UFBA: reitor João Carlos Salles concede entrevista e aborda “a defesa da universidade pública em tempos de ataques e incompreensão”

Entrevista com o reitor João Carlos Salles para o Observatório de Análise Política em Saúde do ISC/UFBA.

Entrevista com o reitor João Carlos Salles para o Observatório de Análise Política em Saúde do ISC/UFBA.

– A defesa da universidade pública, o papel da universidade para a formação política e enquanto espaço de resistência, além do atual contexto político, econômico e social brasileiro foram destaques na programação o Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da Universidade Federal da Bahia (UFBA) 2017, realizado entre 16 e 18 de outubro de 2017, em Salvador. Por que pautar esses temas no Congresso? Você poderia apontar, entre estas discussões, fatos ou análises que te surpreenderam ou chamaram mais sua atenção?

O centro do Congresso da UFBA sempre será a Universidade. E isso mais ainda neste momento de tanta tensão política, de imensa dificuldade orçamentária e, sobretudo, de grande intranquilidade em relação ao compromisso mesmo do estado com o financiamento do ensino superior. Chamou-me especialmente a atenção a grande sintonia do Congresso com os temas que ora despertam mais cuidado, a exemplo da autonomia da universidade e das questões de gênero.

Também pude notar a grande integração entre a programação específica da Universidade, as mesas que organizamos, e a programação organizada, a nosso convite, dentro do Congresso, pelo coletivo responsável pelo Fórum Social Mundial. Isso é uma confirmação do acerto em acolhermos o Fórum no espaço da UFBA em março de 2018. É também um bom prenúncio, um sinal de bons augúrios, de que as temáticas que mobilizam o Fórum Social Mundial desafiam nossa competência acadêmica e nosso vínculo com a sociedade. E, enfim, pela participação extraordinária, fica clara a importância para todos de a UFBA constituir-se ela mesma em um fórum de ideias, um lugar que se renova pelo debate, uma instituição que justifica sua existência estando em plena sintonia com nosso tempo.

– Ameaças à autonomia universitária têm sido apontadas e discutidas especialmente após a morte do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier. Você consegue identificar momento/s ou fato/s anterior/es que marcam o início desse cenário de riscos, ou aumento de riscos, para a atuação das universidades públicas? A tragédia envolvendo Cancellier motivou um despertar entre os/as defensores/as do direito à educação e da universidade pública no Brasil?

Sem dúvida, ainda estamos todos consternados com a agressão sofrida pelo reitor e pela universidade. O reitor humilhado e a universidade desconsiderada como entidade autônoma, como entidade capaz de responder perante a opinião pública e os demais órgãos estatais, segundo a legislação usual. Hoje, todos identificam excessos gravíssimos nesse episódio, mesmo instrumentos de imprensa mais conservadores. Mas agora o dano é irreparável, como bem sabemos. Entretanto, também nos deve alertar, por exemplo, contra a campanha que as diversas universidades têm sofrido, apresentadas em reportagens diversas como perdulárias, mal geridas, etc.

Falhas obviamente podem ser apontadas e erros são apontados e investigados por nós mesmos. Não se trata de ignorar problemas, mas sim de evitar que, em uma narrativa de destruição, fatos sejam exagerados e, logo, distorcidos. Divulgados sem contexto, como se todos exemplificassem algum escândalo. Isso parece exatamente uma preparação para medidas drásticas, que podem comprometer sim o próprio ideário de uma instituição pública, gratuita, inclusiva e de qualidade.

As distorções dos noticiários são flagrantes, e já começam na incompreensão acerca da singularidade de uma instituição acadêmica em que ensino, pesquisa e extensão são indissociáveis. Por isso, tratam e apresentam as universidades como uma repartição pública qualquer, não percebendo as regras singulares que, supervisionadas democraticamente por nossas instâncias, devem presidir, por exemplo, nossos concursos. Isso, quando não a confundem com empresas privadas, e tratam nosso orçamento, comparando-o com o modo característico de gestão de pessoal em outras empresas privadas de ensino, nas quais nem sempre há o compromisso com a pesquisa e com a formação de cidadãos.

Também não compreendem o enriquecimento recente da universidade pela política de cotas. Insisto, enriquecimento, ampliação, diminuição de nossa dívida histórica com o acesso ao ensino superior a ser oferecido para camadas mais amplas da nossa população. Por isso mesmo, não compreendendo essa ampliação a não ser de forma contábil, resistem em tirar consequências para a diminuição interna de desigualdades, ou seja, querem diminuir o investimento agora, quando seria ainda mais importante para uma verdadeira inclusão.

Em suma, compreendendo mal a natureza da autonomia universitária, desprezando até os valores fundamentais que se associam à vida universitária (lugar de ampliação de direitos e de formação, e não apenas de oferta mais barata de diplomas), muitos discursos querem diminuir a importância da manutenção de compromissos de longa duração do estado, compromissos que devem garantir uma produção de conhecimento e uma formação de qualidade, sem subordinação de nossos interesses estratégicos a interesses bem menores e de curta duração de governos, partidos ou do mercado.

– Você construiu uma trajetória como militante – desde a época em que era estudante secundarista, passando pelo ambiente universitário e incluindo a participação na Ação Popular Marxista Leninista. De que forma a experiência na militância, bem como as reflexões sobre suas potencialidades e limites, contribuem para sua atuação como reitor de uma universidade pública, especialmente nesta conjuntura?

Uma trajetória de militante, sim, mas sobretudo de espírito militante em diversas dimensões da vida universitária. A experiência política nos ajuda a separar o interesse pessoal do interesse coletivo, amplia nossa capacidade de escuta, se a militância não for estreita e se a causa maior for verdadeiramente generosa, e não apenas pessoal. Mas destaco e enfatizo sim o fato de que, por vezes inadvertidamente, tive oportunidade de me envolver em diversas dimensões essenciais da vida universitária. Estive envolvido fortemente com a extensão na UFBA, no momento que se gestavam as ACCs. Também fui coordenador de pesquisa, tendo contribuído diretamente para a constituição de dois programas de pós-graduação, especialmente para o programa de filosofia.

Tive ainda a oportunidade de exercer vários cargos, de circular na universidade, de amar e respeitar isso que é fundamental para a UFBA, a saber, o fato de que ela nasce uma universidade inteira, em que as diversas áreas se complementam, devendo dialogar mais e mais. Certamente, a Universidade é um espaço privilegiado, um lugar natural de ampliação de direitos. Assim, ao reconhecer a importância da militância política, deve enfatizar o fato de que, muitas vezes, falta uma reflexão sobre o específico à Universidade. É preciso reconhecer e defender a riqueza da universidade, como um projeto de interesse da humanidade e não de uma ação política qualquer mais restrita.

A militância ensina a importância de ter projetos de longa duração. Entretanto, a vida universitária cobra sonhos próprios da academia, cobra um projeto todo próprio e singular, um projeto de excelência acadêmica, convívio e compromisso social, que não é uma mera continuidade do que pode ser gestado em sindicatos ou partidos.

– Você defende a concepção de universidade como um lugar de pesquisa não separado do mundo ou desvinculado de compromissos sociais. Essa ideia ainda encontra resistência no ambiente acadêmico? Como aproximar a produção acadêmica dos desafios reais da população? Quais devem ser os compromissos assumidos pela comunidade universitária diante da sociedade, tendo em vista a necessidade de responder aos desafios impostos por esta conjuntura desfavorável?

A UFBA cultiva bem o interesse social da produção do conhecimento. E, nas diversas áreas, seja por seus objetos seja por sua ação extensionista, a sociedade oferece régua e compasso para nossa atividade de pesquisa. Entretanto, isso não impede que muitos tenham, sobretudo fora da universidade, uma visão diretamente instrumental da pesquisa. Há assim governantes que pensam que o fomento deve atender a demandas específicas, o que se torna bastante grave em tempos de escassez do fomento. Formulam assim a equação: o estado tem uma necessidade, a sociedade tem um problema, encomenda-se uma resposta direta, abre-se um edital específico. Que não se descarte essa ação, é claro. Por exemplo, diante da ameaça imediata do zika vírus, não caberia apostar exclusivamente em uma pesquisa de longo prazo. A população e os gestores precisavam de respostas rápidas a questões precisas. Entretanto, não se pode transformar a emergência em modelo, sob pena de transformarmos a pesquisa em uma espécie de consultoria de curto espectro e de subordinar a determinação autônoma do que deve ser pesquisado a uma sistemática de encomenda.

A pesquisa tem aspecto mais amplo e de mais longa duração, tem função formadora que se beneficia de um crescimento conjunto do conhecimento, de um ambiente multifacetado, no qual a pesquisa em saúde, por exemplo, não se aparta da pesquisa na área de humanas, nem deixa de se beneficiar de interfaces múltiplas com as exatas e, em particular, com as tecnologias de informação. Ao mesmo tempo que tem seu largo espectro, que deve ser protegida mesmo em ações que não se mostram imediatamente úteis, a pesquisa inteira (no que envolvo inclusive as artes) faz parte de um caminhar concertado da cultura, uma produção de conhecimentos e de sentidos que, de forma ampla, justificam-se em conjunto por seu interesse social.

Neste momento, importa portanto defender a própria continuidade autônoma e conjunta da pesquisa, sabendo de sua relevância social e, por isso mesmo, impedindo que ela se subordine a interesses mais imediatos, aos quais deve ser capaz de responder de forma não amesquinhada. Por isso mesmo, a Universidade é um lugar e uma forma de vida privilegiada para tornar harmônicas as respostas a emergências e a compromissos de longa duração.

– Dificuldades como paralisação de obras e cortes de bolsas tem sido vividas por universidades federais em todo o país. No caso da UFBA, os desafios são maiores por se tratar de uma universidade localizada no Nordeste do Brasil, país ainda marcado por muitas desigualdades regionais?

Houve clara descontinuidade na política de investimentos nos campi de nossas universidades federais. Na rubrica de capital, com a qual tocamos as obras, foram maiores os cortes ou contingenciamentos. Associado a outros fatores, esse foi o principal responsável para a não continuidade em ritmo adequado das obras em andamento e sobretudo para obras apalavradas que sequer puderam começar. Também a redução no fomento ameaça a continuidade de pesquisas, sem dúvida. Diria, porém, que os desafios são maiores para as grandes universidades, como é o caso da UFBA, que, em orçamento e número de alunos, figura entre as 10 maiores das 63 universidades federais. São elas que, por comportarem mais demandas, sentem os efeitos do contingenciamento e do corte; são elas que precisam manter contratos mais volumosos e, com pesquisas mais maduras, podem sofrer ainda mais com a repentina ausência de recursos.

De toda forma, nossa atenção às condições de pesquisa é clara. Destacaria que, mesmo nesse cenário de dificuldades, adotamos políticas inovadoras, como a do edital de professor visitante, e conseguimos melhorar nosso posicionamento global na recente avaliação quadrienal da pós-graduação, assim como temos melhorado os conceitos de cada curso de graduação visitado pelo INEP. Isso não nos leva a protestar menos. Por uma ação de nossas entidades, com apoio da Reitoria, foi instalado um “tesourômetro”, com o qual registramos para a comunidade o volume de cortes sofrido pela ciência e pela tecnologia em nosso país. E, recentemente, não posso deixar de registrar, tive a experiência, inédita para mim, de assinar o cancelamento de um termo de outorga, em função de o projeto, beneficiado por edital há três anos, não ter recebido qualquer recurso, sendo uma temeridade para o pesquisador manter compromissos com a equipe de pesquisa e mesmo sua credibilidade nesse cenário.

– Sob o ponto de vista da gestão das universidades, quais as estratégias de enfrentamento deste cenário de redução e inconstância de repasses por parte do governo federal? Quais suas projeções e perspectivas para o futuro? É possível evitar os impactos negativos nas atividades de ensino, pesquisa e extensão nos próximos anos?

Nossa estratégia principal tem sido relativamente simples. Por um lado, total transparência perante a comunidade universitária e a sociedade. Não deixamos de informar nossa situação orçamentária e a situação de nossas obras em nenhum momento, nem deixamos de nos manifestar sobre os diversos aspectos afetos à vida universitária. Por outro lado, nossa procura por conjugar os cuidados próprios de gestão e eficiência administrativa com a resistência pública, por todos meios, confiando que a universidade é um valor universal, um patrimônio da sociedade. Creio, assim, que depende sobretudo de nossa mobilização e dos laços renovados de nossa aliança com os melhores interesses da sociedade, de forma plural e democrática, a defesa urgente e necessária de uma universidade pública de qualidade.

Temos, portanto, uma pauta de resistência. Um cenário de restrições orçamentárias, mas sobretudo de ameaças ao atual modelo de ensino superior, solicita-nos competência e criatividade como gestores, mas também clareza e força coletiva para defender os valores que nos são essenciais.

Perfil

Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (1999). Atualmente, é professor associado da Universidade Federal da Bahia, tendo sido Diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. Entre outros livros, publicou A Gramática das Cores em Wittgenstein (CLE/Unicamp, 2002), O Retrato do Vermelho e Outros Ensaios (Ed. Quarteto, 2006) e O Cético e o Enxadrista: Significação e Experiência em Wittgenstein (Ed. Quarteto, 2012).

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