Ano Novo!? | Por Ernesto Marques

Vista da cidade de Nova York, Estados Unidos da América (EUA), uma dos centros capitalistas do mundo.

Vista da cidade de Nova York, Estados Unidos da América (EUA), uma dos centros capitalistas do mundo.

Quando eu nasci o deus-mercado já tinha transformado a chegada do filho de Deus numa monumental oportunidade de negócios em escala planetária. Talvez por extrema generosidade d’Ele, cheguei a esta vida numa família que praticou, muito mais do que pregou, as coisas que levaram Cristo à cruz onde muitos insistem em mantê-lo até hoje.

É fato: 2017 anos atrás ainda não havia bancos, mas as cortes de Herodes e Pilatos, como em regra todas as cortes através dos tempos, pregam virtudes enquanto praticam, sem falsos pudores, a gula, a luxuria, a avareza, a ira, a soberba, a preguiça e a inveja. É da natureza do Capital criar e difundir essas hipocrisias que, a um só tempo, entorpecem e escravizam.

Por uma semana ou um mês, enquanto somos bombardeados por indecentes estímulos ao consumo predatório, somos acometidos por uma generosidade de ocasião e por um espírito fraterno que não vai além das 24 horas do feriado do Dia da Confraternização Universal.

Depois de queimarmos bilhões em pirotecnia, depois de lançarmos muitos milhões de toneladas de lixo no ambiente que nos cerca, depois de consumirmos altas doses de drogas lícitas e/ou ilícitas, recomeçamos do mesmo ponto onde estávamos quando, sazonalmente, entendemos que precisamos enxergar Ele em quem estiver à nossa volta.

Assim pagamos uma espécie de santa indulgência, modernizada e tacitamente instituída, que não nos garante acesso ao reino do céu, mas expia as nossas culpas pelos pecadilhos a serem cometidos nos proximos meses, até que o santo Google volte a nos massacrar com a perversão do consumo insustentável.

Depois da meia noite deste 1° de Janeiro, a pregação do pessoal do RH se sobrepõe a qualquer mensagem de sacerdotes de todas as correntes religiosas: a partir da zero hora do dia 2, às favas as mensagens bonitinhas compartilhadas até ontem. É preciso ser competitivo, criativo, inovador, empreendedor…

Nas entrelinhas do discurso emplumado sobre as chaves do “sucesso”, o estímulo a práticas opostas ao tal espírito das festas de fim de ano: pise no pescoço do colega, se isso for necessário para garantir seu pescoço na próxima reestruturação da empresa; crie novos processos para reduzir custos e maximizar ganhos que não serão compartilhados com você; e, principalmente, abra mão de direitos, se quiser ganhar as migalhas que lhe cabem nesse latifúndio capitalista.

Correndo o risco de parecer cético ou até exótico, e tomando emprestados versos de um outro baiano, tudo o que quero é dizer, ainda que minhas palavras possam espantar, é que eu não consigo entender essa lógica. Noutras palavras, sou muito romântico.

Aprendi a juntar palavras no usufruto de privilégios reservados pela nossa sociedade escravocrata a um homem branco e de classe média. Sem nunca ter feito voto de pobreza e nem pretender fazê-lo, prefiro a desambição aprendida em casa para contestar a ideia da família tradicional como única possibilidade de gerar gente do bem e para combater esses privilégios que apartam iguais por julgarem-se diferentes. Tudo que quero é um acorde perfeito maior, com todo mundo podendo brilhar num cântico. Otimista irredutível, guardo a alegria e a fartura das festas de fim de ano para levar adiante a fé e a labuta necessários para continuar acreditando que um dia a gente chega lá. Feliz ano novo!

*Ernesto Marques é jornalista e radialista.

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