Falência de João Gilberto é tema de reportagem em revista francesa

'João Gilberto, a descida no inferno do mestre da bossa-nova', é tema de reportagem do Les Echos.

‘João Gilberto, a descida no inferno do mestre da bossa-nova’, é tema de reportagem do Les Echos.

A revista Week-End do jornal econômico Les Echos traz uma reportagem de duas páginas sobre os problemas financeiros de João Gilberto. Com o título “Gênio Desafinado”, o texto conta como o inventor da Bossa Nova perdeu, aos poucos, sua fortuna e sua credibilidade.

A reportagem, escrita pelo correspondente do jornal econômico no Brasil, conta em detalhes o declínio do cantor brasileiro. “Meio século após seu triunfo no Carnegie Hall e uma carreira fabulosa, endividado, o grande músico vive recluso em seu apartamento no Rio de Janeiro”, relata.

O texto começa lembrando o polêmico show de inauguração do Credicard Hall, em 1999, quando Gilberto, irritado com o barulho e reclamando da qualidade da sala, mostrou a língua para o público e disse a frase que ficou famosa: “vaia de bêbado não vale”. O jornalista também recorda que esse não foi o primeiro incidente envolvendo o músico. “Como nos anos 1970, quando deixou o Canecão, alegando que suas exigências em termos de acústica não haviam sido respeitadas”.

Bossa Nova ajudou soft power brasileiro

Mas antes da crise que atravessa, já há alguns anos, Gilberto teve uma carreira impressionante. “A Bossa Nova virou até um ingrediente do soft power brasileiro”, comenta o correspondente do Les Echos no Brasil, em alusão ao ritmo que o baiano criou e ajudou a promover pelo mundo. O texto ressalta que, em 1962, uma festa com o tema do novo ritmo chegou a ser organizada na Casa Branca pela então primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy, dois dias antes do show Carnegie Hall, em Nova York. Nesse concerto, Gilberto tocou diante de nomes como Miles Davis, Dizzy Gillespie e outros gênios de jazz, todos curiosos para conhecer o novo som.

Depois dessa escala nos Estados Unidos, a carreira internacional do brasileiro decolou, com a assinatura de um contrato com o selo americano Verve, a colaboração com Stan Getz, dois discos gravados com Tom Jobim e até mesmo um show em Paris, onde cantou e encantou, em 1991, com uma versão da música “Que reste-t-il de nos amours”, relata a revista francesa.

Mas já nos anos 1980 as coisas começam a desandar, explica o correspondente. “Gilberto abriu um processo contra sua gravadora, que queria relançar seus três primeiros discos sem seu consentimento, resgatou os originais e não autorizou novos projetos”, conta. Em seguida, em 2011, ele anulou na última hora uma turnê de comemoração de seus 80 anos, sem reembolsar o cachê que já havia recebido.

Bebel Gilberto assumiu tutela do pai

A partir daí, os processos se multiplicam e as dívidas e alugueis sem pagar se acumulam. A tal ponto, conta o texto, que, em novembro passado, “oficiais de justiça bateram à porta de seu apartamento no Leblon para expulsá-lo”. Diante da situação, o músico foi colocado sob tutela financeira, assumida pela filha Bebel Gilberto. Os herdeiros do músico, aliás, acusam sua mulher, Claudia Faissol, de ter abusado da confiança do pai.

A reportagem termina explicando que atualmente, como na revista Veja de dezembro passado, quando a mídia brasileira fala do músico, é muito mais para explorar suas peripécias judiciais que para saudar seu legado genial. “Quando, em 1960, ele entoava com sua voz suave na canção Doralice, ‘Eu prefiro viver tão sozinho ao som do lamento do meu violão’, o artista torturado parecia já anunciar o que o aguardava”, conclui, ironicamente, a revista Week-End.

*Com informações da RFI.

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