Sou um construtor de sonhos | Por Luiz Inácio Lula da Silva

Ex-presidente Lula discursa em frente à Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de se entregar à Polícia Federal (PF), em 7 de abril de 2018. Dos braços do povo para o cárcere da burguesia despótica, autocrática e autoritária, Lula entra para história como líder democrático e mártir da causa trabalhista.

Ex-presidente Lula discursa em frente à Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de se entregar à Polícia Federal (PF), em 7 de abril de 2018. Dos braços do povo para o cárcere da burguesia despótica, autocrática e autoritária, Lula entra para história como líder democrático e mártir da causa trabalhista.

Querido companheiro Vagner, presidente da CUT. Querido companheiro Aloizio Mercadante, ex-senador, ex-deputado federal, ex-ministro da Educação, ex-ministro da Casa Civil da presidenta Dilma – se eu tivesse tantos títulos assim eu seria presidente da República. Nosso companheiro Guilherme Boulos, que está iniciando uma jornada sendo candidato à presidência pelo Psol, é um companheiro da mais alta qualidade e vocês têm que levar em conta a seriedade desse menino. Eu digo menino porque ele só tem 35 anos de idade e, quando eu fiz a greve de 78, eu tinha 33 anos e consegui através da greve ajudar a criar um partido e virar presidente. Você tem futuro, meu irmão. É só não desistir nunca.

Agora quero cumprimentar essa garota bonita, garota militante do PCdoB que está fazendo a sua primeira experiência como candidata a presidenta. Eu acho um motivo de orgulho e perspectiva de esperança deste país ter gente nova disposta a enfrentar a negação da política, assumindo a política e dizendo “nós queremos ser presidentes da República para mudar a história do país!”

Quero agradecer a companhia dessa mulher. Possivelmente a mais injustiçada das mulheres que ousaram fazer política neste país. Acusada pelo jeito de governar. Acusada por não saber conversar. Acusada de não saber fazer política, mas eu quero ser testemunha de vocês. A Dilma foi a pessoa que me deu a tranquilidade de fazer quase tudo que eu consegui fazer na presidência da República pela confiança, pela seriedade e pela qualidade e competência técnica da Dilma. Eu sou grato de coração porque o nosso governo não teria sido o que foi se não fosse a companheira Dilma. Por isso, Dilma, você sabe que eu serei eternamente grato e compartilho o meu sucesso na presidência com vossa excelência independentemente do que aconteça neste mundo.

Quero cumprimentar meu querido companheiro Fernando Haddad, que viveu o melhor período de investimento na educação brasileira neste país. Quero cumprimentar o meu companheiro Celso Amorim, que certamente foi o mais importante ministro das relações exteriores que este país já teve, que colocou o Brasil como protagonista mundial durante todo o nosso governo.

Quero cumprimentar o nosso companheiro Ivan Valente, deputado pelo Psol, companheiro que está aqui nos apoiando.

Quero cumprimentar o nosso companheiro extraordinário João Pedro Stedile, presidente, coordenador do Movimento dos Sem Terra.

Quero cumprimentar o companheiro Juliano, presidente do Psol.

Quero cumprimentar o nosso querido escritor Fernando Morais, que está escrevendo a biografia do nosso governo e nunca termina.

Quero cumprimentar o nosso querido companheiro Paulo Pimenta, líder do PT, o homem que tem o blog do deputado mais importante de Brasília e o cidadão que melhor tem enfrentado o Moro e a Operação Lava Jato naquilo que são os efeitos dela. Parabéns, companheiro Pimenta.

Quero cumprimentar o índio mais esperto deste país, o governador do Piauí, companheiro Wellington Dias, que está cumprindo o terceiro mandato e pelo andar das pesquisas está a caminho de cumprir o quarto mandato.

Quero cumprimentar aqui o companheiro Emídio, tesoureiro do PT, ex-prefeito de Osasco, que tem trabalhado incansavelmente pra gente recuperar o papel do PT na história deste país.

Quero cumprimentar o companheiro Orlando Silva, deputado do PCdoB.

Quero cumprimentar o nosso companheiro Índio, da Intersindical, companheiro de muita qualidade.

Quero cumprimentar o companheiro Adilson da CTB, que é muito importante pra causa sindical.

Quero cumprimentar a nossa companheira Gleisi Hoffmann, a nossa querida presidenta do nosso partido.

Quero cumprimentar o companheiro Luiz Marinho, que foi presidente do PT, ministro do Trabalho, ministro da Previdência. Vou contar duas coisas do Marinho. O Marinho foi catador de algodão, catador de café e catador de amendoim em Santa Fé. O Marinho foi pintor na Volkswagen, foi presidente deste sindicato, da CUT, e foi o melhor prefeito que São Bernardo já teve e agora é nosso presidente estadual.

Quero cumprimentar o nosso senador Lindbergh, que eu conheci na campanha para tirar o Collor, tentei tirar ele do PCdoB para levar para o PT, mas a minha relação de amizade com o João Amazonas era tão forte que eu não tive coragem de conversar com ele.

Quero chamar aqui o presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, companheiro Vagner e o companheiro Moisés.

Ah, quero cumprimentar também o nosso vereador e futuro senador Eduardo Suplicy.

Eu pedi para vir aqui o companheiro de Sergipe, vice-presidente do PT que tem a missão de coordenar as caravanas da cidadania por todo o território nacional e vocês tem acompanhado pela internet o companheiro Marcio Macedo.

Eu pedi para chamar aqui dois sindicalistas. Porque eu nasci neste sindicato. Quando eu cheguei aqui isso era um barraco, esse prédio foi construído na nossa diretoria. Aqui, para vocês saberem, eu fui diretor de uma escola que tinha 1080 alunos, vocês acham que eu fui só torneiro mecânico então podem dizer fui diretor de escola.

Aqui está o Paulão, metalúrgico e da secretaria sindical do PT. Wagner, eu queria aproveitar que vocês estão aqui para dizer que parte da democracia brasileira a gente deve a este sindicato a partir de 1978. Aqui foi minha escola. Aqui aprendi sociologia, economia, física, química e aprendi a fazer política.

Quando fui presidente deste sindicato, as fábricas tinham 140 mil professores que me ensinavam a fazer as coisas. Toda vez que eu tinha dúvida eu ia perguntar pra peãozada. Na dúvida não erre. Pergunte. E o Wagner está cedendo este prédio para a nossa campanha. O Moisés aqui é um companheiro que nunca se negou a contribuir com o movimento social. Ele nunca negou absolutamente nada. Então eu quero uma salva de palma para estes companheiros que são os sustentáculos do nosso governo.

Este sindicato tem mais de 280 diretores. Para ser diretor tem que ser eleito pelo chão de fábrica. Se a gente fizesse isso em todo sindicato do Brasil, a gente teria muito menos pelego. Eu fiz questão de citar eles porque muitas vezes a pessoa planta o alimento, lava e a gente não sabe quem é.

Eu confesso que vivi os meus melhores momentos políticos aqui. A minha matrícula é 25886 de setembro de 68. De lá para cá eu mantenho uma relação maior do que qualquer presidente que tem aqui. Vicentinho já foi presidente, Menegueti também, Guiba, Zé Nobre, agora o Wagnão e por todos eles eu sou tratado como ainda fosse presidente pela relação.

Eu queria dizer para vocês que eu estou contando isso para tentar chegar ao que quero dizer. Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias e nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi dos melhores. E eu tinha um chão de fábrica com 300 trabalhadores. E o acordo era bom. Eu resolvi levar o acordo pra assembleia e convenci a peãozada a ir mais cedo. E eu queria que eles bebessem um pouquinho porque a gente fica mais ousado, mas eles bebiam uma garrafa.

Nós começamos a colocar o acordo em votação. Mas 100 mil não aceitavam. Era o melhor. A gente não perdia décimo terceiro, a gente não perdia nada. Mas a peãozada queria 83 ou nada.

Olha tá aqui o senador do Acre, Jorge Viana que eu não vi porque é baixinho.

Olha para falar em nome dos artistas eu quero chamar aqui o Osmar Prado. E tem a mulherada de Belém. Mas eu citei o Osmar, que é de uma qualidade extraordinária. O que Deus não deu de tamanho para ele deu de inteligência. E ele já fez papéis extraordinários. Mas tem um que ele era motorista chamado de Tabaco. E eu acho que ele tem uma posição política.

Eu ia dizendo que nós não conseguimos aprovar a proposta que eu considerava boa. E eu ia na porta e ninguém me ouvia. E eu vi um cartaz que dizia: “ Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores”. Nós levamos um ano para recuperar o prestígio. E eu fiquei pensando com ares de vingança: os trabalhadores podem fazer 100 dias de greve que eles vão até o fim, pois eu vou testá-lo em 80. E a gente fez a maior greve daquele tempo, 41 dias de greve, eu fui preso no 17° dia e os trabalhadores começaram depois de alguns dias a furar a greve. Eles falavam para eu acabar com a greve. Eu dizia que os trabalhadores que vão decidir. Mas eles não aguentaram.

Mas é engraçado que na derrota a gente ganhou muito mais do que quando a gente ganhou economicamente. Isso prova que o que a gente ganha não é só dinheiro.

Agora estamos quase que na mesma situação. Estou sendo processado e eu tenho dito claramente. O processo do meu apartamento, eu sou o único ser humano que sou processado pelo apartamento que não é meu. E eles sabem que o Globo mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal da Lava Jato quando fez o inquérito mentiu que era meu. O Ministério Público mentiu dizendo que era meu. E eu achei que o Moro ia resolver, mas ele mentiu dizendo que era meu. E me condenou a nove anos de cadeia.

É por isso que eu sou um cidadão indignado, porque eu já fiz muita coisa com os meus 72 anos, mas eu não os perdoo por ter passado à sociedade a ideia de que sou um bandido. Deram a primazia de fazer um pixuleco. Deram a primazia dos bandidos chamaram a gente de petralha. Deram a primazia dos bandidos viverem negando a política neste país.

E eu digo todo dia: nenhum deles tem coragem ou dorme com a consciência tranquila da honestidade e da inocência que eu durmo. Eu não estou acima da justiça. Se eu não acreditasse na justiça eu não teria criado partido, eu teria feiro a revolução. Eu acredito numa justiça justa, numa justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, na prova concreta do crime. O que eu não posso admitir é um procurador que fez um PowePoint e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil e o Lula, por ser a figura mais importante do partido, é o chefe. Portanto, se o Lula é o chefe eu não preciso de provas, eu tenho convicção.

Eu quero que ele guarde a convicção dele para os comparsas dele, para os asseclas dele e não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo prova. Estaria de rabo preso e de boca fechada torcendo para a imprensa não falar o nome dele.

Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho milhares de páginas de jornais me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes. Eu tenho mais as rádios do interior.

O que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro. Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia. Eu queria que ele me mostrasse alguma coisa de prova. Eu já desafiei os juízes do TRF-4 que eles fossem para um debate na universidade que eles quisessem para provar qual é o crime que eu cometi neste país.

Sou um construtor de sonhos. E há muito tempo atrás eu sonhei que seria possível governar este país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões nas universidades, criando milhões de empregos neste país.

Eu sonhei que era possível um metalúrgico sem diploma universitário cuidar mais da educação do que os diplomados que governaram este país.

Eu sonhei que era possível diminuir a mortalidade infantil levando leite, feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia.

Eu sonhei que era possível levar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades deste país para que a gente não tenha juízes e procuradores apenas da elite. Daqui a pouco nós vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascido em Itaquera, nascido na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, da CUT, formados.

Eu cometi este crime que eles não querem que eu cometa mais. É por conta desses crimes que eu tenho 10 processos contra mim. Eu cometi o crime de botar negro na universidade, fazer pobre comer carne, pobre comprar carro, viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura e ter sua casa própria. Se esse foi o crime que eu cometi, eu quero dizer que eu vou continuar sendo criminoso. Vou fazer muito mais.

Em 1986, eu fui o deputado constituinte mais votado da história do País. E nós fomos descobrir que dentro do PT, havia uma desconfiança dentro do PT de que só tinha poder quem tinha mandato. Eu não citei o Humberto Costa, a Fátima será a futura governadora do Rio Grande do Norte, esse aqui é o que mais denuncia a Lava Jato, o Rossetto foi ministro e talvez vá ser o governador do Rio Grande do Sul. Aqui está a Jandira, que é extraordinariamente combativa.

Então, companheiros, quando eu descobri que só tinha valor no PT quem era deputado eu deixei de ser deputado porque eu queria provar que seria a figura mais importante do PT sem ter mandato. Porque se alguém quiser ganhar de mim no PT, só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu.

Nós agora estamos num trabalho complicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família, os meus filhos, o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela.

Porque essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma, e não tem noção do que sente uma mãe ou um pai quando vê um filho atacado.

Eu então resolvi levantar a cabeça. Não pensem que eu sou contra a Lava Jato.

Se pegar bandido tem que pegar e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós a vida inteira dizíamos: só prende pobre, não prende rico. Eu quero que continue prendendo rico. Mas qual é o problema? Que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa porque no fundo você destrói as pessoas, a imagem das pessoas e depois os juízes vão julgar e dizem “eu não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”.

Quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vá ser deputado e escolha um partido e vá ser candidato. Ora, a toga é um emprego vitalício. O cidadão tem que votar apenas com base nos autos dos processos.

Eu acho que ministro da Suprema Corte não deveria dar declaração de como vai votar. Nos Estados Unidos você não sabe em quem votou para que ele não seja vítima de pressão. Então juiz tem que ter a cabeça mais fria, mais responsabilidade na hora de votar. O Ministério Público é uma instituição muito forte. Por isso esses meninos, que fazem um curso de direito e depois fazem três anos de concurso porque o pai pode pagar, deveriam conhecer um pouco de política para saber o que eles fazem na sociedade.

Tem uma coisa chamada responsabilidade. Eu fui presidente e indiquei quatro procuradores e fiz discurso em todas as posses. E eu dizia: quanto mais forte a instituição, mais forte as pessoas têm que ser. Você não pode condenar as pessoas pela imprensa para depois você julgá-las.

Quando eu fui prestar depoimento lá em Curitiba, eu disse para o Moro: você não tem condições de me absolver porque a Globo está exigindo que você me condene e você vai me condenar.

Eu acho que tanto o TRF-4 quanto o Moro, a Lava Jato e a Globo têm um sonho de consumo: primeiro o golpe não terminou com a Dilma, só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não pode ser candidato a presidente da República em 2018. Não é porque eu vou ser eleito. Eles não querem que eu participe.

Eles não querem o Lula de volta porque na cabeça deles pobre não pode ter direito. Pobre não pode comer picanha, andar de avião, fazer universidade. Pela lógica deles pode só pode comer coisa de segunda categoria.

O outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando o tesão da Veja colocando a minha foto na capa. Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha foto preso.

Eles vão ter orgasmos múltiplos. Eles decretaram a minha prisão e deixa eu contar uma coisa: eu vou atender o mandato deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo de errado que acontece neste país foi por minha causa.

Eu já fui condenado a três anos de cadeia porque um juiz em Manaus decidiu que eu não preciso de arma porque eu tenho uma língua felina. Então é preciso fazer o Lula calar porque, se ele não calar, ele vai continuar falando. Está na hora da onça beber água e eles acharam que essa frase era a senha.

Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça. Não deu certo. Agora querem me pegar numa prisão preventiva que é mais grave porque não tem habeas corpus. O Vaccari está preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou 400 milhões e continua preso. Mas eu não vou gastar um tostão.

Porque eles não sabem que o problema deste país não se chama Lula, chama-se vocês, a consciência do povo, o MST, o MTST, tem muita gente. Eles sabem que aquilo que a nossa pastora disse e eu tenho dito: não adianta evitar que eu ande por este país porque tem milhões e milhões de Lulas, Boulos, Manuelas, Dilmas Rousseff para andar por mim.

Não adianta tentar parar as minhas ideias porque elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las.

Não adianta parar os meus sonhos porque quando eu parar de sonhar eu sonharei pela cabeça de vocês.

Não adianta achar que tudo vai parar quando o Lula tiver um infarto porque o meu coração baterá pelo coração de vocês. E são milhões de coração. E não adianta eles tentarem fazer com que eu pare. Porque eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de vocês.

Essa é uma prova: eu vou cumprir o mandato e vocês vão ter que se transformar, cada um de vocês, não vão mais chamar Chiquinha, Joãozinho, Zezinho, todos vocês vão virar Lula e vão andar por este país sabendo o que têm que fazer. Todo dia eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução. Eles têm que saber que nós vamos fazer uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima de mentiras todo santo dia.

Vocês que são mais inteligentes do que eu poderão queimar os pneus, fazer as passeatas, as ocupações no campo e na cidade. Parecia impossível a ocupação de São Bernardo e amanhã vocês vão ter a notícia de que ganharam o terreno que invadiram.

Eu estava na fronteira com o Uruguai e as pessoas me diziam: Lula, dá uma voltinha ali, só atravessar a rua, finge que vai comprar uísque e vai embora e pede asilo político, você pode ir na Embaixada da Bolívia, do Uruguai, da Rússia, de lá você pode ficar falando. Eu falei que não tenho mais idade e eu vou enfrentá-los olhando no olho. Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que estão me prendendo.

Quanto mais dias eles me deixarem lá, mais Lulas vai nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país. Porque a democracia não tem limite nem hora para a gente brigar. Eu estou fazendo uma coisa muito consciente. Se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou. Mas eu vou porque vão dizer que eu estou foragido. Eu não estou escondido. Eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, que não vou correr e que vou provar a minha inocência.

Eu vou terminar com uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina em Catanduva que dizia: os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais poderão deter a chegada da primavera. E nós queremos a chegada da primavera, nós queremos mais escolas, mais casas, menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro, não queremos repetir a barbaridade que fazem com os meninos negros na periferia deste país, nós não queremos repetir a mortalidade por desnutrição, nós não queremos mais que os jovens não tenham esperança de entrar numa universidade porque este país é tão cretino que foi o último a ter universidade e falaram muito fazer escola e agora eu pergunto quanto custou não fazer há 50 anos atrás.

Eu tenho orgulho de ser o único presidente sem diploma, mas que foi o que mais fez universidade neste país para mostrar que essa gente que não confunda inteligência com anos na universidade. Isso não é inteligência. É conhecimento. Inteligência é quando você sabe tomar decisão. É quando você tem lado. Quando não tem medo discutir com os companheiros o que é prioridade. E a prioridade deste país é garantir que o brasileiro volte a ter cidadania.

Não vou vender a Petrobras, vamos fazer uma nova constituinte e revogar a venda do petróleo. Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa, destruir o Banco do Brasil e vamos fortalecer a agricultura familiar que é responsável por 70 % dos alimentos que comemos neste país.

É com essa crença, de cabeça erguida para chegar ao delegado e dizer: Estou à disposição. E a história vai provar daqui alguns dias que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou, o juiz que me julgou e o Ministério Público que foi leviano comigo.

Eu quero que vocês saibam que se tem uma coisa que eu aprendi é gostar de falar com povo, quando eu pego na mão de vocês, quando eu beijo vocês eu não estou beijando por segundas intenções. Eu estou beijando porque eu dizia que eu vou voltar para onde eu vim e eu sei quem são meus amigos eternos e meus amigos eventuais.

Os de gravatinha agora desapareceram. E quem está comigo são aqueles que estavam comigo antes de eu ser presidente. São aqueles que comiam rabada comigo, frango com polenta, que tomava caldo de mocotó no Zelão. É aquele que tem coragem de invadir um terreno para fazer casa, aqueles que têm coragem.

Vocês vão perceber que eu sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque eu quero provar que eles é que cometeram um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política.

Eu não tenho como pagar a gratidão e o carinho e respeito que vocês têm dedicado a mim durante todo esse tempo. E eu quero dizer a vocês, Guilherme e Manuela. Eu tenho orgulho de ver dois jovens disputando o direito de ser presidente deste país.

Podem ter certeza que este pescoço não vai baixar porque minha mãe fez esse pescoço curto para ele não baixar. Eu vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado. Um forte abraço e muito obrigado por tudo o que vocês fizeram por mim!

*Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT/SP), São Bernardo dos Campo, São Paulo, 7 de abril de 2018.

*Dos braços do povo para o cárcere da burguesia despótica, autocrática e autoritária; líder democrático e mártir da causa trabalhista, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresenta, em 7 de abril de 2018 (sábado), discurso para história, horas antes de se entregar à Polícia Federal (PF), para cumprir pena, decorrente de condenação proferida pelo juiz federal Sérgio Moro, encarregado do Caso Lava Jato, em Curitiba, Paraná.

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