Dois velejadores baianos e um gaúcho são vítimas de esquema internacional de tráfico de drogas e mantidos presos pela polícia de Cabo Verde; jovem Rodrigo Dantas tem vínculo com Feira de Santana

Da esquerda para a direita: o capitão francês Olivier Thomas, Rodrigo Dantas, Daniel Danas e Daniel Guerra.

Da esquerda para a direita: o capitão francês Olivier Thomas, Rodrigo Dantas, Daniel Danas e Daniel Guerra.

Rodrigo Dantas ao lado dos pais Aniete e João Dantas, durante visita ao veleiro Rich Harvest (Colheita Rica). Família socialmente estruturada é afetada por esquema do tráfico internacional de drogas.

Rodrigo Dantas ao lado dos pais Aniete e João Dantas, durante visita ao veleiro Rich Harvest (Colheita Rica). Família socialmente estruturada é afetada por esquema do tráfico internacional de drogas.

Em 22 de agosto de 2017, a tripulação do veleiro Rich Harvest (Colheita Rica) — composta por Rodrigo Dantas, 25 anos, baiano, estudante de engenharia mecânica; Daniel Dantas, 43 anos, baiano, corretor de imóveis; Daniel Guerra, 36 anos, gaúcho, formado em relações interacionais; e o capitão francês Olivier Thomas — foi abordada pela polícia de Cabo Verde, com a finalidade de averiguar denúncia anônima de tráfico de drogas.

Durante a inspeção policial foram apreendidos 1157 quilos de cocaína. A droga estava acondicionada na estrutura do veleiro, em compartimentos lacrados com concreto, em lugares de difícil acesso físico e visual.

No instante em que foi identificada a droga, a polícia prendeu Olivier Thomas e Daniel Guerra. Eles se encontravam no veleiro e foram detidos em flagrante. Na sequência, foi procedida a detenção de Rodrigo Dantas e Daniel Dantas.

Rodrigo Dantas e Daniel Dantas não são parentes e conseguiram responder ao processo em liberdade. Mas, após quatro meses — proibidos pela justiça de retornar ao Brasil e desenvolvendo trabalhos em empresa de Cabo Verde — foram presos, sob a falsa alegação de que pretendiam fuga e retorno ao Brasil, hipótese veemente negada por João Dantas, pai de Rodrigo Dantas.

Sobre o episódio, João Dantas informou que o filho relatou tentativa de coação policial, quando o mesmo se encontrava detido. “Você pode morrer, se não vier a confessar”, disse o policial à Rodrigo Dantas.

A viagem

Conforme relato de João Dantas, o contratante dos tripulantes do veleiro foi o inglês George Oswald (Fox). Ele utilizou o site da empresa holandesa The Yacht Company, com a finalidade de selecionado velejadores, como tripulantes da embarcação, cujo trajeto seria iniciado em Salvador, Bahia, com destino à Açores, Portugal.

No dia 8 de julho de 2017, Rodrigo Dantas, Daniel Guerra, George Oswald (Fox) e Carlos Orosco, mecânico de origem argentina, responsável pela reforma do veleiro, partiram em direção à Natal, Rio Grande do Norte.

Em 11 de julho de 2017, aportaram em Natal. George Oswald (Fox) e Carlos Orosco se despiram da tripulação. Fox contratou Daniel Dantas e o capitão Olivier Thomas, com a finalidade de completar a tripulação, e diminuir as trocas de turno de navegação.

Na sequência, a Polícia Federal (PF), com uso de cão-farejador, realizou inspeção do veleiro. A falha na inspeção da PF foi confirmada pelo delegado Rubens Alexandre de França. Ele avalia que a droga tenha sido carregada com a embarcação em terra, e que a mesma chegou à Natal carregada com as drogas.

No dia 3 de agosto eles zarparam de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil rumo a Açores, Portugal. Após 18 dias navegando pelo Oceano Atlântico, aportaram em Cabo Verde e foram abordados pela polícia. Neste momento, o sonho dos velejadores em se transformarem navegadores profissionais foi atingido pela tragédia das prisões e acusações por possível tráfico internacional de entorpecentes.

Acusação

Eles respondem à acusação do Ministério Público de Cabo Verde de “crime de tráfico de drogas de alto risco”. O MP alega que o crime aconteceu desde o primeiro momento em que a droga começou a ser transportada. A pena pode chegar a até 20 anos de reclusão, se for comprovada a associação ao tráfico.

Vítimas

Observa-se que no perfil de Rodrigo Dantas, Daniel Dantas e Daniel Guerra não constam antecedentes criminais, envolvimento com drogas e que são oriundos de famílias socialmente estruturadas.

Observa-se, também, que os elementos materiais do caso, relatos dos velejadores e depoimentos dos familiares induzem a conclusão de que eles foram vítimas de um esquema internacional de tráfico de drogas. Geralmente, este tipo de esquema utiliza pessoas sem vínculos com o crime e que desenvolvem a atividade para a qual foram contratados, desconhecendo que ela é utilizada para tráfico de entorpecentes.

É registrado no histórico policial que organizações criminosas atraem pessoas com o perfil dos brasileiros, ou seja, pessoas socialmente estruturadas, sem antecedentes criminais, com objetivo de camuflar transporte internacional de drogas.

Infere-se que não é a primeira vez que relatos trágicos como este são registrados. Situações em que pessoas comuns são presas, sem terem envolvimento com o crime. É celebre a obra de Franz Kafka, intitulada ‘O Processo’, publicação que deu origem ao conceito de processo kafkiano, em alusão ao fato de pessoas serem submetidas a processos judiciais em atmosfera claustrofóbica, absurda e distópica sofrerem condenação sem culpa.

Feirenses

Filho de João Dantas e Aniete Dantas, Rodrigo Dantas tem intenso vínculo com Feira de Santana, nascido em Salvador, foi educado no Colégio Hélio, em Feira de Santana. Os pais e o avô João Torres desenvolveram atividade comercial em Feira de Santana.

Reportagens

Duas reportagens foram produzidas sobre o assunto. A primeira foi realizada, em 29 de dezembro de 2017, por Lígia Mesquita, da BBC Brasil e republicada no Jornal Grande Bahia (JGB), com o título ‘Velejadores brasileiros presos com R$ 800 milhões em cocaína em Cabo Verde são vítimas de esquema internacional de tráfico de drogas’. A segunda reportagem, ‘Parentes querem provar que presos em Cabo Verde por tráfico são vítimas’, foi produzida pelo programa Fantástico, contou com apresentação de José Raimundo e foi veiculado na Rede Globo de Televisão, em 14 de janeiro de 2018.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia).