Produção audiovisual de mulheres movimenta espaços culturais em Cachoeira

Cena do documentário 'Chega de Fiufiu'.

Cena do documentário ‘Chega de Fiufiu’.

Exibição de curtas metragens. Mostra itinerante de longas. Oficinas. Intercâmbio artístico. Performances. Rodas de conversa. É de tudo isso que será feito a Mostra MAR – Mulheres Ativismo e Realização, um evento voltado para visibilizar a produção e exibição audiovisual de realizadoras brasileiras em diferentes espaços culturais da cidade de Cachoeira e distritos, de 16 a 20 de maio de 2018. A iniciativa é uma realização da Mulher de Bigode Filmes, em parceria com o Coletivo Gaiolas e é viabilizada por meio do apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura do Estado da Bahia e do Governo do Estado da Bahia.

Com o desejo de ser uma grande tela para a valorização da produção audiovisual de mulheres em sua diversidade que surge a Mostra Mulheres Ativismo e Realização – MAR, como um território de acesso às narrativas contemporâneas desenvolvidas por mulheres. A MAR é um espaço para projetar filmes realizados por mulheres, em tempos em que avanços e conquistas convivem com retrocessos e crescente conservadorismo. Durante o evento, será garantido o espaço para valorizar, difundir e promover as narrativas contemporâneas realizadas por mulheres em sua diversidade.

O evento já começa com a exibição do filme O Processo, de Maria Augusta Ramos, que documentou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e ganhou grande repercussão internacional e nacional. O filme foi premiado como ‘Melhor Longa-Metragem’ no festival IndieLisboa, em Portugal. A diretora passou meses em Brasília documentando cada sessão, cada ato, cada episódio que culminou na retirada de Dilma da Presidência da República.  A sessão acontecerá na cerimônia de abertura Praça Teixeira de Freitas, com acesso livre do público.

A MAR recebeu 332 curtas metragens de mulheres brasileiras, 23 foram selecionados pela curadoria da mostra, apontando para uma produção diversa e que passeia por temas como a solidão da mulher negra, ancestralidade, transfeminismo, e cinema experimental. Desse número levantado, 41,1% das obras inscritas são documentários, 33 % são filmes de ficção. A maior parte dos filmes desenvolvidos foram realizados em 2017: 54,9% curtas metragens. Do conjunto das obras inscritas, 70,7% foram realizadas de modo independente, sem acesso aos mecanismos de financiamento. Também foi importante visualizar o perfil das realizadoras: 21,5% são do Rio de Janeiro e 16,2% da Bahia. Desse cenário de diretoras, 60,1% são brancas e 21,6% são negras. A imensa maioria das inscritas são ceratogêneas (pessoas cis) (97,8%) e heterossexuais (49,1%).

Os filmes selecionados são narrativas realizadas por mulheres de diversos territórios do país, filmes festejados no circuito nacional e internacional de festivais nos últimos dois anos, somado a obras de realizadoras estreantes, com filmes que nascem agora, na urgência, em meio as necessidades de transformação e reexistência dos últimos acontecimentos. Dentre os curtas selecionados, uma parcela significante é de realizadoras negras: Em busca de Lélia, de Beatriz Vieirah (BA), Travessia, de Safira Moreira (RJ), Fotográfica, de Tila Chitunda (PE), Do que aprendi com minhas mais velhas, de Fernanda Onisajé e Susan Kalik / Solidão da mulher preta: Fabíola Silva (BA) / experimentando vermelho em dilúvio, de Michele Mattiuzzi, Maria, de Elen Linth e Riane Nascimento (AM). A temática LGBTTQIA também está bem representada:  Azul vazante, de Juliana Alqueres (SP), Transvivo, de Tati W. Franklin (ES), Maria: Elen Linth e Riane Nascimento (AM), e As verdade de Ale em nós, de Juslaine Abreu-Nogueira (PR).

Para a curadoria da mostra, composta por Amaranta Cesar, Cintia Cruz, Daniela Galdino, Laís Lima e Luara D., a MAR cumpre um papel contra-hegemônico na conjuntura política e social do Brasil: “num país que bate recordes mundiais em extermínios motivados por ódio – lgtbfobia, misoginia, racismo – ergue-se esse corpo robusto, diverso, desafiador e resistente de filmes (e) de mulheres, como um punho cerrado para o alto, como um coro de multidão a romper o silêncio do golpe, como um sopro de liberdade a contrariar os arames farpados do patriarcado, como um passo de dança na cara do fascismo, como palavras de amor a desafiar a morte e a dor. Somos muitas e nossos corpos estão vivos, são inventivos e seguem firmes na luta”.

Mulheres no Audiovisual Brasileiro

Tantas vezes estampadas nas telas e cartazes, nem sempre de um jeito que aponta para como são na vida real, as mulheres estão muito longe de ocupar uma posição paritária com os homens no campo do audiovisual, uma arte ainda sobretudo masculina e branca. O que sem dúvida impacta nas histórias que são contadas e seus recortes, bem como na construção de um lugar de reconhecimento dentro do mercado e acesso a recursos. De acordo com dados da Ancine, das 2.583 obras brasileiras lançadas no circuito comercial, no ano de 2016, 17% foram dirigidas e 21% foram roteirizadas por mulheres, embora sejamos mais da metade da população brasileira (mais especificamente 51%). Dentro desse percentual, nenhuma mulher negra foi elencada. Desse modo, é perceptível que arte e a cultura reproduzem as mesmas desigualdades presentes no conjunto da sociedade e criar espaços de visibilidade e reconhecimento da produção de grupos minoritários é uma urgência para alterar a realidade.

Mulheres, Ativismo, Realização

Dentro do evento acontece a mostra ‘Mulheres Itinerantes’, um evento que exibirá documentários de grande importância para o cinema nacional em três comunidades cachoeiranas. Ao passear por outras comunidades, fora do centro, onde pulsa a vida universitária, a iniciativa promove novas rotas de circulação dos filmes, é propor o audiovisual como linguagem potente para a discussão de questões sociais fundamentais na vida das pessoas, especialmente dos setores marginalizados pela sociedade.

O primeiro longa é Arpilleiras: bordando a resistência. O documentário trata da história de 10 mulheres de diferentes regiões do Brasil, que se organizam para denunciar as condições de vida de seu povo e se reconstruir enquanto sujeitos protagonistas de suas próprias histórias. A produção é realizada pelas mulheres do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens e abre a mostra na quinta-feira, dia 17 de maio, em Tabuleiro da Vitória, às 18 horas. ‘O caso do Homem Errado’, da cineasta Camila de Moraes, segunda diretora negra a entrar em circuito nacional na história do audiovisual brasileiro. O filme que se destaca nas salas de cinema de todo país chegará a Santiago do Iguape, no dia 18 de maio, às 19 horas e narra um caso marcante, mas aborda um problema urgente e fundamental de toda a população brasileira: o genocídio do povo negro. A cineasta estará ao lado da roteirista e produtora Mariani Ferreira para fazer uma conversa com a comunidade sobre o genocídio e a luta contra o racismo. ‘O caso do homem errado’ é um marco e uma referência forte na disputa por representatividade no cinema nacional, pela sua repercussão, pelo conteúdo e sobretudo pelo protagonismo do olhar negro e feminista em um cenário tão marcado pela hegemonia branca e masculina. A programação será encerrada na Orla da Faceira, no dia 20 de maio, às 19 horas com a estreia do documentário Chega de Fiufiu, de Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão, resultado de uma das maiores campanhas dos últimos períodos contra o assédio e a violência contra as mulheres, abordando como a articulação das mulheres em torno destas campanhas têm potencial de incidir sobre as inúmeras violências sexistas e gerar resistência nas ruas e nas redes. Na oportunidade, acontecerá um bate papo com a presença das diretoras e de uma das personagens do longa Raquel Carvalho.

Intervenções

Por meio de uma convocatória aberta publicamente, a MAR selecionou seis artistas da cena da performance, das artes visuais, da dança e da música que trarão para a Mostra a convivência entre diferentes linguagens artísticas. São elas Marie Thauront, Fernanda Abreu Paim, Val Souza, Liz Under, Udimila Oliveira e Brena Elem, do VisiOOnárias que irão se espraiar por diferentes pontos da cidade de Cachoeira. Além disso, contaremos com a participação super especial de Ana Beatriz Almeida, que irá apresentar a performance ‘Sobre o Sacrifício Ritual’ na abertura da mostra, no dia 16, e da apresentação de Street Dance ‘Poder Feminino’, do grupo EX13 (Cachoeira) no encerramento, dia 20.

Duas rodas de discussão reunirão nomes atuantes no audiovisual brasileiro e da abertura para produções lideradas por mulheres. No dia 17, às 16:30 horas, na Taberna Dom Pepe, ocorrerá um debate ‘Por um cinema plural e político: a busca por equidade nas produções’, organizada pelo coletivo Gaiolas, que contará com a participação de Mariani Ferreira (Roteirista e Produtora Executiva do filme O Caso do Homem Errado), Bruna Leite (Mulheres no Audiovisual em Pernambuco – MAPE) e Carine Fiúza (União de Mulheres do Audiovisual Paraibano – UMA/PB)  e Luana Rufino (Superintendente de Análise de Mercado | SAM – ANCINE), sob mediação de Ohana Sousa (Coletivo Gaiolas). No dia 18, no mesmo horário e local, teremos a mesa ‘Nossa forma de ver, olhar e fazer: Como o olhar intervém nas narrativas construídas?’, organizada pela Rede de Cinema Negra e Rebento Produções. A mesa, que propõe o fortalecimento da identidade negra através do audiovisual, contará com a participação de Érica Sansil (diretora/RJ), Íris de Oliveira (documentarista/BA), Lílis Soares (diretora de fotografia/RJ), Stella Zimmerman (produtora executiva/PE), e mediação de Clarissa Brandão (produtora e diretora/BA).

Os quatro dias da Mostra MAR serão recheados de atividades de formação e aprimoramento da linguagem audiovisual.  A oficina Projetar será mediada por Maiana Brito (realizadora e pesquisadora) e pretende fazer uma discussão sobre a interação entre o audiovisual e o ambiente educacional, com foco nas tecnologias da informação. A oficina de roteiro para documentário terá o foco na escrita criativa e estratégias documentais, e será conduzida por Letícia Simões, mestra em Cine-Ensayo pela EICTV (Cuba) e em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF.  Contando com a mediação da fotógrafa, militante e realizadora Luara D, também teremos a oficina de Vídeo-crônica, que irá trabalhar a construção de histórias a partir das próprias narrativas e equipamentos das mulheres presentes, com uma metodologia inspirada no curta-metragem ‘Sô isso não, Dona’. As oficinas são parte essencial da programação e prometem ser um espaço de muita troca e crescimento para as participantes.

Realizadoras:

Mulher de Bigode – Realização

“Mulher de bigode, nem o diabo pode!” é desse ditado popular, originado e comumente usado no Nordeste como um sinônimo de mulher guerreira e retada que nasce a identidade e o conceito de A Mulher de Bigode Filmes. Uma produtora cultural focada em serviços para Cinema e Audiovisual, como um território de resistência e representação feminista e lésbica na realização tecno-artística.  Localizada em Cachoeira, a produtora se dedica a projetos alinhados com as questões relativas à diversidade de gênero.

Camila Camila – Idealização

É uma cineasta graduada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e uma das fundadoras do Coletivo Gaiolas – Coletivo de Cineastas Feministas do Recôncavo da Bahia. É sócia da Mulher de Bigode Filmes e Produções. inicia em 2001 como arte-educadora em escolas públicas, centros referência social e grupos de apoio a mulheres no interior do estado da Bahia. No cinema encontra no documentário uma janela para transpor as inquietudes do gênero, do corpo e seus entornos. Busca em seus filmes o diálogo de gênero e identidade nas formações familiares através da autorrepresentação, em meio as linguagens do cinema híbrido. Atua como documentarista, arte-educadora/oficineira, cenógrafa, figurinista e diretora de arte. Em 2013 dirigiu o longa-metragem documentário Olho A Dentro – Povo Cigano. Em 2014 dirigiu juntamente com seu coletivo o documentário curta-metragem No seu giro, corpo leve ‘, ambos selecionados e premiados em festivais baianos e nacionais. Em 2015 dirige Ana, curta metragem documentário que carrega questões de corpo, gênero e identidade; selecionado e premiado em festivais de cinema nacionais e ibero americanos. Em 2017, idealiza e coordena o Cine Trans Territorial, projeto itinerante que oferta gratuitamente workshop de realização cinematográfica junto às comunidades LGBTTQIA. Atualmente assina a coordenação artística e de programação da M A R – Mulheres Ativismo e Realização, evento que ocorrerá em Cachoeira e visa o fortalecimento das bases de resistência; da valorização, difusão e promoção das narrativas contemporâneas realizadas por mulheres. É premiada regional e nacionalmente como diretora e diretora de arte.

Letícia Ribeiro – (idealização)

Formada em administração de empresas (2004-2008), mas nunca quis trabalhar em banco. Escolheu Cachoeira para se formar em Cinema (2009-2014), tendo vivência na área de documentário e nos estudos e práticas feministas. Começou sua carreira como estagiária de produção audiovisual no Estúdio do Vila (TVV, 2008) e desde então vem realizando diversos curtas-metragens independentes e trabalhos para TV. Também fundadora do coletivo de mulheres Benditas Tetas (2009), atua como diretora, fotógrafa, som, montadora, roteirista nas madrugadas vagas e administradora quando lhe convém. Recentemente, realizou e produziu o Cine Trans Territorial, projeto itinerante que oferta gratuitamente workshop de realização audiovisual para a comunidade LGBTTQIA. Fez a direção de fotografia, montagem e trilha sonora do curta-metragem documentário ‘Ana’ (Camila Camila, 2015); a co-direção do curta-metragem ‘No seu giro, corpo Leve’ (Coletivo Gaiolas, 2014), a direção de fotografia de Olho A´dentro – Povo Cigano (Camila Camila) a co-direção do curtíssima metragem ‘Sem Títulos’ (2012), vencedor do prêmio ABCV Orlando Senna de Melhor Documentário do XVI Festival 5 minutos, prêmio Melhor documentário do II Cine Virada; e do prêmio melhor curta LGBT do VII Curta Taquary – Festival Internacional de Curta-metragem.

Coletivo Gaiolas – (coordenação)

O Gaiolas surge em 2011 procurando o espaço de realização da mulher no audiovisual. Formado por três mulheres com realidades e vivências diferentes e com afinidades de discurso, as cineastas Camila Camila, Letícia Ribeiro e Ohana Sousa; trabalham a partir da auto representação questões que englobam personagens do cotidiano, inquietações sobre a marginalização dos corpos, construção coletiva sobre questões de gênero, cinema QUEER, diversificação de linguagem, formação de público, distribuição independente, arte educação e produção cultural.

Agenda

O quê: MAR – Mulheres Ativismo e Realização

Quando: 16 a 20 de maio

Onde: Cachoeira

Programação completa disponível no site: www.marderealizadoras.com

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