do PCdoB, ou de comunistas independentes. Seguramente, sua formação não deixou de contar com a contribuição dos comunistas, não no sentido formal, mas na convivência, que lhe deu consistência na defesa da igualdade, na natureza fundamental da participação popular, e passada a ditadura, reforçar ainda mais sua noção da democracia como valor universal, a partir sobretudo das contribuições de um Carlos Nelson Coutinho.

*Emiliano José da Silva Filho (Jacareí, 5 de fevereiro de 1946) é jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), atuou como professor de Comunicação Social pela UFBA e como deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores da Bahia (PT/BA).

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