Centenário de Leôncio Gomes da Silva. Viva o nosso Presidente

Leôncio Gomes da Silva (11/02/1918 – 17/03/1980)

Leôncio Gomes da Silva (11/02/1918 – 17/03/1980)

Leôncio Gomes é um dos 6 filhos de Antônio Gomes da Silva, discípulo de primeira hora do Mestre Raimundo Irineu Serra, Rei Juramidã. Patriarca de uma numerosa família, Antônio trouxera consigo todos os seus familiares para acompanhar a Missão de Mestre Irineu.

Se alistam nos exércitos da Rainha da Floresta o patriarca Antônio Gomes e os seus filhos Leôncio, Raimundo, Adália, José e Zulmira. E os filhos dos seus filhos. Uma ampla família.

Leôncio Gomes da Silva (11/02/1918 – 17/03/1980), em vida de matéria, foi marido de Madalena do Carmo Brandão. É pai de 5 filhos: Antônio, Dionísia (vivos), Hortência, Maria do Carmo (Pituca) e Júlio Gomes (falecidos).

Leôncio Gomes da Silva

Leôncio Gomes da Silva

Leôncio era comerciante de secos e molhados. A sua vendinha situava-se nas terras sagradas do Alto Santo, atual Vila Irineu Serra (Rio Branco – Acre). Era no seu modesto armazém rural que o líder comunitário Irineu Serra fazia a feira para sua residência, dos produtos que não possuía em seu roçado.

Leôncio era proprietário de uma velha Rural Williams, automóvel utilitário com o qual percorria as colônias do município, mercando os seus produtos. Nesta lida era auxiliado por Emílio Mendonça Furtado (Professor Emílio), o cunhado do Padrinho Irineu, Raimundo Gomes do Nascimento (Raimundo Gonçalves) e João Pedro — aquele que recebeu uma obra-prima do cancioneiro daimista, Relógio de Luz.

De personalidade cordata, Leôncio era homem de confiança e colaborador do Mestre Irineu na administração da Ordem esotérica por ele fundada — o Centro de Irradiação Mental Tattwa Luz Divina — e presidia as sessões na ausência do Velho Mestre. Era também designado para interceder e resolver conflitos interpessoais dentro da comunidade. Pertenceu à Comissão de Cura daquela instituição.

“Leôncio era uma pessoa calma e educada. Quem chegasse à sua residência com mau humor, de lá saía sorrindo e cantando”, testifica a sua irmã Adália Grangeiro.

O Centro de Irradiação Mental Tattwa Luz Divina, filial rio-branquense do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP), encerra as suas atividades ao término dos anos 1960, logo após a notificação da Direção Nacional daquela Ordem, explicitando a incompatibilidade dos anseios da diretoria do CECP com o uso do Daime.

Contam que a resposta de Mestre Irineu foi imediata:

— Se não querem o meu Daime, também não me querem: eu sou o Daime e o Daime sou eu.

Frase que ficaria gravada no coração e na mente de todos os seus discípulos, a partir de então.

Com o afastamento do Mestre Irineu, os outros daimistas membros daquela célula esotérica também se retiraram, e o Tatwa Luz Divina se extinguiu, por carência de sócios.

Mestre Irineu

Mestre Irineu

Fundação do CICLU – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal

Com a sua saída do Tattwa Luz Divina, junto com toda a irmandade ayahuasqueira, Mestre Raimundo Irineu Serra sentiu a necessidade de formalizar e institucionalizar o seu (novo) Centro Livre, que a partir de então passou a ser designado de Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU). Esta organização será registrada no Cartório de Rio Branco – Acre em 20 de abril de 1971, poucos meses antes do seu passamento.

O CICLU será instituído como uma sociedade “perdurável e autônoma com função cristã, social, cultural e cívica em base jurídica, responsável por suas diretrizes de caráter privado”.

Nesta nova instituição de caráter espiritualista-religioso, Raimundo Irineu Serra foi aclamado como ‘Mestre Imperador’, e empossados os membros titulares do Conselho Superior e Comunitário, sendo Leôncio Gomes da Silva nomeado Mestre Imediato.

A confiança que Leôncio gozava junto ao Velho Mestre, o prestígio e respeito que ele tinha daquela comunidade ayahuasqueira, fez desse discípulo dileto do General Juramidã o seu lugar-tenente — deste mundo a eternidade.

Foi em um lote de terra em frente a sua residência, do lado oposto ao antigo ramal — atual Estrada Raimundo Irineu Serra — que o Velho Mestre escolheu o local onde o seu corpo deveria ser entregue a terra fria.

A opção não se deu por acaso. A eleição do lugar foi em confiança que os familiares do seu Leôncio assumissem a responsabilidade pela limpeza, organização e segurança do recinto sagrado. Dessa maneira, quando do enterramento do Mestre Irineu Serra, o seu sacro túmulo estava situado vizinho a casa de Leôncio Gomes da Silva (Estrada Raimundo Irineu Serra, nº. 3838).

Hortência Gomes da Silva, filha do seu Leôncio, cumpriu com eficiência a missão de zeladora do Túmulo do Mestre até a sua passagem para a vida espiritual, em 2004. Na casa de Dona Hortência rezava-se o Terço em louvor a Santa Luzia, no 13 de dezembro. A tradição se mantém. Junto com a Santa Missa rezada no Túmulo do Mestre Irineu, alusivo ao seu passamento em 6 de julho, essas são as duas efemérides do calendário anual em que se congregam as irmandades de todos os Centros Livres que professam a Doutrina do Santo Daime no Estado do Acre.

Residência de Leôncio Gomes

Residência de Leôncio Gomes

Ilustração

Ilustração

Leôncio Gomes é indicado para Presidência do CICLU

Foi assim: Mestre Raimundo Irineu Serra, nos últimos meses de permanência aqui no mundo Terra, alquebrado pelo peso da idade e sentindo que se aproximava o dia de sua passagem para o mundo espiritual, dizia a todos que o procuravam:

— Eu não sinto dor. Eu não sinto fome. Eu não sinto nada. O que eu sinto é não ter para quem entregar o meu trabalho. E saudades de vocês. Eu sinto uma saudade tão grande de vocês que é isto que está me abatendo.

Já não comia carne, dizia que o organismo dele não mais aceitava essas coisas. No final de junho de 1971 ele chamou Leôncio Gomes da Silva, que era um de seus seguidores mais próximos e, frente a toda irmandade, anunciou:

— Leôncio, tu vai assumir a direção dos trabalhos. Tu não vai ser o chefe. O chefe sou eu. Mas fique aí para receber as pessoas, para ensinar a Doutrina. Escuta o que estou te dizendo, não faça mais do que estou te entregando.

Pisei na terra fria

Como de hábito, ao amanhecer de cada dia, muitos dos amigos e discípulos do Padrinho Irineu passavam na sua casa para pedir-lhe a benção, perguntar por sua saúde e saber se ele precisava de algo.

Na manhã de 6 de julho de 1971 assim fez seu Leôncio, designado há poucos dias como presidente do Centro Livre instituído juridicamente por Mestre Irineu. Daí a pouco ele sairia na sua Rural Williams para entregar mercadoria aos seus clientes de Rio Branco, acompanhado de seu Emílio e Raimundo Gonçalves.

Surpresos eles ouviram do Velho Mestre, na despedida:

— Vocês precisam ir mesmo?

— Alguma coisa, Padrinho?

Perguntou-lhe Leôncio.

— Não. Nada. Podem ir.

Naquele dia Leôncio, Emílio e Raimundo retornaram mais cedo da lida, ao saberem do passamento de seu líder espiritual. Às 4 horas da tarde Raimundo Irineu Serra pisou “na terra fria” e seu corpo baixou à sepultura. Com Deus e a Virgem Maria, deste plano ele se separou, com alegria.

O trabalho oficial seguinte, recém-instituído por ele, se deu sob a presidência de Leôncio Gomes da Silva. Era a comemoração do aniversário de Peregrina Gomes Serra, sua esposa, com fardamento branco e o Hinário O Cruzeiro (14/07/1971).

Seu Leôncio exerceu a presidência do Centro Livre com ponderação e serenidade. Após longa enfermidade veio a falecer. Honrosamente foi enterrado ao lado esquerdo do Mestre Irineu. Quando do seu passamento a Madrinha Peregrina foi nomeada Dignatária do CICLU Alto Santo, e ainda hoje zela pelos seus, pastora deste lindo rebanho de Deus.

Leôncio Gomes da Silva, apóstolo do Velho Juramidã, poderia muito bem repetir as palavras do Senhor São Paulo, 13º Apóstolo de Nosso Senhor Jesus Cristo:

— Combati o bom combate, completei a carreira e conservei a minha fé.

Amém Jesus, Maria e José.

Túmulo de Leôncio Gomes

Túmulo de Leôncio Gomes

Eu tomei Daime com meu presidente

Dentro de um lindo salão

Em uma mesa de centro

Da Virgem da Conceição.

 

Esta mesa é bem ornada

De flores bem enfeitadas

De luzes de diversas cores

Aonde está o nosso Jesus.

 

Aonde está o nosso Jesus

Com amor a Santa Cruz

Nos dando a Santa Luz

E nos mostrando os nossos defeitos.

 

Nos mostrando os nossos defeitos

Quem quiser trabalhe e aproveite

Que o tempo está findado

E pra depois não tem mais jeito.

Viva o nosso Presidente!

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]