A voz que vem do mar | Por Luiz Holanda

Comandante da Marinha do Brasil, Eduardo Bacellar Leal Ferreira, realiza inspeção da guarda de honra durante cerimônia no estaleiro naval de Washington.

Comandante da Marinha do Brasil, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, realiza inspeção da guarda de honra durante cerimônia no estaleiro naval de Washington.

O disciplinado Almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, comandante da Marinha, em mensagem durante as comemorações do Dia da Batalha Naval do Riachuelo, disse que a crise por que passa o país “não será mais forte do que nós”. Na sua fala, o almirante reconheceu que “vivemos tempos difíceis e incertos”, mas pediu aos seus subordinados que mantenham a hierarquia e a disciplina, princípios norteadores da manutenção da unidade e da ordem em nossas Forças Armadas.

Preocupado com a segurança interna e externa do pais, o almirante pediu que sejam mantidos os recursos para a corporação que comanda, pois não se pode descuidar da proteção de nosso povo e das nossas riquezas naturais.

Servidor incansável da nação, o ilustre militar sabe que nossas Forças Armadas são instituições permanentes de Estado, que exigem em seus quadros relações diferentes das existentes no campo civil, pois, com os militares, o país celebrou, desde a sua independência, um contrato social no qual deposita nas suas mãos a defesa de sua soberania. Em troca, os bravos militares são recompensados pela devida proteção social que lhes confere a nação. Daí as suas garantias sociais, sem qualquer regalia.

Essa história de diminuir as garantias sociais dos nossos militares para tentar tapar o rombo deixado pela corrupção é uma temeridade. Um motorista do Senado, para dirigir um automóvel levando um senador acusado de corrupção, ganha mais do que um oficial da Marinha para pilotar uma fragata.

Recentemente a imprensa publicou que sete garçons que servem os cafezinhos dos senadores ganham entre R$ 7,3 mil a R$ 14,6 mil. Eles foram nomeados em cargos comissionados através dos famigerados atos secretos editados em 2011, pelo então diretor-geral do Senado Agaciel Maia, com o título de assistentes parlamentares.

Para enganar o povo brasileiro, os senadores criaram uma engenhosa solução para esses garçons, os mais bem pagos do funcionalismo público, com salários que chegam a R$ 15 mil mensais. A mutreta consistiu em alterar as áreas de lotação e distribuir os garçons por setores como taquigrafia, comissões e logística, com os mesmos vencimentos.

Governos incompetentes e corruptos, claramente assinalados na Operação Lava Jato, têm proporcionado ao país crises e mais crises, impedindo que se anteveja qualquer solução admissível. Segundo o ministro Eliseu Padilha, apelidado por ACM de Eliseu Quadrilha, precisamos adotar uma solução que inclua os militares para diminuir o rombo na previdência social.

Ora, o rombo da previdência se deve à corrupção, e não às aposentadorias dos militares. Estes, aliás, vivem reservadamente, na simplicidade que caracteriza uma existência voltada à defesa da nação. Tanto os militares da ativa, quanto da reserva, não aceitam de modo algum a pecha de privilegiados.

A fala do almirante visou paralisar a enxurrada de manifestações de integrantes da Marinha contra o governo, alguns pedindo o retorno dos governos militares. O “freio” da tropa visou conter qualquer indisciplina ou quebra de hierarquia, O oficial enviou mensagem aos subordinados, na qual alerta que o Regime Disciplinar Militar (RDM) proíbe manifestações públicas a respeito de assuntos políticos.

Até agora os comandantes das três armas vêm conseguindo paralisar qualquer movimento. Entretanto, precisamos urgentemente de um choque de moralidade nos três poderes da nação para acabar com as mordomias, a roubalheira e a impunidade.

Nosso Poder Legislativo federal é o mais caro do mundo. Para dar um basta a essa farra, na qual os negócios públicos são geridos pela “Cosa Nostra”, faz-se necessário uma mudança total em nossos costumes políticos.

No momento, a recuperação da economia é a prioridade mais urgente, pois a crise já provocou danos bastante graves. O governo precisa criar a crença de que estamos vivendo uma nova atitude do Estado perante a população e as grandes prioridades nacionais.

Além do horizonte nublado e do mar revolto em que vivemos, há uma dura realidade a ser enfrentada. É preciso colocar a economia no fluxo duradouro e sustentável de sua expansão, gerando empregos, estimulando investimentos produtivos e revitalizando nosso comércio e nossas exportações.

O brasileiro tem uma capacidade imensa de renovar a esperança. Em todas as crises conseguimos debelar o desânimo para voltarmos a acreditar em nossa crença de que somos uma nação forte, próspera, desenvolvida e, quem sabe, algum dia justa.

Parodiando Shakespeare, haverá para a lei, causa tão suja e corrupta em que o tempero de uma voz suave não sobrepuje a aparência do mal? O Brasil tem tudo para crescer, desenvolver-se e ser um pais do primeiro mundo, mas, para isso, precisamos reciclar nossas esperanças, aproveitar as oportunidades históricas que se nos apresentam e ouvir as vozes das ruas, do verde de nossas florestas e dos gritos que vêm do mar.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]