No leme de seu Barquinho, Mestre Daniel segue de São Francisco o caminho / por Zerivan de Oliveira

Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)

Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)

I

Com as ordens do Divino

Pai Eterno onipotente

Peço proteção aos seres

Que formam esta corrente

Pedindo aos anjos do Céu

Que abençoem meu repente

 

II

Quero plantar a semente

E ver a árvore crescer

Dando flores, dando frutos

Pra quem quiser conhecer

A história que vou contar

Para todo mundo ver

 

III

Para aquele que for ler

Começo esta narração

Daniel Pereira de Mattos

Trouxe esta chave na mão

Ao trabalho de caridade

Se entregou de coração

 

IV

No ano da abolição

Se deu o seu nascimento

No dia 13 de julho

Ficou marcado o momento

Sua história estava escrita

No alto do firmamento

 

V

Este acontecimento

Ocorreu no Maranhão

Numa antiga feitoria

Do tempo da escravidão

Na parte da Vargem Grande

Dita São Sebastião

 

VI

Não há muita informação

Do tempo que lá vivia

Mas dizem que ele em sonho

Já vira a Virgem Maria

E que também São Francisco

Em sonhos lhe aparecia

 

VII

No sonho ele recebia

Um livro todo azulado

Que ele não entendia

Qual o significado

E só muito mais na frente

Foi que veio o resultado

 

VIII

Se mudou do seu Estado

Na Marinha se alistou

E nas águas brasileiras

Ele um tempo navegou

Até que numa fragata

No Acre desembarcou

 

IX

Quando ele lá chegou

O Acre estava na guerra

Com o Peru, país vizinho

Por uma questão de terra

Era um tempo muito duro

Quase a luta não encerra

 

X

Se a história não erra

Esse fato aconteceu

Mil novecentos e cinco

Foi quando ele conheceu

A Cidade de Rio Branco

Mas lá não permaneceu

 

XI

Conforme o destino seu

Daniel foi trabalhando

E como bom marinheiro

Sempre estava navegando

Conhecendo outros lugares

Pelo mundo viajando

 

XII

Mas já estava chegando

O tempo dele parar

E a sua história completa

Poder se realizar

Seu destino estava escrito

Não tinha como negar

 

XIII

Daniel cruzou o mar

Para outro continente

Foi até a Cidade Santa

Lá nas terras do Oriente

Conheceu Jerusalém

E a força de sua gente

 

XIV

Voltou alegre e contente

Sua fé mais afirmava

Pois tinha andado na terra

Onde Jesus caminhava

Há dois mil anos atrás

Com os discípulos andava

 

XV

Mas algo já lhe chamava

E logo quando voltou

Em mil novecentos e sete

Da Marinha se afastou

E de Belém, no Pará

Para o Acre ele rumou

 

XVI

No mesmo ano chegou

Cumprindo com seu destino

Trabalhou nos seringais

Com o Coronel Alexandrino

Também Plácido de Castro

Zé Ferreira e Zé Galdino

 

XVII

Foi mais um dos paladinos

Desta nação brasileira

Junto a outros nordestinos

Gente brava e pioneira

Construindo esta nação

Honrando a nossa bandeira

 

XVIII

Então Daniel Pereira

Alguns anos trabalhou

E em mil e novecentos

E vinte e cinco mudou

Pra capital do Estado

E a seringa ele deixou

 

XIX

Em Rio Branco chegou

Procurando se alojar

Morou na Rua da África

Depois teve que mudar

Para a Rua 6 de agosto

Mas lá não ia ficar

 

XX

Depois disso foi morar

Com a turma da boemia

Lá no bairro do Papoco

Aonde trabalharia

Lá na General Rondon

Abriu uma barbearia

 

XXI

Daniel com maestria

Muitas artes dominava

Sabia ler e escrever

E muito bem cozinhava

E na construção naval

Ele também trabalhava

 

XXII

Daniel desenrolava

A arte de carpinteiro

Era músico e artesão

Bom poeta e sapateiro

Mas no bairro do Papoco

Trabalhava de barbeiro

 

XXIII

Era também seresteiro

Amante da madrugada

E no bairro do Papoco

Animou muita noitada

Fazendo farra e bebendo

De forma descontrolada

 

XXIV

No meio dessa jornada

Daniel se entregou

Ao vício completamente

Pelas ruas se largou

Até a própria família

Com tristeza abandonou

 

XXV

Uma tarde ele abanou

Um lenço de despedida

Para um navio que estava

No cais para dar partida

Sem saber que lá estava

Sua família querida

 

XXVI

Desgraçou-se a sua vida

De angústia e de saudade

Se entregando ainda mais

A esbórnia da cidade

Sem ter lar e nem família

Solitário de verdade

 

XXVII

Tomo aqui a liberdade

Para seus nomes citar

Maria do Nascimento

A sua esposa exemplar

Os nomes dos filhos dele

A lista agora vou dar

 

XXVIII

É importante registrar

Neste singelo cordel

Creuzolina e Nazaré

Mas Ormite e Manoel

Eis a listagem completa

Da família de Daniel

 

XXIX

Cumpro aqui o meu papel

Pra narrar como se deu

Daniel em trinta e sete

Gravemente adoeceu

E então foi resgatado

Por um conterrâneo seu

 

XXX

Mestre Raimundo Irineu

Numa carroça o levou

E na luz do Santo Daime

Do conterrâneo tratou

E da doença do fígado

Com certo tempo sarou

 

XXXI

Porém quando melhorou

Ele teve uma recaída

E o vício do alcoolismo

Abriu de novo a ferida

A cura que tinha achado

Se achava agora perdida

 

XXXII

Porém quem vem nessa vida

Com uma missão a cumprir

Deus manda seus enviados

Pra não deixá-lo cair

Mestre Irineu novamente

Foi seu amigo acudir

 

XXXIII

Fez bem em não desistir

De ajudar o velho amigo

Daniel mais uma vez

No Mestre encontrou abrigo

E dessa vez conseguiu

Deixar seu viver antigo

 

XXXIV

Livrou-se desse castigo

E a Irineu acompanhou

Trabalhando na Doutrina

Ao Mestre sempre ajudou

E nos trabalhos de Daime

Por muitos anos tocou

 

XXXV

Daniel se dedicou

Ao trabalho da Doutrina

E como aluno aplicado

Ao que o professor ensina

Foi estudando com o Daime

A Santíssima Luz Divina

 

XXXVI

Seguia na disciplina

Com amor se dedicando

E aos poucos Daniel ia

Sua missão destrinchando

Sentindo que o Daime estava

Seu espírito preparando

 

XXXVII

Foi seguindo trabalhando

Aprendendo a preparar

Esta bebida sagrada

Que tem poder de curar

Por oito anos seguidos

Com o Mestre a lhe ensinar

Daniel P Mattos é o segundo à esquerda do Mestre Irineu

Daniel P Mattos é o segundo à esquerda do Mestre Irineu

XXXVIII

Então pode penetrar

Neste mistério sagrado

Seu espírito mais forte

Cada vez mais preparado

No ano quarenta e cinco

Seu destino foi selado

 

XXXIX

Ele voltava cansado

De uma concentração

Adormeceu no caminho

Ali mesmo pelo chão

No igarapé São Francisco

E teve um sonho-visão

 

XL

Nessa sua miração

Viu dois anjos do seu lado

E eles lhe entregavam

Um livro todo azulado

Pela Virgem Soberana

Cada um era ordenado

 

XLI

Cada anjo era enviado

Da Virgem da Conceição

Revelando a Daniel

Qual era a sua missão

Dentro do livro continha

Sua primeira lição

 

XLII

Recebeu a instrução

De tudo quanto faria

E a missão que na Terra

Daniel desenvolveria

E o trabalho de caridade

Que ele realizaria

 

XLIII

O Livro Azul lhe trazia

Vários salmos musicados

Que ao longo de sua vida

Foram sendo ensinados

Para que através deles

Ajudasse os necessitados

 

XLIV

Depois de tudo explicado

Que Daniel se acordou

Ao amigo Irineu Serra

A sua história contou

E o Mestre ficou feliz

Porque ele se encontrou

 

XLV

Irineu tudo escutou

E sua bênção lhe deu

Para que ele cumprisse

A missão que recebeu

Reconhecendo o valor

Que Daniel mereceu

 

XLVI

Daniel então ergueu

Uma humilde capelinha

E foi recebendo o povo

Que a sua procura vinha

Nas águas do mar sagrado

Navegando na Barquinha

Barquinho Santa Cruz

Barquinho Santa Cruz

XLVII

A partir daí conduz

O leme do seu Barquinho

Vivendo da caridade

Trabalhando com carinho

Seguindo com passo certo

De São Francisco o caminho

 

XLVIII

Naquele humilde cantinho

Que ele então denominou

Capela de São Francisco

Foi onde ele começou

Por 12 anos seguidos

Com gosto ele trabalhou

 

XLIX

Aos poucos ele graduou

Na espiritualidade

Construindo com amor

Uma obra de caridade

Sempre recebendo todos

Com respeito e humildade

 

L
Subiu com capacidade

Sempre degrau por degrau

Trazendo muitos ensinos

Do mundo espiritual

Na forma de lindos salmos

Recebidos do astral

 

LI

De uma forma especial

Sempre foi bom conselheiro

E de todos que chegavam

Era amigo e companheiro

E dos ensinos de Jesus

Foi um fiel escudeiro

 

LII

O fundamento primeiro

Daquela Santa Missão

Era Cristo e São Francisco

E a Virgem da Conceição

Consagrando na Barquinha

O ensinamento cristão

 

LIII

Colheu mais de um irmão

Nessa sua caminhada

Atendendo aquela gente

Humilde e necessitada

Muitos foram que seguiram

Com ele em sua jornada

 

LIV

Andando na mesma estrada

Ia Francisca Jovino

Senhor Agostinho Henrique

José Joaquim e Anelino

Senhor Francisco Gabriel

Joana Torquato e Avelino

 

LV

Dentro deste estudo fino

Antonio Geraldo chegou

O senhor Manuel Araújo

Também lhe acompanhou

E um grupo forte de médiuns

Frei Daniel preparou

 

LVI

Seis mulheres destacou

Para poder trabalhar

Com os guias curadores

Que vinham manifestar

Aos doentes que chegavam

Com paciência ajudar

 

LVII

A lista agora vou dar

Da equipe de Daniel

Dona Maria Ferrugem

Uma escudeira fiel

A dona Francisca Maia

E Francisca Gabriel

 

LVIII

Boto agora no papel

O nome das outras três

Dona Maria Baiana

Tinha ainda Dona Inês

Dona Chiquita completa

Minha listagem de seis

Juarez Bomfim e Cecilia Maringoni na  Barquinha de Ji-Paraná - Rondônia

Juarez Bomfim e Cecilia Maringoni na Barquinha de Ji-Paraná – Rondônia

LIX
Relato agora a vocês

Da Barquinha a formação

O Catolicismo popular

É a matriz da devoção

E a Filosofia Esotérica

Entra na composição

 

LX

Dos índios a tradição

De maneira elementar

A ligação com o Céu

Com a Terra e com o Mar

O sol, a lua, as estrelas

A floresta, o vento, o mar

 

LXI

Cultos Afros vão entrar

Trazendo a luz da verdade

Na força dos orixás

Que traz luminosidade

Caboclos e Pretos Velhos

Praticando a caridade

 

LXII

Ainda tem entidade

Que vem do fundo do mar

Sereias, ninfas e botos

Os Encantados a brilhar

E a linha do Oriente

Que vem se apresentar

 

LXIII

Antes de se ausentar

Do mundo material

Deixou todas instruções

Recebidas do astral

Para a continuação

Do trabalho espiritual

 

LXIV

De maneira especial

Consagrou a devoção

A São Francisco de Assis

Também São Sebastião

Ao Patriarca São José

E a Virgem da Conceição

 

LXV

Daniel passou então

A sua linda mensagem

No ano cinquenta e oito

Fez sua última viagem

Dia oito de setembro

Daniel fez a Passagem

 

LXVI

Esse humilde personagem

Fez a passagem num dia

Que estava acontecendo

Uma grande romaria

Consagrada a São Francisco

O seu protetor e guia

 

LXVII

Os anjos com alegria

Devem tê-lo recebido

Lá no alto do astral

Como um filho querido

Pois sua missão na terra

Daniel tinha cumprido.

Zerivan de Oliveira (José Erivan Bezerra de Oliveira)

Zerivan de Oliveira (José Erivan Bezerra de Oliveira)

José Erivan Bezerra de Oliveira possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará (1997), mestrado em Letras (2001), pela Universidade Federal do Ceará e doutorado em Sociologia (2008), pela Universidade Federal do Ceará. Atuou como professor substituto no curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará e como professor substituto do curso de Letras, da Faculdade de Ciências, Letras e Educação do Sertão Central. Tem experiência na área de Sociologia, Sociologia Rural, Letras e Antropologia, com ênfase em Sociologia e Literatura Brasileira e Antropologia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, sociologia brasileira, cordel, memória, religiosidade, Segurança Cidadã e Políticas sobre Drogas. Atuou junto ao Ministério da Justiça, junto ao PRONASCI – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, como coordenador do Comitê de Articulação Local do Pronasci no Ceará (2009 – 2014). Atualmente desenvolve pesquisa sobre Redução de danos com usuários de alcool, crack e outras substâncias a partir do uso de Ayahuasca (Informações coletadas do Lattes em 31/08/2017)

Ouça a Valsa Lydia, de Daniel Pereira de Mattos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]