William Waack é aquele indignado com quem suprime seu direito de discriminar | Por Camilo de Oliveira Aggio

O jornalista William Waack é formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo em ciência política, sociologia e comunicação na Universidade de Mainz em 1974, na Alemanha.

O jornalista William Waack é formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo em ciência política, sociologia e comunicação na Universidade de Mainz em 1974, na Alemanha.

O texto de William Waack publicado em edição da Folha tem tudo para entrar para os anais das armadilhas psicanalíticas da escrita. Isso porque, no esforço de tentar convencer de que não é racista, dá demonstrações cabais de que é um – e dos mais tradicionais, rasteiros e óbvios.

Eu poderia me ater ao esforço do cara em construir uma cortina de fumaça para o que disse com todas as letras (e o mais irônico é que usou o “coisa de preto” num ato de defesa a Donald Trump, um racista notório) se fazendo de vítima do radicalismo persecutório das tais das redes digitais ou no simples fato de ser um cara na casa dos cinquenta e poucos anos incapaz de assumir um flagrante ato de racismo e se desculpar, mas me aterei à prova tão banal quanto definitiva.

Em dado momento do texto, o ex-jornalista da Globo afirma, com alguma gabação, que ao longo de 21 anos trabalhando no exterior, nunca encontrou um povo tão “brincalhão e extrovertido” quanto o brasileiro. E é isso que os “linchadores digitais” tentam nos sequestrar, fazendo o que fizeram com ele: nossa alegria e extroversão.

Para William Waack, afirmar e reafirmar, com galhofa, que um ato de protesto a Donald Trump só poderia ser “coisa de preto”, nada mais é do que uma brincadeira típica da extroversão singular dos brasileiros. Waack é igualzinho àquele tio, fã do Bolsonaro, que fica indignado com quaisquer tentativas de suprimir seu direito de discriminar. É representante do que há de mais natural, tradicional, corriqueiro e perverso no racismo brasileiro: quem determina o que é racismo e discriminação nunca é o alvo da “brincadeira”, mas seu autor. É o cara que discrimina que roga para si a determinação da natureza do que fez, nunca o sujeito ofendido e discriminado.

Não, Waack, o que você fez não é brincadeira nem extroversão, é a prática de racismo mais banal que ainda, como se vê, atravessa, quase intacta, gerações e mais gerações. Os outros países que você cita, meu caro, não são desprovidos de alegria e extroversão, são apenas países que, ao menos nesse nível de nojenta explicitude, não praticam seu racismo.

Bom, William, eu só tenho, muito, a agradecer por ter escrito esse texto. Não sobra uma dúvida sequer quanto a sua qualidade moral e intelectual, evidentemente incompatível com o exercício de uma profissão que deveria ser séria, social e politicamente responsável. Nesse ponto, seja lá se por razões virtuosas ou não, a Globo acertou. Minha torcida é pelo seu ostracismo. E não por ter cometido um erro detestável que poderia ser, em alguma medida, reparado, mas por confirmar que aquilo que foi dito, de fato, o representa.

*Camilo de Oliveira Aggio é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. Pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD). Membro da Comissão Editorial dos periódicos Revista Compolítica e Revista Contemporânea. Realizou está pós-doutoral no POSCOM-UFBA. Doutor em Comunicação Política do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia. Realizou estágio-doutoral (PDSE/CAPES) na State University of New York (SUNY) na cidade de Albany (NY, EUA) sob co-orientação da professora doutora Jennifer Stromer-Galley através do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. Membro do grupo Comunicação, Internet e Democracia (CID) e pesquisador associado ao Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital e Governo Eletrônico (CEADD),

*Texto publicado originalmente em O Diário do Centro do Mundo (DCM), em 15 de janeiro de 2018.

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