Fazendo história: a 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca. O Hauxstock da Haux Music

Yubaka Hayrá - 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca

Yubaka Hayrá – 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca

A Yubaka Hayrá – 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca, que aconteceu entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2017, na Terra Indígena Puyanawa, em Mâncio Lima – Acre, foi um marco histórico na organização dos povos originários do Acre, e todos, intuitivamente, tiveram consciência da magnitude do evento desde o primeiro momento.

O gérmen para a realização deste evento foi a AYA2016 – II Conferência Mundial da Ayahuasca, ocorrida em outubro de 2016 (Rio Branco – Acre), quando algumas etnias indígenas da Amazônia brasileira ocidental sentiram necessidade de travar um debate entre si sobre as questões que envolvem o uso da bebida e seus interesses específicos: legislação brasileira e mundial, internacionalização, patrimonialização etc. Foi um encontro “de índios para índios”, com a presença de apenas alguns nawás (não-índios) como representantes institucionais.

O evento foi marcado pelo sentimento de que como povos originários e detentores dos saberes milenares das “medicinas da floresta”, os indígenas requerem para si o papel de protagonistas principais do processo de uso cerimonial da bebida Ayahuasca, tanto frente às religiões ayahuasqueiras (Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal); como também consideram que seus conhecimentos ancestrais se sobrepõem ao saber científico.

A Reunião contou com uma forte dimensão etnomusical, cultural e artística, sobretudo nas cerimônias noturnas com a Ayahuasca. Tais momentos foram centrais para a articulação de alianças e trocas entre os atores envolvidos, lançando as bases para a construção de uma nova Conferência Indígena da Ayahuasca.  Esta está planejada para ocorrer na Aldeia Sagrada dos Ashaninka (Marechal Thaumaturgo – Acre) em 2018, com maior envolvimento dos “parentes” (indígenas) das aldeias e demais etnias dos países da Amazônia Ocidental.

Xibuã (Maloca Sagrada) dos Puyanawa

Xibuã (Maloca Sagrada) dos Puyanawa

Mágica noite na Arena Puyanawa

Mágica noite na Arena Puyanawa

Yubaka Hayrá – 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca

Quando, no Século XVI, aconteceu o achamento do Brasil pelos portugueses, era comum os navegadores levarem ao continente europeu grupos de índios escravizados, para o entretenimento de suas cortes. Ali, nos luxuosos salões, os silvícolas eram instados a cantarem e dançarem desnudos, para a diversão da nobreza reunida.

Talvez por memória atávica daqueles tristes episódios, ao término da AYA2016 – II Conferência Mundial da Ayahuasca (Rio Branco – Acre), organizada por estrangeiros, o Txai Benki Piyãko sugeriu aos “parentes” ali reunidos:

— Vamos reunir os txais e ter a nossa própria conversa sobre este assunto.

Assim, estava plantada a semente da 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca, que aconteceria celeremente 14 breves meses depois.

A Conferência — ou “roda de conversa” — recebeu o sugestivo nome de Yubaka Hayrá, que na língua Hatxa Kuin do povo Huni Kuin significa aproximadamente “conversando sobre o que é certo”. Dessa maneira, com um alto grau de organização, todos os temas agendados para o evento foram bem debatidos e esclarecidos.

Uma característica marcante desta efeméride é que foi “coisa de Índio”, isto é, a participação dos nawás (não-índios) foi diminuta, sendo chamados apenas alguns poucos especialistas para esclarecimentos dos temas debatidos: a Resolução Conad para uso da Ayahuasca, a patrimonialização pelo Iphan etc.

Devido a importância e o interesse despertado, já se deliberou nesta Conferência pela realização de uma segunda, com local e data já previamente sugeridos, sujeito a confirmação: a II Conferência Indígena da Ayahuasca deverá realizar-se na Aldeia Sagrada dos Ashaninkas, em junho de 2018. Tô dentro!

Como são muitos os aspectos relacionados a esta Conferência, nesta breve comunicação quero destacar apenas duas:

  1. A Yubaka Hayrá sob a luz e força da Ayahuasca

Vinho das almas, liana dos espíritos, cipó dos mortos. Kamarampi para os Ashaninka, Nixi Pãe para os Huni kuin, Uni para os Yawanawá — e mais uma dezena de nomes tão diversos quanto os povos que habitam a floresta amazônica — são usados para designar a mesma bebida, universalmente conhecida pelo seu nome quéchua: Ayahuasca. E ainda Daime, Hoasca e Vegetal para as religiões ayahuasqueiras brasileiras.

Conversamos sobre Ayahuasca à luz da sagrada bebida, comungando do precioso líquido antes e durante o início das palestras e rodas de conversa. A planta maestra a nos guiar e orientar, endireitando os caminhos tortuosos das mentes inquietas. Uma Ayahuasca Yoga?

Bem, foram 4 dias e 3 noites de “Daime aberto” — expressão do jargão religioso ayahuasqueiro, quando a distribuição do Daime é contínua, enquanto duram os trabalhos espirituais. Esses maravilhosos dias passei em êxtase místico, bêbado de Deus, embriagado do Divino — tal qual o Senhor São Francisco de Assis.

Uma Ayahuasca Yoga?

  1. A dimensão cultural, artística e etnomusical do sagrado

A dimensão cultural, artística e etnomusical do sagrado, nas cerimônias noturnas no Xibuã (Maloca Sagrada) e na grande Arena esportiva dos Puyanawa marcaram o evento. Os cânticos, as danças, o belo vestuário e coloridos adornos trajados pelos indígenas, proporcionaram uma linda e espetacular miração coletiva. A apresentação dos cânticos tradicionais e da Haux Music no Festival Hauxstock — bem-humorada paródia de alguns nawás — foi o ponto alto das festividades.

Juarez Bomfim, este que vos escreve, frente a atenta plateia, estava pronto para palestrar sobre os temas da sagrada bebida. Na mesa, a Ayahuasca está literalmente presente, na forma de dois filtros. O vidro translúcido permite ver o seu interior. À esquerda está o líquido cor de terra, o Nixi Pãe trazido pela comitiva Huni Kuin, servido por Ninawá Pai da Mata; à direita está um líquido de tom mais escuro: é o Hêu oferecido pelos anfitriões do encontro, o povo Puyanawa.

Antes d’eu começar, Puwe Luiz Puyanawa me serviu uma generosa dose de Hêu, e exclamei:

— Se eu fosse falar de rapadura, chuparia uma bala de rapadura. Mas como vou falar de Ayahuasca, bebo Ayahuasca.

Sujeito-objeto-sujeito de análise sendo um só.

(Ver o Artigo “1ª Conferência Indígena da Ayahuasca. Ayahuasca e rapadura”:

http://www.jornalgrandebahia.com.br/2017/11/1a-conferencia-indigena-da-ayahuasca-ayahuasca-e-rapadura/ )

O encontro reuniu lideranças políticas e espirituais dos povos originários do Acre. Huni Kuin (Kaxinawá), Ashaninka, Yawanawá, Nuke Koi (katukina), Shawadawa, Kuntanawa, Manchineri, Jaminawa e Shanenawa que, nas inúmeras rodas de conversa, trataram dos temas de interesse sobre as “medicinas sagradas”.

Txai Juarez Bomfim

Txai Juarez Bomfim

Cânticos indígenas tradicionais e a Haux Music

Na tradição Indígena ayahuasqueira os cantos são entoados a capela, sem instrumentos musicais, sequer maracá. Entre os curanderos e vegetalistas peruanos, a estes cânticos dá-se o nome de Ícaros, cuja tradição foi base para os caboclos acreanos “bebedores de Cipó” receberem do mundo Espiritual os seus “chamados” — ou “chamadas” — que são invocações trazidas do Astral e entoadas cerimoniosamente.

Esses “chamados” são realizados pelos caboclos que aprenderam com os indígenas a utilização ritualística da bebida e criaram suas formas de uso, cosmologias, arte, música, dança e outras ricas expressões. Desta tradição surgiram as religiões ayahuasqueiras brasileiras e seu cancioneiro: os hinos do Santo Daime; salmos e pontos da Barquinha e as chamadas da União do Vegetal.

Deste solo fértil germinaram os enverseios de seu Antônio Pedro, os chamados do sr. Luiz Mendes do Nascimento e outras manifestações culturais e espirituais anônimas, isto é, que ficaram restritas ao mundo dos distantes seringais.

Acontece que, no intercâmbio cultural recente de jovens indígenas com os nawás (não-indios), os originários com dons artísticos recriaram canções, introduzindo violões, percussão e outros instrumentos musicais, compuseram músicas nos ritmos populares dos caboclos seringueiros, como o “baque do Acre” e outros gêneros, como as lindas valsas do cancioneiro daimista.

Jovens artistas indígenas sacam os seus violões, maracás e tambores e tocam, cantam e dançam. Onde antes só havia a voz do pajé, os instrumentos musicais acompanham e embelezam os cânticos recriados.  Músicas tradicionais recebem melodias que a fazem se assemelhar aos hinos do Daime, ou mesmo aos pontos de Umbanda.

Durante esta Conferência Indígena da Ayahuasca, nas lindas noites estreladas do céu amazônico, em mágicas cerimônias espirituais e nas apresentações culturais que vararam a madrugada, no Xibuã (Maloca Sagrada) dos Puyanawa ou na grande Arena esportiva, esses cânticos cruzaram os ares e subiam aos céus, convidando os pássaros e animaizinhos da floresta a celebrarem conosco a grandeza da Criação e do Criador.

Qual o limite entre o novo e o tradicional? O misturado e o puro? O jovem e o velho? As lideranças políticas e religiosas indígenas parecem ter clara essa divisão entre os cantos e apresentações, com e sem acompanhamento instrumental, significando uma distinção que precisa ser afirmada para que não se esgote a fonte originária da cultura indígena, tão violada no passado recente, atualmente em processo de etnogênese ou resgate cultural.

Puwe Puyanawa, Benki Piyãko e Jairo Lima

Luiz  Valdenir, Puwe Puyanawa, Benki Piyãko e Jairo Lima

Mapu Huni Kuin e Txai Juarez Bomfim

Mapu Huni Kuin e Txai Juarez Bomfim

O Hauxstock da Haux Music

Noite mágica de 14 de dezembro de 2017, sob o imenso céu estrelado amazônico, jamais visto, de tão límpido, de tão puro… as estrelas se apresentaram e disseram:

— Ouve muito e fala pouco. Para compreender e conversar com os caboclos.

E assim seguimos. Dentro do Xibuã algumas poucas tochas iluminavam o recinto sagrado. O Cacique Joel, anfitrião Puyanawa, abriu a cerimônia e todos nos enfileiramos para beber o Hêu (Ayahuasca).

Ritualisticamente o pajé despejava o precioso líquido no copo, soprava sobre ele e entregava a cada um dos participantes. Todos retornaram aos seus lugares. Pouco depois, após meditativa concentração, a cantoria se iniciou. Cãnticos maravilhosos de cada um dos povos presentes.

Começa-se pelos anfitriões Puyanawa, com seu canto triunfal e retumbante, subindo para o céu e se derramando sobre a terra, como um brado de liberdade. O cantor puxador oferece a canção àquele espaço sagrado, na sua língua materna. Canta as belezas da floresta e dos seres que nela habitam. Agradece as estrelas que brilham e dançam, nos guarnecendo e ensinando.

Quando cânticos de louvor se elevam da garganta do homem a chama celeste desce à terra e envia sua iluminação. Quando cânticos de louvor se elevam ao Céu, Deus Ele mesmo desce à Terra e fortalece o mundo com a Presença Divina.

Depois, os Yawanawá se apresentaram, com sua melodia pura e cheia de harmonia, e suas canções que brilham — ‘em mim e em você’.

A seguir, os Huni Kuin, com sua alegria em forma de música, seu ritmo colorido e forte, espirais cambiantes entre luz e sombra. Cânticos que ecoam na floresta e resplandecem em flores, frutos e caça abundantes.

Entram os Ashaninkas, tendo à frente o carismático Benki Piyãco, com seus louvores ao Altíssimo. O Coral, de vozes predominantemente femininas, responde ao chamamento, criando uma aura mística.

Neste sagrado momento, o Xibuã como que resplandece, embalado pela vibração do som criador. A força e o poder divino emanam através do som das vozes que reverberam, e os participantes captam sua vibração, sintonizados na frequência certa daquilo que transcende.

O tempo e o espaço linear, tridimensional, se dissolvem e se justapõem com um outro tempo, um outro espaço, mítico, ontológico, plasmado nos corações. Momento extático. Os sentidos se alteram, a luz é mais radiante, vozes angelicais executam belas canções, o ambiente ornado com flores celestiais e iluminado pela luz divina. Que pare o tempo!

E assim, naquela mágica noite, os cânticos dos povos originários se sucederam, abrilhantando a festa.

Após a segunda dose de Hêu ser servida, dá-se início a continuidade das apresentações musicais, agora com os jovens artistas, cantores e instrumentistas, compartilhando seu repertório de uma música de formato mais ocidentalizado.

Os vários violões tocavam base e solo — e o cajón fazia a marcação rítmica. O cantor vinha acompanhado de um forte coral feminino. Índios e nawás cantavam e dançavam, executando uma dança circular, girando, cantando, rindo e tocando seus maracás.

Os adornos indígenas usados são de uma exuberância ímpar, exagerados até. Uma profusão de cores, trajes e ornamentos — sem dúvida, bastante distinta do modo tradicional. Todavia, a beleza das indumentárias, das pinturas corporais e dos adornos como afirmação étnica é mais que válida, é muito bem-vinda.

E que dizer das mulheres nawás fantasiadas de índias? E os txais branco-mestiços? Todos estavam lindos e lindas naquela auspiciosa festa na mata, o alegre Festival Hauxstock.

E assim seguiram-se os demais dias e noites: a festa e a cantoria se estendia para as malocas e o igarapé; a segunda noite foi de pura emoção, com os documentários indígenas projetados no telão instalado no meio da Arena (Cinema na Aldeia); e o grande encerramento na Arena esportiva Puyanawa, organizado com o mesmo formato cultural de apresentações etnomusical.

Txai Juarez Bomfim e Cecília Maringoni

Txai Juarez Bomfim e Cecília Maringoni

Lindas nawás brincando de índio

Lindas nawás brincando de índio

Haux. Haux!

Como resultado da 1ª Conferência Indígena da Ayahuasca elaborou-se uma Carta, uma espécie de relatório do que foi conversado e debatido, e algumas poucas resoluções. Considerou-se que um número maior de “parentes” deveriam ser envolvidos nas discussões e necessitavam ser esclarecidos sobre os assuntos tratados.

Na era da internacionalização do uso da Ayahuasca, se considera também a importância da articulação com etnias ayahuasqueiras de demais países da Amazônia Ocidental, assim como o estabelecimento de alianças com grupos não-indígenas, e a aproximação e diálogo com autoridades governamentais que cumprem a resolução do uso ritualístico da Ayahuasca.

Uma nova Conferência foi marcada para breve. Certamente a pauta será acrescida com o tema de outras medicinas da floresta e, consequentemente, a agenda se enriquecerá com novas pautas e demandas de assuntos que foram apenas rapidamente tratados nestes proveitosos dias. Tamo juntos!

Haux. Haux!

Vídeo com cântico e imagens da Yubaka Hayrá:

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]