Em 2017 a ficha caiu. Que venha 2018! | Por Tereza Cruvinel

Cristo Redentor e o réveillon do Rio de Janeiro em 2018.

Cristo Redentor e o réveillon do Rio de Janeiro em 2018.

Não sei dizer em quantos anos o Brasil recuou em 2017 mas a roda andou para trás que, num olhar de relance retrospectivo, somos tentados a dizer: 2017 nunca mais! Vade retro, ano do retrocesso. Mas foi também este o ano em que a ficha, em que a população compreendeu claramente os objetivos do golpe de 2016, passando a identificar as forças que realmente representam seus interesses e a serviço de quem estão os que capturaram o governo em nome da moralidade e responsabilidade administrativa. E isso já é um grande motivo para acreditar que 2018 é promissor e pode ser o ano da reversão no sentido da roda.

Foi neste ano que hoje se encerra que o programa do golpe de 2016 se impôs, desmontando políticas públicas, degradando as condições de trabalho com a reforma trabalhista, entregando o patrimônio nacional, fortalecendo os setores políticos mais retrógrados, escrachando com as instituições e desmoralizando o sistema representativo ao ponto de, por duas vezes, a maioria venal da Câmara ter impedido que o ocupante da Presidência fosse investigado apesar das evidências de seus crimes. Crimes comuns, como obstrução da Justiça e corrupção passiva, e não o elástico crime de responsabilidade, que a maioria pode interpretar e tipificar torcendo a lei segundo a correlação de forças, como fizeram na deposição Dilma.

Mas por isso mesmo a ficha caiu, e a população agora enxerga o significado de todos os atos de Temer. Um dos últimos do ano – a garfada de 11 reais no valor do salário-mínimo – é gritante revelação do descompromisso de seu governo com os mais pobres, e também com o que deveria ser a prioridade das elites: a redução de nossa vergonha desigualdade, sem o quê não haverá civilização alguma nestes tristes trópicos onde há 500 matamos índios, mulheres e crianças, como disse o poeta. E negros, especialmente os jovens negros das favelas e periferias.

Neste ano em que a ficha caiu, as pesquisas mostraram que o governo tornou-se campeão de desaprovação e o presidente é o governante mais impopular do mundo. Neste ano em que a ficha caiu, o ex-presidente Lula assumiu a liderança na preferência eleitoral para a disputa presidencial, enquanto o bloco partidário governista segue sendo uma coalizão de “sete partidos em busca em um candidato”. Sim, não pode haver medida maior do fracasso do golpe do que o fato de sua coalizão não ter sequer um candidato com 2% de preferência. Na última sondagem do ano, a do Paraná Pesquisas, divulgada ontem, Henrique Meirelles tem 1,1%. Geraldo Alckmin chega a 8% mas, como têm dito os porta-vozes palacianos, sua candidatura é do PSDB, não do governo. Pelo menos, por ora. Lula, que representa a antítese do golpe, e Bolsonaro, o outsider da direita para além do governo, lideram de forma isolada. E isso é outra claríssima demonstração do fracasso do golpe.

Então, que 2017 se vá, pois nele andamos para trás em tantas coisas, não só na política, mas nas relações sociais e comportamentais. O retrocesso avançou em muitas frentes mas 2017 foi melhor que 2016, o ano da grande cegueira que permitiu o golpe. E que venha 2018, que há de ser o ano da restauração da democracia e do pacto civilizatório que precisa ser firmado para que possamos avançar.

Aos que ao longo do ano estiveram conosco no 247, aos que leram, concordando ou discordando ou com as opiniões e interpretações que apresentei no blog, agradeço pelo encontro, desejando um ano melhor, em todas as dimensões da vida. E para terminar, Carlos Drummond de Andrade, com sua insuperável Receita de Ano Novo.

*****

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumidas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

*Tereza Cruvinel é jornalista.

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