Jonathas Telles de Carvalho: memórias do comendador | Por Adilson Simas

Jonathas Telles de Carvalho faleceu em 2013, aos 97 anos.

Jonathas Telles de Carvalho faleceu em 2013, aos 97 anos.

Feirense nascido nas terras da Fazenda Coroá, em Bonfim de Feira, Jonathas Telles de Carvalho, falecido em 2013, aos 97 anos, teve uma intensa participação na vida da cidade. No livro ‘Memórias de um Comendador’, um reencontro com uma rica trajetória, inclusive fatos pitorescos durante sua longa existência. Vale lembrar o prólogo da obra, editada em 2009.

O Comendador Jonathas Carvalho

Feira de Santana, segunda-feira, 30 de março de 2009. A madrugada se despede do dia. Estamos em nossa casa na Rua São Pedro, bairro da Santa Mônica. Abro os olhos e, de imediato, vem à mente um fato que me enche de satisfação e melancolia: estou completando 93 anos. Como sempre aconteceu há mais de 6 décadas, mal me movimento, Cecília acorda e é dela o primeiro beijo de parabéns. Calço os chinelos para, vacilante, arrastar o peso dos anos até o banheiro. Depois de escovar os dentes, lavo o rosto e me olho no espelho. Nele vejo as muitas caras que tive na vida. Resmungo:

– É, Jonathas, você está bem usadinho… – E sorrio para mim mesmo.

Como num filme as lembranças começam a me assaltar. A Fazenda Coroá, meu pai, minha doce mãezinha, minha farmácia em Santa Bárbara, os momentos vividos no Rotary, tantos os que se foram… Sei que já não tenho a memória prodigiosa de ontem e, amanhã, não terei a de hoje e, por isso anotei tudo e guardo como um tesouro. Faço um esforço para lembrar onde estão os meus alfarrábios e vou pegá-los. Ainda são cinco horas da manhã.

A casa está silenciosa. Mal abro a porta do quarto, tudo na penumbra, sinto algo se enroscando em minhas pernas. É Sasha, minha cadela de estimação, uma nada valente, mas amorosa companhia. Fecho a porta para a claridade não incomodar Cecilia, acendo a lâmpada e constato que a sala, meu refúgio, está como sempre: a minha cadeira de lona, a mesinha ao lado com os livros que gosto de ler, tudo denunciando o jeito de Cecilia: limpo, elegante e sempre arrumado.

Sasha quase me atropela, levantando as patas dianteiras que apoia nas minhas pernas, balançando o rabo numa alegria amorosa. Sorrio e correspondo o gesto de afeto, alisando-lhe a cabeça e coçando atrás de suas orelhas, coisa que adora. Depois, como se estivesse abençoando (é um velho costume, este de pedir ao Criador que proteja minha família!), levanto o olhar para a casa do meu filho Marcelo, que deve estar dormindo ao lado de sua Célia. Moramos vizinho e nenhum muro nos separa. Contemplo o verde que nos cerca e vou me sentar à mesa da sala de estar. Deposito as anotações sobre ela e passo a folhear tudo, começando pelas mais antigas.

E estas fotografias? Minha linda mãe, o dia do meu casamento… Ah, quantas coisas que considerava esquecidas, mas ali, naquelas páginas amarelecidas, narradas com caligrafia firme, depois vacilante, consequência dos anos. Meu Deus do Céu, como tudo se parece ter sido ontem!… ELE foi muito generoso comigo! Permitiu que eu chegasse a quase 100 anos, com a mente ágil, podendo gerenciar minha vida e meu raciocínio…

De repente, senti a companhia de alguém. Surgido do nada, ali estava o Senhor do Tempo. Sentado ao meu lado, ele sorriu e me disse:

– Comendador, o que faz você que não escreve suas memórias? Utilize este tempo ocioso para dar uma arrumada nestas coisas e junte tudo num livro. Olhe lá! Não vá esquecer-se de nada! Amigo, se não fizer isso, esses registros, um dia, serão jogados fora por uma empregada doméstica desatenta ou, quando você á tiver ido desta para uma melhor, pode ser que tomem o caminho do lixo. Acorde, homem!… Vai ser este o destino destes cadernos velhos, destas fotografias antigas? Vai destruir?! – e riu divertido.

– Ora, ora… Nem eu sei para que guardei estes cadernos velhos durante décadas, como se quisesse prender a caminhada da vida com pedaços de papel! Anotei só para lembrar de vez em quando.

– Jonathas, amigo velho, não seja egoísta. Cada página lida é um alimento para a alma do leitor. E você passou por tanta coisa… Todos deveriam escrever e publicar sua história, porque todo homem é uma enciclopédia viva. Falando nisso, lembra das peças que você pregou? O perfume que seu colega passou no bigodinho, o caso das abóboras, o discurso de Menezinho, o supositório do doutor Medrado e outras e outras? Vamos, rapaz, abra este baú de lembranças! Vai deixar de contar estas coisas engraçadas? Não acredito!…

Tão absorto estava que nem percebi o primeiro raio de sol invadindo a sala. Folheio os escritos e, aos borbotões, as coisas do passado foram tomando a sala. Quando levantei a vista, o Senhor do Tempo já não estava ali. Tomei uma decisão: Esperei, com impaciência, que o relógio marcasse oito horas e dei vários telefonemas pedindo ajuda de algumas pessoas. Estava decidida a edição de minhas memórias…

A minha vontade reuniu um grupo de amigos: Zé Ronaldo, Monteiro, Carlos Brito, Dázio e outros que resolveram montar um esquema para remexer no meu baú de lembranças, coletar velhas fotografias, redescobrir documentos amarelecidos. Embora com boa memória, há muito que não escrevo, as mãos perderam a elasticidade e, de certa maneira o tato, é terrível!

Como estou tendo dificuldade de segurar a caneta, achei melhor “contratar” os serviços do bom Boa Sorte para digitar o que eu ia ditando. Depois, como não entendemos do assunto, mais uma pessoa foi juntada ao grupo: Eduardo Kruschewsky. Este, aposentado do Banco do Brasil, tornou-se um especialista em dar formato de livro a textos e que tem, com dedicação, lido para mim tudo depois de formatado.

Pois é… Arrumamos tudo de maneira quase cronológica. Digo “quase” porque há coisas que sempre estiveram em minha vida, não dá para retalhar fatos concatenados. Eu sei que você, leitor, vai entender e pegará o fio da meada. Nestas páginas não estão só passagem de minha vida, mas, sobretudo, um pouco da história de Feira. Mergulhe de cabeça na minha narrativa e nade neste mar de recordações, mar calmo, sem muitas procelas. Afinal, não lembro de adversários e na vida sempre tive amigos, as joias mais importantes que adornam a minha cabeça de cidadão comum…

Aqui está o meu livro. Abra-o e, pelo caminho dos registros familiares, entre a Fazenda Coroá. Apure o ouvido: Está ouvindo os latidos dos vira latas que, mais curiosos que você, procuram identificar quem chega? Eles não mordem!… São de papel, estão nas páginas deste compêndio, portanto pode se achegar despreocupado…

O dia está amanhecendo. No curral um empregado, de cócoras, tira o leite da vaca Mimosa; as galinhas começam a ciscar, cacarejando enquanto o velho galo, já meio rouco, canta anunciando a aurora. Você, recém chegado ao ambiente, tem uma função: é quem vai ficar sabendo de tudo, através dessa leitura. Assim, vá passando páginas, sentindo-se sentado embaixo da copa da velha árvore, ao lado do solar, sem ser visto pelos personagens dessa narrativa.

Preste atenção: A porta da frente está rangendo nos velhos gonzos e lá está no alpendre, Dona Umbelina. Na estrada, ao longe, ouve-se o aboio de um peão que leva uma boiada para o Campo do Gado, em Feira de Santana. No horizonte, vai surgindo uma figura toda de preto. É o padre João que desmontará da mulinha e abrirá a cancela para entrar na Fazenda Coroá, selando o meu destino, pois foi com ele que tudo começou.

*Adilson Simas é jornalista.

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