Trechos da entrevista com Quincy Jones; ícone da música estadunidense

Carpa do livro autobiográfico sobre Quincy Jones.

Carpa do livro autobiográfico de Quincy Jones.

Quincy Jones ao lado de troféus que recebeu ao longo da carreira artística.

Quincy Jones ao lado de troféus que recebeu ao longo da carreira artística.

Trechos da entrevista com Quincy Jones, concedida à David Marchese e publicada no El País, em 18 de março de 2018.

Vivemos em um país melhor do que quando você começou o trabalho humanitário, há 50 anos?

— Não. Estamos pior do que nunca, mas por isso as pessoas estão tentando melhorar as coisas. Com o feminismo, as mulheres estão dizendo que não vão mais tolerar [discriminação e abusos]. As pessoas estão combatendo o racismo. Deus está colocando os maus diante dos nossos olhos para que as pessoas contra-ataquem.

Se você pudesse resolver um problema dos EUA num piscar de olhos, qual seria?

— O racismo. Sou testemunha do racismo há muito tempo, da década de trinta até hoje. Avançamos muito, mas resta muito a fazer. O sul sempre foi terrível, mas lá você sabe onde está metido. No norte, o racismo está disfarçado. Você nunca sabe em que lugar está. É por isso que o que está acontecendo agora é bom, porque pessoas que antes não diziam que eram racistas, agora dizem. Agora sabemos.

No que se refere à raça, Hollywood funciona tão mal quanto o restante do país? Sei que quando você começou a escrever música para filmes, ouvia os produtores dizerem, por exemplo, que não queriam partituras “tipo blues”, o que era claramente um racismo velado. Continua se deparando com esse tipo de racismo?

— Sim, as coisas continuam complicadas. Em 1964, quando estava em Las Vegas, havia lugares nos quais se supunha que não podia entrar por ser negro, mas Frank [Sinatra] deu um jeito para mim. Para que as coisas mudem, são necessários esforços individuais como esse. É preciso que os brancos perguntem a outros brancos se querem realmente ser racistas, se acreditam de verdade nisso. Mas cada lugar é diferente. Quando vou a Dublin, Bono me faz ficar em seu castelo, porque a Irlanda é muito racista. Bono é meu irmão, cara. Ele batizou o filho dele com o meu nome.

Qual o motivo das músicas não serem tão boas como antes?

— A mentalidade das pessoas que compõem a música. Atualmente, os produtores ignoram todos os princípios musicais das gerações passadas. É ridículo. As coisas não funcionam assim; supõe-se que você precisa utilizar tudo o que o passado te proporciona. Se você sabe de onde vem, é mais fácil chegar no lugar em que você quer ir. Você precisa entender de música para emocionar as pessoas e transformar-se na trilha sonora de sua vida.

Você gosta de música brasileira?

— Sim, mas conheço pouca coisa além de Jorge Ben Jor e Gilberto Gil. Gilberto Gil e Caetano Veloso são reis. Você sabe, todos os anos vou às favelas. Esses caras têm uma vida difícil, mas são gente dura. Se você pensa que aqui as coisas estão ruins, aquilo é pior.

Qual é a coisa mais ambiciosa que lhe resta fazer?

— Qwest TV. Será um programa musical da Netflix. Terá a melhor música de todos os gêneros do mundo. De modo que se todos os jovens procurarem o melhor do melhor para ouvir, ali estará. A verdade é que não posso acreditar que ainda participo de coisas assim. Deixei de beber há dois anos e hoje me sinto como se tivesse 19. Nunca fui tão criativo. Não sei como explicar. Tremenda vida!

Perfil resumido

Quincy Delight Jones Jr. (Chicago, 14 de março de 1933) é um empresário, arranjador vocal e produtor musical de trilhas sonoras norte-americano. Durante 50 anos na indústria do entretenimento o trabalho de Jones foi indicado para 79 Grammy Award, sendo premiado com 27 destes, e um Grammy Legends Award em 1991. Ele é mais conhecido por ajudar o ícone cultural Michael Jackson a produzir o álbum Thriller, que viria a ser o álbum mais vendido de todos os tempos, e a canção ‘We Are the World’. Ele também é conhecido por lançar a cantora Tamia que durante o tempo em que trabalhou com Quincy Jones foi indicada para 2 Grammy Awards por sua canção ‘You Put a Move On My Heart’.

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