70 Anos de Ladislau Nogueira, discípulo de Mestre Irineu e presidente do Ciclujur

Ladislau Nogueira testifica:

—Esse Mestre maravilhoso que nós seguimos há 51 anos, não era um mestre de brincadeira, era um mestre verdadeiro. Como ele mesmo falou, “as palavras que eu disser estão escritas no astral, para todo mundo ver”, ele sabe o ontem o hoje e o amanhã, ele sabe a minha vida. O Mestre Irineu não nos deixa com dúvida. Ele sabe tudo, nos responde tudo, esse mestre está em Deus e Deus é tudo.

Ladislau Nogueira, nascido em 27.6.1948, Sena Madureira - Acre

Ladislau Nogueira, nascido em 27.6.1948, Sena Madureira – Acre

Nascida num seringal, ainda adolescente Maria Evangelista mudou-se para Sena Madureira – Acre. Conheceu o guarda territorial Francisco Nogueira, se casaram e tiveram 6 filhos: Raimundo, Senira, Zenira, Donato (falecido aos 6 anos), Ladislau e Deusdete.

Com proventos escassos, o soldado Francisco se desdobrava para atender as necessidades materiais de sua família. O pão de cada dia deveria ser suficiente para alimentar os filhos, o casal e duas senhoras sem família que acolheram em sua casa.

Acontece que, carentes e famintos, os 6 filhos da vizinha da frente visitavam a casa justamente na hora do almoço, e lá permaneciam, esperançados.

Caritativa, dona Maria Evangelista compartilhava com essas outras crianças a comida já contadinha da casa. Depois, avisava Francisco, seu marido:

— Nego, o arroz acabou… O feijão acabou, neguinho… Não tem mais farinha…

— Já, nega? Mas eu trouxe na semana passada!

— Pois é, mas tu sabe que os meninos da vizinha vêm comer aqui e eu não tenho coragem de negar comida pros bichinhos.

Seguindo os passos do Nosso Senhor Jesus Cristo. Maria e Francisco buscaram fazer o milagre dos peixes e da multiplicação dos pães: com esforço, conseguiram juntar um dinheirinho e comprar uma terrinha, não muito longe de casa.

Francisco começou a plantar arroz, feijão, milho e macaxeira; banana, abacaxi, melancia, e abacate. E a rocinha foi se desenvolvendo. Depois ele inventou de fazer uma casa de farinha também. E nas folgas chamava as crianças para ajudar na farinhada. A despensa foi enchendo, as panelas também, e o bucho da criançada.

Começaram a aparecer outras crianças para o almoço, Maria se manteve firme no propósito de auxílio ao próximo. E Francisco tocava a sua roça.

Até que os meninos cresceram, e a família se mudou para Rio Branco, capital do Estado, e ali se estabeleceram no ano de 1960, sem maiores dificuldades.

Uma querida confrade narrou essa edificante história, que muito me emocionou, ao lê-la. Termina assim:

“Muitas décadas depois, quando o casal já havia falecido, uma mulher de aparência distinta abordou um dos filhos do casal, de nome Ladislau, e se apresentou. Era uma das crianças da vizinha da frente.

Eles se saudaram amistosamente, lembraram os velhos tempos, e então ela disse:

— Ladi, se eu e os meus irmãos escapamos da fome, foi por causa da bondade da tua mãe, que nunca negou um prato de comida pra nós”.

( ver < http://www.agencia.ac.gov.br/historia-de-uma-familia-acreana-por-onides-bonaccorsi-queiroz/ > )

Ladislau Nogueira

Ladislau Nogueira

Ladislau Nogueira: Ladi

Ladislau Nogueira nasceu em 27.6.1948. Muito jovem, acompanhou a família na mudança da Cidade de Sena Madureira para Rio Branco, Capital do Estado do Acre.

Foi obrigado a interromper os estudos na 5ª Série do Ensino Fundamental, aos 12 anos de idade, para poder trabalhar e ajudar a família humilde e de grande prole. Inicialmente exerceu o ofício de vendedor ambulante: Vendia salgados, verduras…. Depois, foi apontador numa empresa de construção civil.

Praticou a profissão de “chofer de taxi” num carro alheio, pois não tinha condições de ter seu próprio veículo. Foi nessa condição, com 19 anos de idade, que se enamorou de uma menina de 14 anos — corria o ano de 1967.

— Ladi era meu amigo, depois que começamos a namorar.

Quando foi pedida em namoro, a menina Salua lhe disse que só aceitaria se ele não criasse objeção por ela frequentar um Culto cristão, acompanhando a sua mãe.

Este era o Culto dirigido pelo líder comunitário Raimundo Irineu Serra, na zona rural de Rio Branco, onde durante as sessões se tomava uma misteriosa bebida, denominada Santo Daime (Ayahuasca).

Salua Oliveira Nogueira viria a se tornar sua esposa, mãe de seus filhos e avó de seus netos — e seria aquela que lhe apresentaria ao Mestre Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 6.7.1971).

Ladislau, Salua e outros

Ladislau, Salua e outros

Como motorista de taxi, Ladi levava a namorada e a sogra semanalmente ao Alto Santo, terras sagradas onde Irineu Serra sediava os seus trabalhos espirituais com o Santo Daime.

Certo dia, Mestre Irineu lhe perguntou:

— O senhor já pensou em tomar Daime?

— Já, sim senhor.

— Quando o senhor quiser tomar Daime, o senhor toma. Se o senhor gostar, a casa é sua. Se não gostar, não precisa nem falar nada.

O jovem Ladislau tomou Daime, gostou e se tornou membro da Doutrina, um soldado da Rainha da Floresta e do Rei Juramidã.

Costuma dizer:

— Foi a beleza da minha mulher que me atraiu para conhecer o Daime. E encontrei uma beleza maior ainda: a Doutrina do Mestre Irineu.

Salua Oliveira Nogueira

Salua Oliveira Nogueira

Ladi e Salua se casaram e começou a nascer os filhos. Para sustentar dignamente a família, exerceu as profissões de motorista de caminhão, balconista e gerente de loja.

 O Mestre lhe aconselhava:

— É bom estudar. Quanto mais estudar melhor. É bom para a matéria e bom para o espirito.

Assim, estimulado pelo Velho Mestre, Ladi voltou a estudar com 27 anos de idade. Graduou-se em Economia (1979-1983) e, depois, em Direito (1987-1991).

Os filhos continuaram a nascer: Ladi é pai de 7 filhos, sendo 2 homens, o Laudivon e o Estanislau, e 5 mulheres, Lisandra, Samia, Ludiana, Alice e Yasmin.

Com formação em ensino superior, as oportunidades de trabalho se ampliaram para Ladi: foi funcionário e advogado do Banco do Brasil​; economista da Secretaria Estadual de Planejamento e, logo após, serventuário da Justiça Federal do Acre, onde trabalhou por muitos anos como Analista Judiciário e aposentou-se em 2009.

Aposentou-se do Serviço Público, porém, Ladi continua em plena atividade. Ele “descansa carregando pedras”, como diz o ditado. Pois, mesmo em idade provecta, exerce a advocacia e se dedica a atividade de produtor rural.

Salua e filhas

Salua, Ludiana e Lisandra

Ladislau Nogueira e Raimundo Irineu Serra

Ladi é um ótimo contador de causos do Mestre Irineu. Tem um grande repertório e, na sua narrativa, demonstra fidedignidade, qualidade ímpar. Por diversas vezes testemunhou os poderes transcendentais daquele homem simples do povo, chamado Raimundo.

Ladi testifica:

—Esse Mestre maravilhoso que nós seguimos há 51 anos, não era um mestre de brincadeira, era um mestre verdadeiro. Como ele mesmo falou, “as palavras que eu disser estão escritas no astral, para todo mundo ver”, ele sabe o ontem o hoje e o amanhã, ele sabe a minha vida. O Mestre Irineu não nos deixa com dúvida. Ele sabe tudo, nos responde tudo, esse mestre está em Deus e Deus é tudo.

(Convido os preclaros leitores a assistirem o tocante depoimento de Ladislau Nogueira na AYA2016, disponível no Youtube, ao término deste breve texto.)

Ladislau Nogueira e a Doutrina do Daime

Como já foi dito, o jovem Ladislau Nogueira se tornou um “soldado da Rainha” (adepto da Doutrina do Daime) aos 19 anos de idade e, nesta longa trajetória de 51 anos de discípulo do Mestre Juramidã, exerceu diversas funções naquela sociedade religiosa.

Uma atividade que Ladi relembra saudosamente é de quando ele fazia parte da equipe de Feitio de Raimundo Ferreira, o seu Loredo.

Quando seu Loredo e dona Alzira, sua esposa, ainda estavam aqui em vida de matéria, eu, Juarez Bomfim, costumava visitá-los, acompanhando o amigo Ladi e grande comitiva. Eu testemunhava então um carinhoso e emocionante reencontro, como se fosse entre pai e filho.

De um lado, um velhinho bem velhinho, o Soldado da Borracha Raimundo Ferreira (Loredo), alegre e efusivo de rever a um filho; do outro, um zeloso senhor, que tratava aquele idoso como se fora seu pai.

No curso de mais de 5 décadas de seguidor da Doutrina do Daime, uma característica de Ladi é de ter relação de amizade e consideração com todas as casas ayahuasqueiras do Acre — pois antes de tudo Ladislau Nogueira é um gentleman.

Um amigo comum certa vez me prestou o seguinte depoimento:

— A primeira vez que tomei Daime foi na Colônia 5 Mil, das mãos do Padrinho Sebastião. Fui levado por Ladi para um trabalho de Hinário. Acontece que, no trajeto para a Colonha, o carro atolou, tivemos que descer, empurrá-lo… e de novo… e mais uma vez…

Quem já circulou pelos ramais da zona rural de Rio Branco, em época de chuva, sabe muito bem o que é isso.

Bem, quando chegaram na Colônia 5 Mil, o trabalho de Hinário já estava se encerrando. Sebastião Mota de Melo, Padrinho Sebastião (7.10.1920 – 20.1.1990) alegrou-se com a chegada do seu jovem amigo e comitiva.

— Ladi, que alegria! Meninas, em homenagem a Ladi e seus amigos, vamos abrir outro Hinário!

Dando ordem as “puxantes” e todos os demais que estavam enfileirados no Salão Dourado, que o Trabalho de Hinário continuaria, em honra aos visitantes.

Ladislau Nogueira é Maçom Grau 33, e foi colega de loja maçônica de Manuel Hipólito de Araújo (10.6.1921 – 17.8.2000), dirigente daimista da linha da Barquinha, que lhe tinha muita consideração e o chamava sempre pelo sobrenome: “Nogueira”.

Ladi foi colega e amigo de Sérgio, filho já falecido de Antônio Geraldo da Silva (25.5.1922 – 28.7.2000), fundador do Centro Espírita Daniel Pereira de Matos (Barquinha). A amizade e consideração continua com o sucessor do Mestre Conselheiro Antônio Geraldo, o presidente Antônio Geraldo da Silva Filho.

Assim é também a relação de respeito, consideração e amizade de Ladi com as demais comunidades ayahuasqueiras do Acre e seus dirigentes, que não enumerarei a todos.

Ladislau Nogueira participou ativamente das comemorações do Centenário do Mestre Irineu, em 1992. Após aqueles memoráveis festejos, com um numeroso grupo de amigos visitou a Vila Céu do Mapiá, em plena floresta amazônica, a convite do seu compadre, Padrinho Alfredo Gregório de Melo, presidente do Cefluris (atual Iceflu).

Em 1994, Ladislau Nogueira funda o Cicluris — Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Raimundo Irineu Serra, e assume a presidência do mesmo, tendo Tufi Rachid Amim (10.5.1952 – 03.5.2010) como vice-presidente e Luiz Mendes do Nascimento como Mestre Conselheiro.

Em 1998 o Cicluris é rebatizado de Ciclujur – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Juramidã – com a mesma composição da diretoria: Ladislau Nogueira, presidente; Tufi Amim, Vice-Presidente, enquanto que o Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento adentrava a floresta para firmar a sua Fortaleza.

Luís Mendes, Ladi e Salua

Luís Mendes, Ladi e Salua

Cecília Maringoni e Salua Nogueira

Cecília Maringoni e Salua Nogueira

Juarez Bomfim, Tufi Amim, Rossilan e Ladi

Juarez Bomfim, Tufi Amim, Rossilan e Ladi

Ladislau Nogueira e Juarez Bomfim

No ano da graça de 2002, com mais 2 amigos viajei à Capital do distante Estado do Acre, para conhecer o berço da Doutrina do Daime. Uma amiga nos recomendou que conhecêssemos Ladislau Nogueira, presidente de um Centro daimista, e o apresentou como alguém que começara a sua vida como um humilde caminhoneiro, mas pela graça recebida do Mestre Juramidã se tornara um próspero jurisconsulto.

Fomos muito bem recebidos no sagrado recinto do Ciclujur, e na noite de São João, onde com toda honra e pompa se cantava o Hinário O Cruzeiro Universal, bailando e tocando o meu maracá, naquele Salão Dourado recebi o meu perdão e a graça da cura pelo próprio Mestre Raimundo Irineu Serra, Rei Juramidã, me revelando todos os meus defeitos e me mostrando o caminho do Amor, da Verdade e da Justiça — numa relação pessoal e mística com a Divindade.

Ao término da função religiosa, quando com sua voz baixinha o presidente Ladi faz uma breve preleção, testifiquei o seu aparelho físico sendo instrumento da Divindade, quando ele nos ensinava:

— Quando o nosso Mestre diz “eu subi serra de espinhos, pisando em pontas agudas”, ele nos revela que a “serra de espinhos” é a nossa língua. Portanto, irmãos, cuidado com o que falamos, cuidado com o que dizemos.

Desde este dia, eu, Juarez, a minha amada consorte Cecília e nossa filha Barbara passamos a ter um irmão amigo no Querido Planeta Acre: Ladislau Nogueira, a esposa Salua e sua linda família.

Hoje a Vila Irineu Serra (Rio Branco – Acre) estará encantada, em festa. De toda honra e homenagens é digno o sr. Ladislau Nogueira na data de comemoração dos seus 70 Anos de existência.

Viva o Aniversariante!

Depoimento de Ladislau Nogueira na AYA2016, aos 10:50 minutos do Vídeo: 

Série “Ayahuasca: Luz da floresta” – Ladislau Nogueira:

Publicidade

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]