18 de Novembro. Aniversário de Adália Grangeiro, matriarca da Doutrina do Daime

Adália Grangeiro

Adália Grangeiro

Adália Castro Grangeiro é mãe de 9 filhos. Quando ainda eram crianças, ela e o seu marido, o sr. Francisco Grangeiro, como pais zelosos, eram responsáveis pela saúde e bem-estar de todos eles.

Certo dia, o seu filho Valcírio se encontrava adoentado, febril, com dores por todo o corpo. Mãe diligente, dona Adália fala para o menino:

— Meu filho, vá lá na casa do Padrinho Irineu e pede pra ele lhe rezar, lhe benzer. Diga que fui eu que lhe mandei.

Ela mesma estava impossibilitada de acompanhar o garoto, pois tinha outros 8 filhos para olhar.

A família Grangeiro residia então nas terras sagradas do Alto Santo (Rio Branco – Acre). Lugar onde Raimundo Irineu Serra vivia e implantara a Doutrina do Santo Daime, misteriosa bebida de poder inacreditável.

O ofício de rezador e benzedor ainda hoje é comum em terras acreanas. É uma tradição do período anterior a chegada da medicina científica àquelas plagas. Os males do corpo e da alma eram combatidos pelo curandeirismo popular e as práticas mágico-religiosas.

Lá foi o menino. Ao chegar na porta da casa do Mestre Irineu, o encontra em animada roda de conversa com um grupo de amigos, todos adultos. Timidamente, o pequeno Valcírio balbucia:

— Bença, Padrinho!

— Deus te abençoe!

Acanhado, sussurra baixinho:

— Minha mãe me mandou aqui pro senhor me rezar…

Antes de terminar a frase, atenciosamente o Velho Mestre fala para o menino:

— Pode voltar pra casa. Está tudo bem.

E retoma a animada conversa com a roda de amigos.

No caminho de volta para a sua humilde mansarda, o menino Valcírio pensa consigo mesmo: “puxa… eu vim aqui pro Padrinho me rezar, que minha mãe mandou, e ele nem me deu atenção”…

E assim o garoto foi pela estrada, “trocando pensamento”. Todavia, enquanto pensava “em coisa à toa”, as dores do corpo foram diminuindo, a febre baixando… o menino caminhando… quando chegou em casa… já estava curado.

Algumas décadas antes, o sr. Antônio Gomes da Silva, avô do hoje adulto Valcírio Gomes Grangeiro, chegara àquela mesma porta em busca de um auxílio, um socorro.

Doença e cura de Antônio Gomes, pai de Adália

Corria o ano de 1938. Atormentado por grave doença, Antônio Gomes fora aconselhado pelo amigo Zé das Neves a procurar “um negro alto que curava” (Mestre Irineu). Inicia então um tratamento espiritual com o Daime (Ayahuasca) e recebe a graça da cura.

Poeticamente, em um tocante e emotivo cântico, ele narra a sua história, e declara:

Meu chefe me deu licença

Para hoje nós cantar

Para todos ver um milagre

Que eu tenho para mostrar

 

Meu chefe veio me curar

Que a Rainha mandou

Com o poder do Pai Eterno

E as forças do Redentor

 

Eu recebi esta cura

Com muita satisfação

Me acho hoje curado

Junto com meus três irmãos

(Hino nº 5 Declaração. Hinário Amor Divino, de Antônio Gomes da Silva)

Antônio trouxera consigo toda a família para acompanhar a Missão de Mestre Irineu. E, não só ele, mais seus outros 3 irmãos enfermos, receberam o perdão de Jesus Cristo Redentor — e a benfazeja saúde sobrepujou a nefasta doença.

Se alistam nos exércitos da Rainha da Floresta o patriarca Antônio Gomes e os seus filhos Leôncio, Raimundo, Guilherme, Adália, José e Zulmira. E os filhos dos seus filhos. Uma numerosa família.

Tendo conhecido o poder divino que emanava do aparelho físico do homem simples do povo Raimundo Irineu Serra, Antônio testifica em um dos seus hinos:

Jesus Cristo veio ao mundo

Terminou o que veio fazer

Entregou ao nosso Mestre

Ele tem o mesmo poder.

(Hino n° 30 Recebemos com amor, Hinário Amor Divino, de Antônio Gomes da Silva)

A trajetória de Antônio Gomes como Soldado da Rainha foi curta. Conheceu a Doutrina do Daime no ano de 1938 e faleceu em 1946. Legou à irmandade o seu caderno de hinário, “O Amor Divino”, de mensagens revelatórias, e é um dos livros sagrados da Doutrina que se iniciava.

A morte é muito simples

A história do falecimento do velho patriarca está associada ao recebimento de um importante hino doutrinário, reeencarnacionista, por Mestre Irineu.

Foi assim: Antônio Gomes, muito doente, pressentiu que a hora do seu desencarne se aproximava e pediu para chamarem o Mestre Irineu Serra para uma conversa.

— Irineu rapaz, e agora? Tô com medo, tô sem conforto. Eu sei que vou morrer.

Aí o Mestre Irineu lhe disse:

— Calma! Eu vou te dar uma resposta, mas não agora.

O Mestre foi para casa, tomou Daime, elevou o pensamento, em busca de uma solução. Foi buscar a cura para o seu discípulo dileto lá em cima, no Astral Superior.

Nesse sagrado momento, Irineu Serra, que fora reconhecido como General Juramidã pelo amigo moribundo, recebe o hino esclarecedor:

Só eu cantei na barra

Que fiz estremecer

Se tu queres vida eu te dou

Que ninguém não quer morrer

 

A morte é muito simples

Assim eu vou te dizer

Eu comparo a morte

É igualmente ao nascer

 

Depois que desencarna

Firmeza no coração

Se Deus te der licença

Volta a outra encarnação

 

Na terra como no Céu

É o dizer de todo mundo

Se não preparar o terreno

Fica espírito vagabundo.

O Velho Mestre voltou ao leito de morte de Antônio Gomes e lhe disse:

— Eu trouxe a resposta que eu ‘tava lhe devendo.

E cantou o hino. Neste momento chegou o conforto para Antônio Gomes. Ele entendeu e compreendeu a mensagem. Foi uma instrução de conforto muito grande.

Na hora da sua passagem para o Mundo Espiritual, Antônio Gomes reuniu a família, toda a irmandade, e mandou todos rezar.

— Comecem a rezar, a rezar…

E o povo rezando o Pai Nosso, a Ave Maria… Com o passar das horas, a reza esmoreceu. O velho moribundo, como patriarca cioso, ainda teve forças para repreender:

— Tem gente que não está rezando!…

Revigoradas as preces, o seu Antonio Gomes, um dos primeiros companheiros e discípulo do Mestre Irineu, partiu serenamente para o mundo espiritual, como em mahasamadhi de um grande iogue.

No velório do patriarca, a menina Adália, de apenas 11 anos de idade, fora convocada a cantar os hinos do falecido pai, ajudando dona Maria Tenório a “puxar o hinário”. Tomou gosto pela coisa, ela que já bebia Daime desde os 5 anos de idade e era uma discípula firmada nos batalhões dos exércitos da Rainha da Floresta.

Adália Grangeiro, puxante de Hinário 

Dessa maneira, Adália Grangeiro se tornou uma “puxante” (puxadora) oficial de hinário aos 20 anos de idade, e de lá para cá, é uma depositária fiel da memória musical da Doutrina do Santo Daime. Guardiã da tradição oral desta religião cabocla.

Adália Castro Grangeiro

Adália Castro Grangeiro

Adália Castro Grangeiro nasceu em Rio Branco, capital do Acre, em 18 de novembro de 1933, filha do sr. Antônio Gomes da Silva e da sra. Maria Gomes Monteiro. Veio ao mundo na Colônia Gabino Besouro (atual Calafate). Casou-se com o sr. Francisco Grangeiro Filho em 05 de dezembro de 1951. É mãe de 9 filhos: Guilherme de Castro Grangeiro, Valcírio Gomes Grangeiro, Francisca de Castro Grangeiro, Maria Conceição de Castro Grangeiro, Maria Zeneide de Castro Grangeiro, Leonel de Castro Grangeiro, Maria de Nazaré Grangeiro Carioca, Clara de Castro Grangeiro e Cecília de Castro Grangeiro. Adália é avó de 39 netos, bisavó de 50 bisnetos e tataravó de 7 criancinhas…

Desde pequena acompanhava os pais nos trabalhos da Doutrina. Conserva vivas lembranças dos trabalhos do Mestre Irineu a partir dos seus 5 anos de idade.

Com 11 anos aprendeu o hinário do seu pai, Antônio Gomes, auxiliada por dona Maria Raimunda e dona Maria Tenório. Lembra muito bem que o primeiro hinário cantado sob sua responsabilidade foi no aniversário do Sr. Elias Brito, discípulo de primeira hora, em 1953 — ela com 20 anos de idade.

Dona Adália assumiu várias funções na Doutrina do Santo Daime, ainda com o Mestre Irineu em vida de matéria. Foi enfermeira, comandante do batalhão feminino, membro do segundo Estado Maior dos trabalhos, fazia parte do serviço de cura daquela época.

A sua irmã Zulmira, que se casou com Sebastião Gonçalves, é mãe da Madrinha Peregrina Gomes Serra, esposa do Mestre Irineu e Dignatária do CICLU Alto Santo.

Francisco Grangeiro, o bom trabalhador

O marido de Adália, Francisco Grangeiro Filho (26.06.1921 – 08.08.2000), foi um dos primeiros feitores de Daime do Mestre Irineu e, quando residente na comunidade, nas terras sagradas do Alto Santo, era um colaborador e participante ativo nos mutirões e adjutórios convocados pelo líder comunitário, Irineu Serra, em benefício da coletividade ou de alguma família necessitada.

Francisco Grangeiro

Francisco Grangeiro

Contam que um dos lugares preferidos pelo Mestre Irineu para orar e meditar nas horas do Angelus era em um cafezal próximo a sua residência. Local que oferecia condições propícias para o recolhimento meditativo de um buscador de Deus. Esse lugar ficou conhecido lá na Vila Irineu Serra como o “Cafezal do Mestre”, lugar sagrado para os seus devotos.

O Mestre Irineu Serra estimulava entre seus amigos e companheiros — residentes na antiga Colônia Seringal Espalhado, atual Vila Irineu Serra — o trabalho solidário e coletivo nas formas de mutirão e adjutório, relações de trabalho cooperativos comuns e frequentes entre amigos e vizinhos no meio rural brasileiro e em bairros populares urbanos.

Ele mesmo, o Mestre Irineu Serra, só aceitava parcialmente o regime de trabalho de adjutório, pois como homem de posses sempre remunerava financeiramente os necessitados. Era no cafezal o ponto de encontro para reunião das equipes de trabalho que saiam a lavrar a terra e cuidar do roçado.

O Mestre Irineu era sempre o primeiro a chegar. E mesmo quando os seus companheiros tentavam lhe fazer surpresa, tipo combinar uma limpeza de terreno ou qualquer outro serviço sem lhe comunicar previamente, o Mestre sempre sabia, e para o local acertado se dirigia mais cedo, os aguardando.

Certa vez, quando seu Francisco Grangeiro Filho para lá se encaminhava, ao vê-lo caminhando em sua direção, o Mestre começa a cantar:

Quem quiser ser bem querido

Seja bom trabalhador

Para viver neste mundo

É preciso ter amor.

Seguido do refrão:

Trá lá, lá, lá,

Trá lá, lá, lá.

E aquela que deveria ser uma estafante e suarenta manhã de trabalho árduo na calorenta e úmida cidade de Rio Branco, se transformou numa grande festa, na celebração alegre da amizade e do companheirismo dentro daquela irmandade.

Felizardo é aquele que tem o privilégio da convivência com o Mestre, pois o seu cotidiano será sempre de festa, será sempre feliz. Certa vez perguntaram a Jesus:

— Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, e não jejuam os seus discípulos?

E Jesus lhes disse:

— Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar.

Jesus se compara ao esposo em bodas, que a festeja junto com os seus amigos. A festa da Aliança de Deus com os homens, que enviou o seu Filho para no salvar.

Francisco Grangeiro Filho

Francisco Grangeiro Filho

Muitos anos depois, aquele fiel discípulo do Mestre Irineu, o Chico Grangeiro, grande contador de causos do Mestre, encontrava-se no mesmo cafezal, lavrando a terra e aguardando a chegada do amigo Tufi Rachid Amim. Ao vê-lo se aproximar, relembra dessa canção, cantando-a em saudação ao companheiro. Logo depois, narrou ao mesmo essa significativa história: o momento especial de recebimento desta diversão pelo Mestre Irineu.

Ali surgiu a ideia de inserir essa simples e divertida canção nas Diversões do Mestre — as Diversões são um conjunto de canções cantadas nos intervalos dos hinários, para uma brincadeira, um entretenimento

Foi formulada a proposta por Tufi e aceita pelos dirigentes do Centro Livre. A partir desse dia o chamamento a se travar o bom combate para ser filho estimado da Virgem Senhora Mãe e viver neste mundo com amor é cantado nos inúmeros centros livres espalhados pelo mundo Terra, que existem em benefício dos nossos irmãos.

Centro Livre Caminho do Sol

Francisco Grangeiro Filho, sua esposa Adália Castro Grangeiro e alguns familiares e amigos, fundaram o Centro Livre Caminho do Sol alguns meses antes do desencarne do velho feitor. O Caminho do Sol está situado na Rodovia AC 40 Km 12, na Curva do Tucumã, zona rural de Rio Branco – Acre.

Dona Adália e muitos de seus familiares residem nesta arborizada chácara, e a intenção de seu Chico Grangeiro era de deixar sua família executando os trabalhos da Doutrina, sem ter que se deslocar para outros centros, distantes do seu local de residência.

Lá no Caminho do Sol eles recebem todos que chegar, de braços abertos e sorriso nos lábios. Pois, afinal de contas, o Santo Daime está aí e é para todos nós tomar.

Juarez Bomfim, Adália Grangeiro e Cecília Maringoni

Juarez Bomfim, Adália Grangeiro e Cecília Maringoni

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(Obs.: com informações fornecidas por Maria de Nazaré Grangeiro Carioca

Vídeo de Hinário no Centro Livre Caminho do Sol:

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]