A Peia do Daime: Ayahuasca, da agonia ao êxtase

A Peia do Daime. Ayahuasca, da agonia ao êxtase

Por Juarez Duarte Bomfim

Dácio Mingrone veio, me deu um abraço e me disse ao ouvido: “Hoje eu vi o Mestre Irineu. Ele estava muito bravo e me chicoteou com um enorme jagube”… Mesmo assim, Dácio sentia-se muito orgulhoso de vê-lo pessoalmente lhe disciplinando (Túlio Cícero Viana, n’O Consagrado Defensor).

Mestre Raimundo Irineu Serra, Rei Juramidã

Mestre Raimundo Irineu Serra, Rei Juramidã

Há algo comum às diferentes tradições ayahuasqueiras — e a vivência do ayahuasqueiro — que é a experiência de levar peia. Na Doutrina do Santo Daime é denominada de “peia do Daime”.

Oposto da “miração”, ou — na percepção de alguns — caminho quase obrigatório para alcançar a miração, a “peia” significa os possíveis efeitos “dolorosos” do Daime. Enquanto a miração leva o individuo à “revelação” e ao êxtase, a “peia” (expressão usada aqui como sinônimo de surra, castigo) provoca grande mal-estar físico e psíquico. Uma definição da “peia”:

“As pessoas, no desenrolar do trabalho (religioso-espiritual), atravessam passagens difíceis, que podem ir desde náuseas, mal-estar generalizado, vômito, diarreia, como sensações de depressão e angustia intensas, resultantes da revivência das coisas que ela própria considerava erradas. Essa catarse pode vir também acompanhada de “mirações” onde se vê (de uma forma alegórica ou de uma vivência em outro grau de percepção) as causas espirituais dos erros, das falhas de caráter ou mesmo, das doenças físicas”. (1)

Assim define Sandra Goulart a este fenômeno:

“A ‘peia’ refere-se a uma espécie de castigo aplicado pelo Daime ao sujeito (…) o chá do Santo Daime é visto por estes religiosos como um ‘ser divino’ que possui vontade própria. A ‘peia’ pode se expressar de várias maneiras. No sentido mais imediato ela significa uma ‘surra’, em geral sentida por aquele que, durante os rituais, ingere o chá. A surra pode implicar num excesso de vômitos, numa crise de diarréia, ou então em sensações emocionais desagradáveis. A ‘peia’ diz respeito a uma situação mais ampla, ligada a trajetória pessoal do indivíduo. Assim, ela pode ocorrer fora dos rituais da doutrina, aludindo a um período da vida do sujeito”. (2)

Sendo inerente a todos ou quase todos daimistas (ayahuasqueiros), a peia adquire múltiplos significados. Okamoto da Silva, que trata do tema em sua dissertação de mestrado, enumera várias de suas características. Segundo ele, a peia:

  1. É parte integrante e quase sempre presente nos rituais e a qual todos estão sujeitos;
  2. é um castigo ou disciplina aplicada “pelo daime” em decorrência de uma conduta inadequada, expressa por uma “falha moral” ou desconhecimento dessa falha;
  3. é consequência da desobediência a instruções recebidas “do astral”;
  4. se manifesta como um descontrole sobre os efeitos da bebida;
  5. proporciona uma “limpeza” física, mental e emocional. É natural a ocorrência de vômitos e outros efeitos purgativos;
  6. é vista como benéfica, no sentido de conscientizar o sujeito sobre falhas e erros cometidos, e sobre as formas de corrigir essas deficiências;
  7. auxilia na interpretação e dá significado a infortúnios ou dificuldades vivenciadas pelos adeptos em suas vidas. (3)
Ayahuasca (Daime)

Ayahuasca (Daime)

Para além da possibilidade do ayahuasqueiro levar peia nos rituais mágico-religiosos dos quais participa, existe algo que podemos designar como uma “cultura da peia” entre certas linhas ayahuasqueiras. O antropólogo Edward MacRae, fazendo a etnografia de uma dessas linhas ayahuasqueiras (4), assim considera:

“Para os daimistas, o mundo dos espíritos é cheio de conflitos que extravasam o plano físico, onde os espíritos precisam se materializar para estabelecer alianças. Há assim uma constante interação entre o mundo espiritual e o físico. Estes dois mundos, apesar de serem duas dimensões diferentes, seriam indivisíveis no cosmos e mutuamente dependentes.

“Os trabalhos no astral são concebidos como guerras ou batalhas contra a fraqueza, a impureza, a dúvida ou a doença”. (5)

Continuando, MacRae considera que alguns participantes, devido ao atributo de mediunidade latente ou arquétipos mentais, no decorrer das sessões travam verdadeiras “guerras” astrais entre as “forças do bem” e do “mal”, “mal” este manifestado através de pensamentos negativos, obsessões, surtos repentinos de paranoia etc. Estes adeptos travam dificílimas batalhas contra “demônios” presentes no seu “eu inferior” ou na “corrente” — acreditando que foi trazido por membros do grupo ali reunido —, e o trabalho na sessão levará o bem a triunfar.

Assim, sendo considerado uma “guerra astral” o ato de tomar Daime ritualisticamente, não importando como seja… por exemplo, mesmo num ritual festivo de bailado, tomar Daime será sempre — ou quase sempre — uma batalha, uma peia, como consequência do uso da beberagem ritualizada.

É por essas e outras que essa bebida feita do cipó e da folha já foi definida como: “ayahuasca, da agonia ao êxtase”. Em sendo parte constitutiva da experiência/vivência com Ayahuasca, a peia não pode ser comparada a bad trip dos drogadictos.

Portanto, devido ao risco da “peia” (efeitos dolorosos da ingestão da ayahuasca), são recomendados previamente que o usuário evite o consumo de bebidas alcoólicas e outras substâncias, assim como são feitas recomendações alimentares para os neófitos (recomendação de uma alimentação leve antes do trabalho); e recomendação de abstinência sexual para todos. Indivíduos que apresentem sinais de doenças mentais congênitas devem evitar tomar o Daime.

Manoel Paulo, Nonata, Antônia, uma jovem Cabocla, Padrinho Sebastiao, Túlio Cicero, Roberval e duas crianças

Manoel Paulo, Nonata, Antônia, uma jovem, Dácio, Padrinho Sebastiao, Túlio Cicero, Roberval e duas crianças

Túlio Cícero, Padrinho Sebastiao e Dácio Mingrone

Túlio Cícero, Padrinho Sebastiao e Dácio Mingrone

Túlio Cícero Viana, com sua inspirada verve, no seu magistral livro O Consagrado Defensor, assim descreve certo episódio de peia disciplinar:

“Padrinho (Sebastião) falou que tomaríamos um Daime de dez anos de idade feito pelo Mestre Irineu. No dia da concentração, fomos convocados juntos com outras pessoas escolhidas, pois era só um litro daquele poderoso Daime. Sei que tomei minha dose e sentei numa cadeira, fechando os olhos para esperar a viagem. Escutei uma ventania pesada, ela vinha se aproximando. Ouvi as janelas do templo se abrindo, cachorros latindo, gatos emitindo um som raro. Pensei: “Isto é só na minha cabeça”. Abri os olhos e me assustei quando vi que realmente aquilo acontecia, do meu lado tinha um gato que sofria uns ataques esquisitos, enquanto vomitava. Tornei a fechar os olhos, percebi uma imensa legião de espíritos perdidos que provocavam todos aqueles desmandos. Antes não acreditava nestas coisas, mas diante daquela realidade estava abismado. Eles açoitavam o templo em todas direções, a sensação é que ele podia desabar. Mantinha-me firme grudado na cadeira. Aprontaram tanto e foram indo embora, até voltar a tranquilidade. Então uma fogueira se acendeu dentro de mim, esquentava minha cabeça, dando-me a sensação de que meu cérebro derretia. Espiritualmente enxergava meu cérebro derretido como um líquido dourado, ele escorria por caminhos infinitos espalhando cores por todos os lados. Pensei; “Estou morrendo!” Quando me dei conta de que ainda permanecia vivo, estava na maior sessão de vômitos, tombado na cadeira com a cabeça entre as pernas.

“(…) até Padrinho dar por encerrada a concentração (…) Dácio (Mingrone) veio, me deu um abraço e me disse ao ouvido: “Hoje eu vi o Mestre Irineu (…) Ele estava muito bravo e me chicoteou com um enorme jagube…

“(…) Mesmo assim, Dácio sentia-se muito orgulhoso de vê-lo pessoalmente lhe disciplinando”. (6)

Nesse depoimento, o castigo é considerado método de disciplina. A planta maestra, “o professor dos professores”, ensina também através da peia.

Lembremos de Jesus Cristo que, investido de um chicote de cipó, chegou expulsando os vendilhões do templo; (7) e o Apóstolo Paulo pergunta: “que quereis? Irei ter convosco com vara ou com amor e espírito de mansidão?”. (8)

E qual é a maior das peias? Os irmãos do Norte costumam dizer que a maior das peias é tomar Daime e não mirar.

Notas e referências bibliográficas

  1. POLARI DE ALVERGA, Alex. O livro das mirações. Uma viagem ao Santo Daime. 2 ed. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995, p.87-88.
  2. GOULART , Sandra L. As raízes culturais do Santo Daime. São Paulo: Dissertação de mestrado defendida na FFLCH-USP, 1996. p. 42,43 apud SILVA, Leandro Okamoto da. Marachimbé chegou foi para apurar. Estudo sobre o castigo simbólico, ou peia, no culto do Santo Daime São Paulo: Dissertação de mestrado defendida na PUC-SP, 2004, p. 93.
  3. SILVA, Leandro Okamoto da. Ibidem, p. 94.
  4. A linha daimista designada “linha do Padrinho Sebastião.
  5. MACRAE, Edward. Guiado pela lua. São Paulo: Brasiliense, 1992, p. 70.
  6. VIANA, Túlio Cícero. O Consagrado Defensor. Belo Horizonte: Líttera Maciel Ltda, 1997, p. 102-103.
  7. MATEUS 21:12; Hino nº 68, Doutrina do Cipó, de Alex Polari de Alverga.
  8. I Coríntios 4: 21.

(Publicado originalmente em 2009. Revisado para nova publicação)

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]