Eleições 2018: O que as pesquisas eleitorais nos dizem? | Por Guilherme Mello

'Eleição sem Lula é fraude', manifestas carregam faixa em protesto.

Lula segue liderando e não perde capital político relevante após prisão.. ‘Eleição sem Lula é fraude’, manifestas carregam faixa em protesto.

Nos últimos dias, três pesquisas político/eleitorais foram divulgadas: a da IPSOS, a Datafolha e a Vox Populi. A leitura dessas pesquisas não é simples e exige que tenhamos em mãos o conjunto de dados por elas produzido, fato que ainda não ocorreu (a Vox, por exemplo, só temos acesso a dados prévios divulgados pela imprensa). Apesar disso, parece haver algumas observações que já são plausíveis a partir dos dados que conhecemos.

1) A sociedade segue dividida quanto a condenação e prisão de Lula.

Na pesquisa IPSOS, 50% são favoráveis a prisão de Lula, contra 46% que são contra. Já na pesquisa Datafolha, são 54% a favor e 40% contra. Apesar dos dados serem um pouco diferentes, o que eles mostram é o mesmo fato: Metade da sociedade brasileira acha que Lula deve ser preso, enquanto praticamente a outra metade (entre 40 e 46%) acha que ele não deve ser preso. Esses dados são ainda mais interessantes quando passamos a perguntas acerca da culpa de Lula. Segundo a IPSOS, 47% acham que a Lava Jato nada provou contra Lula (contra 47% que acham que provou) e 55% acham que a Lava Jato faz perseguição política contra Lula (enquanto 41% discordam). Ou seja, o cenário é de grande divisão em relação a prisão E a condenação de Lula, apontando certa estabilidade em relação a fotografia da sociedade tirada pelo Datafolha em janeiro, quando 53 % dos entrevistados queriam ver Lula preso contra 44% que não queriam.

2) Lula segue liderando e não perde capital político relevante após prisão.

Mesmo após a prisão, Lula segue liderando todos os cenários da pesquisa Datafolha e Vox Populi (a IPSOS não faz cenários eleitorais), com eventuais alterações marginais em suas margens no primeiro turno. De acordo com o Datafolha, Lula lidera com mais da metade de votos do segundo colocado em todos os cenário (31 x 15 em geral), mantendo também vitórias folgadas em eventuais cenários de segundo turno (em janeiro Lula ganhava de 49 X 32 num eventual segundo turno contra Bolsonaro, enquanto em março os dados apontam para uma vitória de 48 X 31). A manchete da Folha, como de costume, induz uma leitura equivocada dos dados da pesquisa Datafolha, pois compara cenários eleitorais diferentes entre janeiro e abril, com diferentes candidatos no páreo, para concluir que Lula perdeu votos. Na pesquisa de janeiro, só havia um cenário com a presença de Joaquim Barbosa, mas sem Marina. Já em Março, todos os cenários tinham Joaquim Barbosa E Marina como candidatos, o que altera significativamente a votação no campo da centro-esquerda. Neste caso, a queda de Lula (de uma média de 36% para a casa dos 31%) não se deve, necessariamente, a perda de capital político, mas ao acréscimo de novas candidaturas ao cenário eleitoral. A pesquisa Vox Populi, ainda não revelada oficialmente, parece apontar para o crescimento marginal do apoio eleitoral à Lula, com um aumento pouco acima da margem de erro. É provável que a Vox Populi tenha mantido alguns cenários iguais aos das pesquisas anteriores, o que explicaria o crescimento de Lula.

3) Lula possui grande capacidade de transferência de votos.

Mesmo no caso de não ter sua candidatura viabilizada, Lula mantém uma capacidade impressionante de transferir votos para um eventual candidato de sua preferência. De acordo com o Datafolha, 30% dos eleitores votariam com certeza em um candidato apoiado por Lula, enquanto 16% talvez votassem nesse candidato. Chama atenção que os mesmos 30% que dizem votar em Lula, afirmam que votariam com certeza em um candidato por ele indicado, o que pode significar que o peso eleitoral de Lula aumentou, com sua capacidade de transferir votos estando próxima a totalidade. Mesmo que fosse verdade que Lula tenha tido uma queda nas simulações de primeiro turno ( o que é altamente questionável, como apontado no item 2), parece evidente que o apoio ao ex-presidente é sólido e sua capacidade de transferir votos se consolidou e é pouco afetado pelos ataques da mídia e da justiça a sua imagem.

4) A direita não herda o eleitorado Lulista.

Outra percepção que se pode extrair das pesquisas é que o centro-direita e a extrema-direita não herdam os votos de Lula. Em um cenário sem Lula e sem Lula ter indicado claramente seu candidato, 2/3 de seus votos vão para Marina e Ciro Gomes, candidatos vistos como de centro-esquerda e ex-ministros do governo Lula. O 1/3 restante basicamente prefere votar em branco ou nulo, mas certamente devem votar no candidato indicado por Lula, conforme analisado no item anterior. O medo de que Bolsonaro herdaria os votos de Lula não se confirmou, conforme já estava apontado em pesquisas anteriores. Parece também que Barbosa pode ser um herdeiro de Lula, mesmo com a presença do presidente na disputa, o que acrescenta um cenário de indefinição caso a candidatura própria do pessebista se confirme.

5) O centro direita não possui candidato competitivo.

Os candidatos do governo e da centro-direita (Alckmin, Meirelles, Temer, Rodrigo Maia e Álvaro Dias) aparecem como pouco competitivos. Alckmin varia entre 6 e 7%, mostrando pouco potencial mesmo em cenários sem Lula, onde perde para Ciro Gomes e Marina Silva. Para um governador e ex-candidato a presidente, seu desempenho é muito fraco e com poucos sinais de crescimento até agosto, quando começa a propaganda político eleitoral, última esperança tucana. Já os candidatos do governo se mostram absolutamente inviáveis eleitoralmente (variando de 1 a 3% mesmo nos cenários sem Lula), dado a péssima avaliação do governo revelada pela pesquisa IPSOS, onde o governo tem 0% de avaliações ótimas e apenas 2% de avaliações boas, predominando majoritariamente as avaliações péssimas. Ou seja, o chamado “condomínio do Golpe” (partidos que apoiaram Temer e o impeachment) se encontram em uma situação eleitoral extremamente delicada, sem candidato competitivo e sem perspectivas alvissareiras para o futuro próximo.

6) Sem Lula, segundo turno fica indefinido, com Bolsonaro mostrando um eleitorado firme.

O cenário mais provável segue sendo o da presença de um candidato indicado por Lula no segundo turno, tendo em vista sua aparente capacidade de transferência de votos. Neste caso, é possível que vejamos uma disputa entre o candidato Lulista e Bolsonaro, uma vez que o crescimento de outros candidatos de centro esquerda parecem ter capacidade limitada de crescer na presença de um candidato petista forte e os outros candidatos de centro-direita apresentam pouca força eleitoral, ao menos até o momento. Entretanto, caso Lula não seja candidato e o PT se mostre incapaz de indicar um candidato por ele apoiado (seja por conflitos internos, seja pela dificuldade de Lula indicar alguém caso siga preso), o segundo turno fica absolutamente aberto. A presença de Bolsonaro segue sendo a melhor aposta, uma vez que seu eleitorado (entre 15 e 20%) parece firme em seu apoio, independente do que se diga a seu respeito. Marina e Ciro teriam que ambos romper a casa dos 15% para disputar uma vaga no segundo turno, o mesmo valendo para Alckmin, que parece mais distante deste feito. Dada a grande fragmentação, é provável que, ultrapassando os 20%, qualquer candidatura se viabilize para disputar o segundo turno, diferente das eleições passadas.

7) Cresce a possibilidade de fragmentação eleitoral.

Com nenhum candidato de centro direita ou de centro esquerda despontando como aposta certa para a participação no segundo turno, cresce a possibilidade de fragmentação eleitoral, já que todos os candidatos competitivos enxergarão uma chance razoável de alcançar o patamar dos 20%. Os candidatos de partidos menores (Álvaro Dias, Collor, Amoedo, Aldo Rebelo, etc…) tendem a manter suas pretensões, com o apoio de seus partidos, visando alavancar a votação de seus deputados e alcançar o mínimo estabelecido pela clausula de barreira. É verdade que algumas candidaturas podem se perder ao longo do caminho e se juntar a candidaturas mais competitivas, como a de Rodrigo Maia e Manuela D’ Ávila, mas certamente várias delas são irreversíveis, com as de Marina Silva, Ciro Gomes, Alckmin e MDB. Nesta enorme fragmentação, o que pode organizar os cenários é o papel do PT e de Lula, dada sua capacidade de polarizar a eleição e, por isso mesmo, definir seu “anticandidato” que será levado para o segundo turno. Caso o candidato petista (ou qualquer um apoiado por Lula) cresça, o que resta descobrir é quem será o “anti-Lula”. Hoje, Bolsonaro desponta como favorito a esse papel de acordo com as pesquisas disponíveis.

Em suma, a conclusão da Folha de que Lula perdeu força e que será substituído por candidatos de centro na disputa me parece mais desejo e propaganda do que realidade. Apesar de Marina e Ciro se fortalecerem no cenário sem Lula, é evidente que Lula indicará um candidato e, segundo os dados do Datafolha, esse candidato (seja quem for, do PT ou de outro partido) tem grandes chances de chegar ao segundo turno. Lula seguirá sendo o tema central dessa disputa, restando apenas saber como o PT irá transmitir suas escolhas aos seus eleitores, caso a justiça decida manter Lula preso para evitar sua participação no processo eleitoral. Quanto a isso, a pesquisa IPSOS nos traz um dado que fala por si mesmo: para 73%, os poderosos querem Lula fora das eleições. Até quem quer ver Lula na cadeia sabe do que se trata. Aparentemente só nossa grande imprensa acredita que a perseguição política contra Lula é “contra a corrupção”…

*Guilherme Santos Mello é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP).

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