Inteligência Artificial é a prioridade hoje | Por Rodrigo Scotti

Inteligência Artificial impactará as tarefas que demandam capacidades cognitivas da mesma forma que a máquina a vapor impactou as tarefas físicas no século 19.

Inteligência Artificial impactará as tarefas que demandam capacidades cognitivas da mesma forma que a máquina a vapor impactou as tarefas físicas no século 19.

Recentemente, participamos, em Toronto, do evento “Machine Learning and Market For Intelligence”, conferência anual do Creative DestructionLab (CDL), programa canadense de empreendedorismo para empresas com base em ciência e na escalabilidade dos produtos. Fomos a única empresa brasileira nessa última edição do CDL e uma das poucas convidadas a expor na conferência. O critério de seleção era que a tecnologia desenvolvida pela empresa fosse capaz de transformar a realidade, seja do ponto de vista social, industrial ou econômico.

Apresentamos nossas soluções, números e cases para diversos especialistas, pesquisadores, investidores de capital de risco e CEOs de grandes companhias. Trocamos informações com algumas das mentes mais geniais do mundo quando o assunto é Inteligência Artificial (IA) e também com figuras importantes da política. Tivemos a oportunidade de conversar por alguns minutos com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e até o presenteamos com meias da Nama.

O primeiro-ministro foi um dos palestrantes do Market for Intelligence, onde comentou sobre as iniciativas colocadas em prática por seu governo para apoiar o crescimento da IA no Canadá. Ele destacou o fato de o país reunir pessoas das mais diversas origens e nacionalidades, funcionando como um lugar ideal para desenvolver uma tecnologia de ponta e aplicá-la a cenários multiculturais. Canadá que, por sinal, é bem famoso por sua característica “immigration friendly” e está investindo pesadamente para se tornar o epicentro mundial quando o assunto é Inteligência Artificial. Em uma lista recente das seis cidades mais multiculturais do planeta, duas são canadenses: Vancouver e Toronto.

Mais da metade da população de Toronto é formada por estrangeiros e pessoas de origens étnicas diversas, o que se reflete em um mercado bastante aberto e colaborativo. Nesta, que é a maior cidade da província de Ontário, são falados cerca de 200 idiomas, e essa diversidade lingüística continua aumentando. De 2011 a 2016, o número de canadenses que falam um segundo idioma além da língua materna cresceu em 1 milhão, atingindo 7,6 milhões de pessoas. Esta qualidade é um prato cheio para o desenvolvimento de novas tecnologias envolvendo Processamento de Linguagem Natural (NLP), um dos campos mais quentes hoje dentro da inteligência artificial.

Vale lembrar, inclusive, que a IA é um importante foco de atuação do poder público do país, que oferece fundos e subsídios fiscais para investimentos na área, além de recentemente ter criado o Vector Institute, centro de pesquisa que busca concentrar e potencializar o desenvolvimento do setor e aplicações cada vez maiores no mercado. O instituto fica localizado em Toronto e conta com Geoffrey Hinton, um dos pais da inteligência artificial e precursor do machine learning, como membro consultor-chefe de pesquisa da organização.

Além disso, o meio corporativo canadense também está respirando essas tecnologias. Empresas como Facebook e Uber já instalaram seus laboratórios de IA no país e um relatório da PricewaterhouseCoopers, divulgado no início de dezembro, mostra que o financiamento com capital de risco às startups de tecnologia canadenses atingiu o maior valor dos últimos dois anos. O relatório ainda indica que as empresas de inteligência artificial canadenses receberam um volume de investimento recorde nos primeiros nove meses do ano, somando US$ 244 milhões em 22 aportes.

Notar todo o interesse do primeiro-ministro em um evento puramente tecnológico e a efervescência da IA no ambiente corporativo canadense confirma nossa percepção de que as nações estão encarando a Inteligência Artificial de uma nova maneira. Outros governos no mundo também deram mostras de estarem priorizando a IA em seus investimentos. Líderes chineses anunciaram recentemente seu compromisso em transformar a China em uma potência mundial também no segmento de IA até 2030. Em setembro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse em um discurso transmitido via satélite para alunos e professores de 16 mil escolas ao redor do país que o futuro está na IA e que, a exemplo do que busca fazer no campo científico de forma geral, a Rússia está investindo para tornar-se líder neste setor.

No ano passado, a Maluuba – focada no processamento de linguagem natural (NLP), e a Meta – motor de busca que lê e analisa milhões de artigos científicos em segundos, estavam neste mesmo lugar em que estivemos no fim de outubro, participando como expositoras do Market For Intelligence. Um ano depois, a Maluuba foi adquirida pela Microsoft, e a Meta, pela Chan Zuckerberg Initiative, empresa liderada pela esposa de Mark Zuckerberg, Chan, que promete encontrar a cura de todas as doenças até o final deste século.

Startups de várias outras partes do mundo também apresentaram seus modelos de negócio. A URU, por exemplo, pretende revolucionar a publicidade nos vídeos da internet. Projeto desenvolvido na escola nova-iorquina NYC’s Cornell Tech criou um sistema capaz de inserir anúncios diretamente em cenas e objetos que aparecem nos vídeos, funcionando como uma alternativa aos comerciais que são reproduzidos automaticamente antes da exibição do vídeo. Já a Iris é uma plataforma que analisa resumos de artigos científicos e os relaciona com outras pesquisas similares, organizando por palavra-chave e por tema. Outra startup, a Cerebri, utiliza big data e IA para levantar informações sobre a jornada do consumidor e entregar às empresas estes dados, que serão essenciais na captura e retenção do cliente.

Um programa de Inteligência Artificial do Google (chamado de Alpha Go), que venceu o campeão mundial do jogo chinês Go, em maio, foi derrotadopor um outro computador. A nova versão, chamada AlphaGo Zero, aprendeu o jogo do início de uma forma autônoma (sem se basear em nenhum jogo humano anterior) e, com menos horas de jogo de treinamento e menor capacidade de processamento, ganhou da versão mais antiga, que havia derrotado o campeão mundial humano. O Alpha Go usou um processo chamado de Reinforcement Learning, que permite à aplicação aprender a se comportar com base na resposta de seu meio ambiente. O robô ainda teria capacidade de se adaptar com o passar do tempo, abrindo a possibilidade de sofrer constantes melhorias dentro daquele contexto.

Se há 100 anos a eletricidade mudou de maneira indelével a forma que vivemos, acreditamos que a nova revolução virá pelos algoritmos da Inteligência Artificial. Teóricos do setor apontam esta fase que se aproxima como a 4ª Revolução Industrial. Uma comparação pertinente sobre o assunto é que a IA significará para as tarefas que demandam capacidades cognitivas o que a máquina a vapor foi para as tarefas físicas na primeira revolução industrial, no século 19. O revolucionário na evolução exponencial que estamos prestes a presenciar em Machine Learning é o desenvolvimento de “cérebros” artificiais que encontrem modelos de maneira autônoma e que desenvolvam a habilidade de evoluir seus próprios algoritmos. É a máxima que repetimos desde a fundação da Nama: melhor do que criar computadores inteligentes é desenvolver máquinas com capacidade de aprender.

Foi justamente sobre isso que falou Scott Phoenix, cofundador da empresa de pesquisa em IA Vicarious, em sua palestra no Market For Intelligence. Para ele, atualmente, a IA está fornecendo uma ilusão de inteligência, já que as máquinas não compreendem propriamente as informações, mas leem códigos e seguem processos pré-estabelecidos. Ele falou sobre o conceito conhecido como Artificial General Intelligence (AGI), que descreve o estágio em que máquinas alcançariam consciência, elaborariam pensamentos abstratos e criariam novas maneiras de aprendizado para elas próprias. Será o mais próximo que teremos chegado à simulação de um cérebro humano.

Já Ben Goertzel, cientista-chefe da firma de robótica Hanson Robotics e da Aidya Holdings, define a AGI como a capacidade de atingir objetivos complexos em ambientes também complexos usando recursos computacionais limitados. Ele esteve intimamente envolvido no projeto de Sophia, robô da Hanson Robotics que teve a cidadania concedida pelo governo da Arábia Saudita, o primeiro caso do gênero da história da humanidade. Goertzel visualiza um futuro próximo no qual inteligências artificiais compartilharão conhecimento por meio de blockchain (sistema de registros que embasa o bitcoin – espécie de dinheiro virtual) e contratos inteligentes, que são justamente os protocolos executáveis de computador que garantem a segurança dessas transações online.

Anfitriã do evento, Shivon Zilis é membro fundadora do fundo de investimento de capital de risco Bloomberg Beta e uma das grandes entusiastas do uso de Machine Learning em todos os setores da economia. Em pouco mais de um ano, já investiu em 35 empresas que desenvolvem este tipo de tecnologia e tem colhido resultados significativos, contribuindo para a evolução exponencial do Deep Learning. Ela defende que as tecnologias de desenvolvimento da Inteligência Artificial sejam abertas e compartilhadas de maneira transparente, de modo a envolver o maior número possível de pessoas, e atua para que as discussões envolvendo IA conectem desenvolvedores aos atores políticos.

Somado a isso, segundo a CTO da Kindred AI, Suzanne Gildert, a robótica ajudará os robôs a não só raciocinarem como humanos, mas também a se sentirem humanos. Especialistas estimam que alcançaremos tal grau de evolução em menos de 20 anos. Cedo ou tarde, o fato é que a revolução através da IA é inevitável e, como falou o CEO da Grammarly, Brad Hoover, ela se consolidará como um complemento comunicacional dos seres humanos. Mais ou menos da maneira que os pesquisadores do MIT, Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, descreveram em um artigo recente: “nas próximas décadas, os computadores não chegarão a substituir os gestores, mas os gestores que souberem como utilizar a IA no dia a dia substituirão os que não o fizerem”.

*Rodrigo Scotti é CEO da Nama, primeira empresa no Brasil a desenvolver um sistema próprio de Inteligência Artificial.

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