A crise brasileira no contexto da nova guerra-fria | Por Leonardo Boff

Donald Trump e Xi Jinping, líderes dos Estados Unidos e China.

Donald Trump e Xi Jinping, líderes dos Estados Unidos e China.

O problema fundamental da crise brasileira não está na corrupção que é endêmica e tolerada pelas instâncias oficiais, porque dela se beneficiam. Se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes bancos e as empresas deixam de recolher ao INSS, isso tornaria supérflua uma reforma da Previdência.

O problema não é apenas Lula ou Dilma e muito menos Temer.  O centro da questão é a disputa no quadro da nova guerra-fria entre USA e China: quem vai controlar a sétima economia mundial e como alinhá-la à lógica do Império norte-americano, impedindo a penetração da China nos nossos países, especialmente no Brasil, pois ela precisa manter seu crescimento com recursos que  nós possuímos.

Esta estratégia começou a ser implementada com a Lava-Jato e seu juiz Sérgio Moro e a entourage de promotores, vários preparados nos USA. Prosseguiu com o impeachment da presidenta Dilma via parlamento, incorporou, setores do ministério público, da polícia federal, parte do STF e dos partidos conservadores, claramente neoliberais e ligados ao mercado.

Todas estas instâncias servem de forças auxiliares ao projeto maior do Império. Com uma vantagem: esse submetimento vem ao encontro dos propósitos dos herdeiros da Casa Grande, que jamais toleraram que alguém da senzala ou filho da pobreza, chegasse à Presidência e inaugurasse políticas sociais de inclusão das classes subalternas, capazes de pôr em xeque seus privilégios. Preferem estar seguros ao lado dos USA, como sócios menores, do que aceitar transformações no status quo favorável a eles.

Para os USA, o Brasil é um espaço no Atlântico Sul, a descoberto. Não pode continuar, pois, consoante uma das ideias-força do Pentágono, (o “full spectrum dominance”, a dominação de todo espectro territorial), o Brasil deve estar sob controle. Daí a presença da quarta frota próxima a nossas águas territoriais e ao pré-sal. A visão imperial e belicista se expressa pelas 800 bases militares pelo mundo afora. várias das quais também na América Latina.

A China, em contrapartida, segue outra estratégia. Escolheu o caminho econômico e não o belicista. Por aí pensa ter chances de triunfar. O grande projeto da Eurásia, “O caminho da Seda”, que envolve 56 países com um orçamento de ajuda ao desenvolvimento de 26 trilhões de dólares, faz com que marque sua presença também no Brasil e na América Latina.

Nesse jogo de titãs, a estratégia norte-americana conta no Brasil com fortes aliados: os que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma. Estão impondo um neoliberalismo mais radical que nos países centrais. Ele implica liquidar politicamente com a liderança popular de Lula através dos vários processos movidos contra ele pelo juiz justiceiro Sergio Moro da Lava-Jato. Eles todos seguem o figurino imperial imposto. Por isso, Moro se viu obrigado a condenar Lula, mesmo sem base jurídica suficiente, como o têm revelado eminentes juristas, do quilate de Dalmo Dallari, Fábio Konder Comparato e, por outra via, o grande analista político Moniz Bandeira.

Em termos gerais, para os USA trata-se de impedir que governos progressistas cheguem ao poder com um projeto de soberania e que reforcem um novo sujeito político, vindo debaixo, das periferias, com políticas anti-sistêmicas, mas que implicam a inclusão de milhões na sociedade, antes comandada por elites retrógradas, excludentes e inimigas de qualquer avanço que venha a ameaçar seus privilégios. Precisamos ter clareza: partidos com projetos claramente neoliberais, que colocam todo valor no mercado e todos os vícios no Estado, que –dizem-  deve ser diminuído, (como tem mostrado com vigor Jessé Souza) e que freiam até com violência a ascensão das classes subalternas, são representantes subalternos desta estratégia imperial norte-americana, e contra a China, envolvendo o Brasil nesta trama, que, para nós, no fundo, é anti-povo e anti-nacional.

Às nossas oligarquias não interessa um projeto de nação soberana, com um governo que, por meio de políticas sociais, diminua a nefasta desigualdade social (injustiça sociale que aproveite nossas virtualidades, sejam elas a nossa riqueza ecológica, a criatividade do nosso povo e a nossa posição geopoliticamente estratégica. Basta-lhes ser aliados agregados do Império norte-americano, com o suporte europeu, pois assim veem garantidos seus privilégios e salvaguardada a natureza de sua acumulação absurdamente concentradora e antissocial. Daí que reeleger Lula seria a maior desgraça para o projeto imperial e os oligopólios nacionais internacionalizados.

Essa é a real luta que se trava por debaixo das lutas político-partidárias, do combate à corrupção e à punição de corruptos e corruptores. O combate à corrupção e a punição dos corruptos são importantes, mas não acabam em si mesmas. Não podemos ser ingênuos. Importa ter claro que elas se ordenam ao alinhamento ao Império norte-americano, de costas para o povo, negando-lhe o direito de construir o seu próprio caminho e de, junto com outros, dar uma feição menos malvada à planetização e impor limites ao Grande Capital em escala mundial.

*Genézio Darci Boff (Leonardo Boff) é teólogo, escritor, professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil, e foi membro da Ordem dos Frades Menores da Igreja Católica.

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